"Se Bolsonaro fizer 50% do que promete, nunca mais sai." A festa chegou a Fernão Ferro

Na noite em que Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad e se tornou presidente do Brasil, o DN acompanhou três brasileiros apoiantes do candidato do PSL a viverem em Portugal. Os Ricardo, pai e filho, e Eucinário explicam o "fenómeno" Bolsonaro, admitem que o novo chefe do Estado é polémico, mas garantem que é também "humano". Para eles, esquerda é "corrupção"

São oito da noite. Em Fernão Ferro, Seixal, Ricardo Amaral Pessôa espera-nos na sede da sua empresa de segurança eletrónica, a RAP, na companhia do filho, também Ricardo, e um amigo de longa data, Eucinário Pinheiro. Estão a acompanhar ao minuto as previsões das urnas relativas às eleições presidenciais do Brasil, através da Rede Globo, que Ricardo, o filho, colocou a transmitir no televisor pendurado na parede do escritório do pai através do telemóvel. Os três votaram Jair Bolsonaro.

A primeira coisa que Ricardo Amaral Pessôa, 62 anos, faz é mostrar as instalações. Veste pullover e blazer pretos, como exige a discrição de um segurança. Primeiro, mostra a sala votada ao RAP Sport Club, uma equipa de futebol com jogadores brasileiros patrocinada pela sua empresa e que joga na liga organizada pela Side Line Events. Diz terem ganhado ontem ao Montepio Geral por 6-1. Depois, dá a conhecer a sala que serve de sede à Associação Brasileira em Portugal, fundada em 2003, da qual é presidente. No corredor, há uma série de posters de várias regiões do Brasil, oferecidos pela Embaixada, que podiam fazer o espaço passar por uma agência de turismo.

Nessa sala, encontram-se duas bandeiras ao fundo, a portuguesa e a brasileira, e, à esquerda, várias camisolas da associação encontram-se dobradas no fundo de uma prateleira. À direita, há dois cartazes - um com uma personagem feminina e outro com uma masculina - onde se lê "apanhado/a no tráfico humano", uma campanha de sensibilização da Comissão Para a Cidadania e Igualdade de Género, datada de 2014. Ricardo Pessôa explica que a associação presta apoio jurídico (com ajuda na documentação, por exemplo) e social (lida com muitos casos de violência doméstica) e agiliza uma bolsa de emprego para brasileiros que tenham vindo para Portugal. "Está ali, em cima da minha mesa, o passaporte de Daisy Ricciardi, o corpo dela está no Instituto de Medicina Legal. E eu, neste mês de novembro, vou fazer o enterro dela aqui." Morreu de overdose por ter servido de mula, termo usado para denominar as pessoas que transportam droga no corpo.

É também nesta sala da associação que Ricardo Pessôa conta a sua história de vida, ligada à "segurança armada no Brasil" e à "segurança eletrónica em Portugal". O exterior do edifício, que no andar de cima é reservado a habitação, encontra-se vigiado por várias câmaras. Ricardo Pessôa nasceu em Patos de Minas Gerais em outubro de 1956, chegou a ser "assessor de segurança" no Real Hospital Português de Beneficiência e foi durante essa época que conheceu um português que o incentivou a vir para Portugal.

Veio em 1991, alugou um quarto em Xabregas e começou por trabalhar na construção civil. O filho, com 11 anos, juntou-se ao pai um mês depois e a mulher e a filha de 9 vieram passados três meses. "Na sala de minha casa, ao lado dos troféus de rali - cheguei a competir em ralis - guardo uma panela e uma marmita e digo sempre 'são o maior troféu que tenho, acompanharam a minha génese'." Montou entretanto o negócio que tem hoje e vive em Fernão Ferro há 20 anos. "Sou também membro do conselho de ação social da Câmara do Seixal." E esclarece desde logo que é filiado do PS. "José Sócrates e António Costa são os meus padrinhos, no Partido Socialista."

