Rússia acusada de lançar ciberataques contra Nobel da Paz

Autoridades holandesas expulsaram quatro diplomatas russos por causa de um ataque informático falhado contra a Organização para a Proibição de Armas Químicas, que, em 2013, foi laureada com o Nobel da Paz

Holanda e Reino Unido acusaram esta quinta-feira a Rússia de estar na origem de uma série de ciberataques em larga escala e de ter tentado infiltrar a Organização para a Proibição de Armas Químicas, que, em 2013, foi laureada com o Nobel da Paz. A OPAQ, criada em 1997, tem a sua sede em Haia na Holanda.

Os serviços de informações holandeses frustrou em abril uma tentativa russa de ciberataque à OPAQ e expulsou quatro agentes russos, declarou esta quinta-feira a ministra da Defesa da Holanda, Ank Bijleveld-Schouten, que participou numa conferência de imprensa conjunta com o embaixador britânico na Holanda.

A ministra afirmou, nesta ocasião, que os factos ocorreram a 13 de abril, mas só decidiu anunciar agora devido às informações publicadas pelo governo britânico acusando os serviços de informações russos de realizar uma série de ciberataques globais.

Quatro oficiais envolvidos neste caso na Holanda, cujas identidades não foram reveladas, foram levados de avião para Moscovo no dia da prisão e tiveram de deixar todos os seus pertences em território holandês.

Além disso, um computador portátil pertencente a um dos quatro agentes, que alegadamente integram os serviços secretos militares russos (GRU), estava ligado ao Brasil, à Suíça e à Malásia.

O conteúdo dizia respeito à investigação do acidente do voo MH17 da companhia Malaysia Airlines, abatido por um míssil em 2014, no leste da Ucrânia, por rebeldes pró-russos, afirmou a ministra holandesa.

Em abril ocorreram com frequência reuniões na OPAQ porque foram lançadas duas investigações altamente controversas: uma sobre o ataque químico em março contra o antigo espião russo Sergei Skripal e a sua filha em Salisbury (Reino Unido) e outra sobre o alegado uso de armas proibidas contra a população civil na cidade síria de Duma.

A União Europeia manifestou a sua preocupação com a tentativa de ciberataque contra a organização que zela pela aplicação da Convenção sobre as Armas Químicas.

"Expressamos sérias preocupações face a esta tentativa de minar a integridade da OPAQ, uma organização internacional respeitada", referiram, num comunicado conjunto, os presidentes do Conselho Europeu, Donald Tusk, e da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e ainda a chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini.

"Este ato agressivo mostra desrespeito pelo objetivo solene da OPAQ", de erradicar as armas químicas em todo o mundo, atuando sob mandato da ONU, salientam os responsáveis da UE, enquanto a NATO, também em comunicado, condenou "uma tentativa descarada de minar as leis e as instituições internacionais".

A embaixada russa em Londres, por seu lado, fez saber, também em comunicado, que não existem provas para sustentar estas acusações e que se trata de uma campanha de desinformação: "É uma irresponsabilidade".

De acordo com o Centro Nacional de Cibersegurança do Reino Unido os serviços secretos russos são responsáveis pelo malware Bad Rabbit, que bloqueia os computadores e pede um resgate para reverter o dano. Este foi usado na rede de metro de Kiev, no aeroporto de Odessa e no Banco Central da Rússia, segundo o governo britânico.

O Reino Unido acredita que a Rússia está na origem de outros ciberataques: um ataque à televisão britânica entre julho e agosto de 2015, um ataque, o ano passado, à Agência Mundial Antidopagem, que levou à divulgação do histórico médico de atletas e um ataque ao Partido Democrata dos EUA, em 2016, que levou à divulgação de vários documentos, entre eles os famosos emails de Hillary Clinton.

"A nossa mensagem é clara: juntos, os aliados darão a conhecer e responderão às tentativas do GRU em minar a estabilidade internacional", declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, Jeremy Hunt, precisando: "As ações do GRU são imprudentes e indiscriminadas. Tentam interferir nas eleições de outros países. Estão, inclusivamente, preparados para causar danos a empresas russas e a cidadãos russos".

Face a isto, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos decidiu acusar sete alegados espiões russos de um ataque de pirataria cibernética a empresas de controlo de dopagem, com a intenção de anular a divulgação do escândalo de doping na Rússia.

"Entre os objetivos da conspiração estava a divulgação de informação roubada, como parte de uma campanha de influência desenhada para anular e deslegitimar os esforços das organizações internacionais antidoping", aponta aquele organismo, em comunicado.

A equipa olímpica da Rússia não participou nos Jogos Olímpicos de Inverno PyeongChang2018, na Coreia do Sul, depois de um escândalo que abrangeu centenas de atletas revelar que análises antidopagem eram manipuladas em cerca de 30 desportos diferentes.

No âmbito das acusações feitas à Rússia, o secretário da Defesa dos EUA, James Mattis, considerou insustentável o desenvolvimento por parte do regime de Vladimir Putin de mísseis que violam o tratado nuclear de 1987 e afirmou, em Bruxelas, que a situação não for alterada os EUA terão de igualar essa capacidade. Ou seja: corrida aos armamentos.

Na quarta-feira, a NATO acusou a Rússia de desenvolver mísseis compatíveis com ogivas nucleares, o que viola o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (Intermediate Nuclear Forces) de 1987.

Mattis, que falava à imprensa à saída de uma reunião de ministros da Defesa da NATO, esta quinta-feira, em Bruxelas, disse que os Estados Unidos estão a avaliar as suas opções diplomáticas e militares.

"A Rússia tem de regressar ao cumprimento do Tratado INF ou os Estados Unidos vão igualar a sua capacidade para proteger os interesses dos EUA e da NATO", disse. "Que não haja dúvidas: a situação atual, com a Rússia em flagrante violação deste tratado, é insustentável", acrescentou.

No meio de tudo isto prossegue, entretanto, nos EUA, a investigação liderada pelo procurador especial Robert Mueller sobre a alegada ingerência da Rússia nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, que deram a vitória ao republicano Donald Trump.

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