Rússia de luto pela perda da "arma cantante" do seu exército

Dos 92 mortos na queda do Tupolev que se dirigia à Síria, 64 pertenciam ao Alexandrov Ensemble, um dos dois grupos a poder usar a designação Coro do Exército Vermelho.

Antes de embarcar no Tupolev, Dmitry Litvyakov, 30 anos, mandou um sms à mulher. "Vai para a cama, meu amor! Não sei quanto tempo o voo vai durar", lê-se na mensagem que esta partilhou com o site russo Lifenews. A verdade é que o avião militar nunca chegou ao destino, a base de Latáquia na Síria, tendo-se despenhado no mar Negro matando as 92 pessoas a bordo. Dos passageiros, 64 pertenciam ao Coro do Exército Vermelho e, tal como Dmitry, preparavam-se para animar o moral dos soldados russos que combatem na Síria. E como ele muitos deixaram para trás viúvas, como ValentinaLitvyakov, e crianças, como o filho Matvey.

Criado em 1928, o Coro do Exército Vermelho foi dirigido durante 18 anos pelo seu fundador, o general e compositor Alexander Alexandrov. É a ele que se deve o nome que o grupo constituído por um coro masculino, uma orquestra e bailarinos assumiu em 1998: Ensemble Alexandrov. Com as suas vozes poderosas acompanhadas por coreografias acrobáticas, o Coro tinha-se tornado um dos poucos a atuar no estrangeiro ainda nos tempos soviéticos. E se deram milhares de concertos e gravaram dezenas de discos, durante a II Guerra Mundial, o coro, conhecido como a "arma cantante" da Rússia, não teve descanso, realizando mais de 1500 espetáculos para os soldados soviéticos em zonas de combate e até em hospitais.

Desde o fim da União Soviética, há 25 anos, o coro multiplicou as atuações, tornando-se um símbolo da Rússia no estrangeiro. E tendo colaborado com artistas de vários países: do francês Jean-Jacques Goldman ao canadiano David Foster. O seu repertório inclui clássicos russos como Kalinka - que interpretaram por exemplo no festival da Eurovisão de 2009, que teve lugar em Moscovo - mas também músicas de Beethoven ou Bach, além de canções novas de poetas e compositores modernos.

Dependente do Ministério da Defesa, o Alexandrov Ensemble é o único, com o MVD Ensemble, nascido uma década depois, a poder usar a designação Coro do Exército Vermelho. "O Alexandrov Ensemble é um cartão-de-visita da cultura russa", afirmou à agência TASS o pianista Denis Mtsouiev, que lamentou também a perda do maestro e compositor Valéry Khalilov, o atual dirigente do coro. "Morreram os nossos paraquedistas culturais", anunciou na televisão Alexander Kiborsky, líder do Departamento cultural do governo.

Composto por cerca de 200 pessoas - entre cantores, músicos e bailarinos, o coro perdeu quase metade dos seus membros. Uma vez que o espetáculo que iam dar na Síria devia ser a capella, a orquestra não seguia no avião". A orquestra não voou [para Latáquia] porque o coro devia usar música pré-gravada, explicou à Interfax Sergei Khlopnikov, um dos cantores que não viajou para a base militar na Síria, mas porque estava doente.

Outros tiveram menos sorte. Foi o caso de Raliya, uma das jovens bailarinas do Alexandrov Ensemble. Foi no coro que conheceu Mikhail Vasin, com quem estava a preparar o casamento. O casal morreu na queda do Tupolev no mar Negro, escrevia ontem no seu site a RT, canal de televisão russo em inglês. Já Nina Fedorovna Shtuko terá tentado impedir o filho, Aleksandr, de embarcar no avião. "Foi a única viagem que lhe pedi para não fazer. Implorei-lhe durante uma semana para não ir desta vez", disse à RT. Nas redes sociais, amigos e familiares partilharam imagens dos jovens militares e das bailarinas que os acompanhavam, lamentando a morte de tantos jovens talentos.

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