Armas evitam violência

No escritório do pai, na companhia de Eucinário Pinheiro, 49 anos, mistura de etnia branca e negra, famacêutico em Lisboa e amigo de longa data da família, Ricardo Pessôa, filho, mostra uma foto sua tirada com José Sócrates, em 2013. A ocasião era a do lançamento de A Confiança no Mundo, dissertação da tese de mestrado do antigo primeiro ministro português publicada em livro que contou com o prefácio de Lula da Silva. Ricardo júnior mostrou também uma foto sua com o antigo presidente do Brasil, que veio a Lisboa para a apresentação. "Eu já fui petista", diz, referindo-se ao PT. "Eu acreditei nas políticas propostas aquando do primeiro mandato do Lula. Nunca fui militante de nenhum partido, mas acreditava nas pessoas. «Uma vez que já fomos extorquidos por todos os outros partidos, vamos então dar oportunidade ao PT.» Demos e foi um banho de água fria."

A aliança, larga e muito trabalhada, e o relógio grande metálico sobressaem na mão e pulso esquerdos de Ricardo enquanto gesticula, o discurso sempre pausado. Tem 39 anos e diz ser consultor em investimento imobiliário e financeiro. Esclarece que não vota em Bolsonaro por exclusão de alternativas. Refere que as propostas do candidato do PSL na área da segurança são "a cereja em cima do bolo". "Você tem a questão do armamento da população, mas com uma política de sensibilização. Tem de passar por testes." O pai complementa: "ele não está dizendo que você vai andar com arma na cintura. Não se trata de porte de arma, mas de posse de arma. São coisas diferentes. «Vou poder ter posse de arma na minha casa.»"

Os três defendem que violência não gera violência, que pessoas armadas evitam, pelo contrário, violência. "A arma só vai ser usada quando o ladrão entrar dentro de casa. É uma defesa que a pessoa tem", diz Eucinário, com estatura de atleta de basquetebol. "«Eu sou violento, mas no momento em que eu sei que vou atacar você, aí eu paro e penso assim "não, ela pode ter uma arma. Vou pensar duas vezes"»", acrescenta Ricardo Pessôa, pai. Confrontados com o exemplo dos Estados Unidos, que é o país desenvolvido com maior número de homicídios provocados por armas, Ricardo pai diz não ser um facto. "Eu moro em Fernão Ferro há 20 anos. Conheço dois homicídios, aqui", conta. "20 anos. Não conheço. E estou na área da segurança", assevera. "No Brasil, são diariamente 20 [homicídios], só no estado do Rio de Janeiro." Não aceita que o motivo por que em Portugal há poucos homicídios esteja relacionado com o facto de as pessoas não andarem armadas. "De forma alguma. Portugal não sabe o que é violência, eu sei o que é violência. Este menino era pequenininho e eu já andava armado. Sempre andei armado. Desde os meus 21, 22 anos, que andava armado, ia atrás de bandido", conta. "Sempre andei armado no Brasil. A primeira coisa que fiz quando cheguei a Portugal foi ir ao comando da PSP, identifiquei-me, mostrei as minhas credenciais e comprei uma arma. Passei a andar armado 24 horas por dia." Hoje, diz já não andar armado. "Parei. Achei que era melhor não. Não tenho problemas, nunca tive problemas. Tentei com muita dificuldade cortar esse vício e consegui cortar", explica. "É um vício porque você aos 20 anos coloca uma arma na cintura, como eu fiz. Você toma banho, veste uma calça e uma cueca e mete a arma. A vida inteira foi assim. É como se faltar o telemóvel." Esteve ligado à Polícia da Aeronáutica, integrante da Força Aérea brasileira. "Depois, fiz um curso de investigações científicas e criminais e já achava que era o Rambo. Papel de idiota, mas a gente vê isso muito".

Acabar a mama

São dez horas da noite. Ricardo, filho, sempre com um olho no ecrã do televisor, alerta que estão a sair as primeiras previsões. Bolsonaro tem 56% dos votos e Haddad 44%, numa previsão avançada pela Rede Globo, a partir de uma pesquisa feita junto de 30 mil pessoas. Os três olham para os números sem quaisquer euforias, os dados eram mais do que esperados. "Bolsonaro é um fenómeno que nunca existiu no Brasil e está a impressionar toda a comunidade internacional", diz Ricardo sénior. "Esses países que estão mamando há anos no Brasil com esse comunismo que tomava conta do país, a partir de agora vai haver uma auditoria forte no BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]."

"Bolsonaro é um fenómeno que nunca existiu no Brasil e está a impressionar toda a comunidade internacional"

Confrontado com o facto de o sistema judicial brasileiro estar a levar políticos à barra de tribunal e de haver condenações por corrupção, como é o caso de Lula da Silva, que se encontra preso, Ricardo pai responde: "está a funcionar porque apareceu um indivíduo que botou a cabeça no cepo. Não pode ir à padaria porque está ameaçado de morte. É o juiz Sérgio Moro. O Bolsonaro vai querer que ele entre no Supremo Tribunal como juiz, para ver se tem um homem de moral ali dentro."

"A única falha que eu acho que tem nesse sistema é que ele deveria pegar geral. Pegar em todos os partidos", diz Eucinário, o mais ponderado nas considerações que faz. "Nem o Temer escapa. Assim que a imunidade dele acabar, dia 1 de janeiro, ele provavelmente terá que responder", complementa Ricardo, filho. "É a esperança. Porque, se [o PSL] falhar também, aí acabou o Brasil", remata Eucinário. "Se há dois anos alguém dissesse que Bolsonaro iria ser presidente do Brasil, todo o mundo o chamava de louco", continua o farmacêutico. "Ele pegou no vácuo. Dessa rutura que teve entre a Dilma e o Temer, sobrou um espaço vazio e ele falou o que o pessoal queria ouvir: a violência, a saúde, o emprego. E o pessoal, já cheio, querendo a rutura... ele soube aproveitar isso. Foi inteligente."

"Se há dois anos alguém dissesse que Bolsonaro iria ser presidente do Brasil, todo o mundo o chamava de louco"

Ricardo Pessôa, filho, sente necessidade de voltar ao assunto da violência, enumerando as medidas que Bolsonaro propõe fazer, que lê num site, entre elas reduzir a legalidade penal para 16 anos. Perante a pergunta acerca de que medidas são propostas na área da prevenção, a de evitar que pessoas em situações desfavorecidas caiam na criminalidade, Pessôa, pai, desvia a resposta para o seu exemplo: quando chegou a Portugal, sem documentos, também podia ter caído na criminalidade. Defende que há sempre opção. São 22h05 e a conversa é interrompida para assistirmos às imagens que mostram o fogo-de-artifício a ser lançado no céu do Rio de Janeiro, junto à casa de Bolsonaro.

A moda da homossexualidade

Eucinário Pinheiro diz que não vê a homossexualidade como uma doença, mas como uma opção. Pessôa júnior sugere a palavra "tendência". Quanto aos casos das pessoas que sabem desde crianças que são homossexuais, refere que trazem "essa tendência dentro do gênes". "A homossexualidade no Brasil acaba por ser outra forma de explorar a política que está sendo feita. O Kit Gay, que foi uma proposta do governo quando Haddad era ministro da Educação, propunha que as crianças tivessem acesso a material sexual, criando condições para que elas desenvolvessem as suas capacidades sexuais no ensino fundamental [primeiro ciclo]."

Esta foi provada ser uma fake news. O chamado Kit Gay fazia parte do projeto Escola Sem Homofobia/ Brasil Sem Homofobia e era direcionado para os formadores, não para os alunos. No dia 16 de outubro deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral mandou retirar do ar os vídeos, as fotografias e os textos relativos a esta notícia falsa. "A política que o PT quer criar é que uma criança pode decidir se quer ou não pertencer ao sexo biológico."

Ele [Bolsonaro] não é contra o homossexual, ele é contra a imposição da homossexualidade a crianças"

A Alemanha aprovou este ano um projeto de lei que permite que as pessoas optem por um terceiro género na certidão de nascimento, além de feminino e masculino. "O que você faz na sua privacidade, o governo não tem nada a ver com isso. Ele [Bolsonaro] não é contra o homossexual, ele é contra a imposição da homossexualidade a crianças. O que ele bate forte é nesse tipo de políticas." Pessôa, pai, pega na Bíblia que tem em cima da mesa.

"O que o Haddad fez foi o seguinte: criou um livro - se fosse este era uma maravilha - que mostra 'menino, enfia o dedo aqui nesta coisa, agora encosta no buraco da menina'", satiriza, de Bíblia na mão. E acrescenta: "eu não quero o meu neto na escola aprendendo coisas que é para o pai ensinar ou para o avô ensinar." Perante a questão se deve haver educação sexual nas escolas ou não, Pessôa filho responde: "você entende que uma criança de dez anos deve ver um filme pornográfico? É isso que estão fazendo."

Presidente contraditório mas humano

22h21. Com 94,44% das urnas apuradas, Bolsonaro é eleito Presidente da República do Brasil. Continua a não haver celebrações. Pai e filho consideram que Bolsonaro não é homofóbico, não é misógino, não é racista. As frases bombásticas explicam-nas pelo facto de Bolsonaro ter sido sempre marcado por polémica. "Ele nunca imaginava ser presidente", diz Eucinário. "Ele pode mudar de opinião." Pessôa, filho, acrescenta: "Ele já tem feito mea culpa por muita coisa. O próprio general [Hamilton] Mourão, que é hoje eleito vice-presidente do Brasil, teve em alguns momentos algumas frases pouco saudáveis, do ponto de vista político, porque o Mourão não é político. Ele está se fazendo político. Ele é um militar."

De uma figura política não deve exigir-se mais preparação e coerência? "Bolsonaro defendeu a castração química dos pobres. Mas já veio fazer mea culpa disso. Se a pessoa não tem capacidade de... primeiro, não tem a cultura necessária; segundo, não tem os meios necessários. E depois é filho e mais filho e mais filho e mais filho. Aí ele próprio se propõe ser esterilizado, para não perpetuar algo que ele não vai dar conta de resolver." A hipótese de um indivíduo poder melhorar as suas condições financeiras e intelectuais não é tida nestas contas, assim como não o são as políticas de sensibilização para a contraceção.

Ricardo, filho, aumenta entretanto o som das imagens do televisor. Há polícia de choque a intervir nas ruas de São Paulo. Voltamos à questão da homossexualidade e ao facto de Bolsonaro ter dito que batia num filho caso fosse homossexual ao ponto de o fazer deixar de sê-lo. "Ele tem a política de educação dele", diz Ricardo júnior, não vendo contradição entre uma figura política respeitar os direitos consagrados na Constituição e, a nível privado, defender o contrário. "Ele disse essas frases há mais de dez anos", acrescenta Eucinário. "E, antes de ser uma figura pública, ele não é um ser humano?", completa Ricardo, filho, numa espécie de identificação com a figura do político, que deixou de ser a representação de uma elite.

Bolsonaro aparece no televisor, a fazer uma declaração ao país, numa transmissão que está a ser feita via online. São 22h45. "Nós temos de nos acostumar a viver com a verdade. Não existe outro caminho, se quisermos a paz e a prosperidade." Além da voz de Bolsonaro, ouve-se o som da água de uma fonte japonesa, que se encontra numa mesa de apoio por baixo do televisor, como se fosse água da chuva a cair lamuriosa lá fora. "O que eu mais quero é seguir os ensinamentos de Deus, ao lado da Constituição brasileira inspirando-me em grandes líderes, com boa assessoria técnica e profissional ao meu lado, isenta de indicações políticas de praxe. Começar a fazer um governo a partir do ano que vem que possa realmente colocar o nosso Brasil num lugar de destaque."

Bolsonaro mas de centro-direita

O Ricardo jovem considera que num primeiro momento as fake news foram produzidas por pessoas infiltradas. "Hoje, quem é pro-bolsonaro entende que não precisa de fake news porque o PT se representa a ele próprio", defende. Segundo noticiava o Diário de Notícias a 22 de outubro, 68 páginas e 43 contas de apoio a Bolsonaro foram eliminadas pelo Facebook. A 18 de outubro, a Folha de São Paulo revelou que empresários têm financiado a distribuição de mensagem em massa contra o PT via Whatsapp.

"Bolsonaro fez uma apresentação do seu sistema político pela Internet, ele é dono daquilo que ele diz. O que os outros falam que ele falou é totalmente diferente." E Ricardo júnior acrescenta: "estamos falando de 56 milhões de votos. Não tem capacidade de dizer quem ali é de boa índole." Ricardo interrompe o seu discurso e chama a atenção para o que está a ser mostrado na televisão. O recém-eleito Presidente aparenta estar no exterior da sua casa. "É um risco, isso. Ele morrer ali não morre, porque está cheio de polícia." Retomada a conversa relativamente às fake news, Eucinário aponta o dedo às redes sociais. "Você pode lançar qualquer suspeita sobre quem você quiser". O lugar da verdade foi ocupado pelo da crença. "Ou você confia no homem ou não confia."

Retomada a conversa relativamente às fake news, Eucinário aponta o dedo às redes sociais. "Você pode lançar qualquer suspeita sobre quem você quiser"

Ricardo júnior alega que Bolsonaro não é de extrema-direita, é de centro-direita. "Ele fez uma live dizendo 'eu quero estar associado aos partidos de centro-direita'." Na imagem do televisor, aparece um homem negro atrás de Bolsonaro. Trata-se do subtenente do Exército Hélio Fernando Barbosa Lopes, conhecido por Hélio Negão, e foi eleito deputado federal - o mais votado no Rio de Janeiro. Na parede, em baixo, estão emolduradas as fotografias dos netos de Ricardo Pessôa, seis, entre os quais três da sua filha Sara, fruto do seu casamento com um cabo-verdiano, missionário, que se encontram a viver nos Estados Unidos. Ouve-se, vindo do televisor, a parte final de um dos chavões usados por Bolsonaro durante a campanha, agora reiterado na qualidade de presidente eleito, "Deus acima de todos". A primeira parte é "Brasil acima de tudo".

Relativamente ao facto de Bolsonaro ter referido durante a campanha que os opositores terão de ter cuidado, Ricardo, filho, corrobora. "Os opositores são, definitivamente, ladrões do Estado." "É liberar eles para a Justiça", complementa Eucinário. Confrontados com exemplos como o da Turquia ou da Hungria, em que, apesar da vigência de um sistema eleitoral, os países vivem sob governos autoritários que fazem por se prolongar no poder, estes três brasileiros não acreditam que vá passar-se o mesmo com o Brasil. "É impossível o Brasil regressar a uma ditadura militar", opina Ricardo, filho. "Se o Bolsonaro fizer 50% do que ele promete fazer, então ele nunca mais sai", acredita Eucinário.

Estes três brasileiros defendem que não existe possibilidade de diálogo entre esquerda e direita, uma vez que associam a esquerda à corrupção que existe no país. E colocam a esquerda e a extrema-esquerda no mesmo saco, catalogando o PT de extrema-esquerda. "A esquerda estava se preparando para ser extrema-esquerda, se tivesse mais este mandato, agora. Hoje não tem mais centro-esquerda." Não existe, segundo eles, a parte do meio. "Nesse momento, o país está rachado", diz Eucinário. Ricardo, pai, começa a bater palmas. Tem estado em silêncio a escutar o discurso de Bolsonaro em direto, que acabou de terminar.

23h10. É a vez de Fernando Haddad fazer o discurso de derrota. Enquanto do televisor se ouve o candidato do PT falar em antepassados e nos valores que lhe foram transmitidos, como o da justiça, há ainda tempo para referir a ideia defendida por Bolsonaro, ele próprio um capitão da reserva, no que diz respeito à tortura e à ditadura militar. Ricardo Pessôa, filho, tenta justificar: "ele disse que preferia aumentar os cemitérios em vez de aumentar os presídios. Saem e voltam, saem e voltam e não se reintegram."

Nas despedidas, o pai diz que chegou a convidar Bolsonaro para vir a Portugal aquando da campanha, mas que, por questões de agenda, não foi possível ao candidato do PSL deslocar-se ao país, que conta com 40 mil recenseados brasileiros em Portugal, 85 426 residentes (segundo dados de 2017) e é a maior comunidade de estrangeiros a residir cá. Em Lisboa, Bolsonaro ganhou com 64,4% dos votos. Apesar de Bolsonaro ter sido eleito, pai e Eucinário dizem que não consideram a hipótese de regressarem ao Brasil, já têm a vida feita em Portugal. Com Pessôa, filho, é diferente: "se tiver um convite político, vou". É meia-noite. Na rua, o frio é cortante. Chegou o outono, com capa de noite longa de inverno.