"Não temos medo, mas se calhar devíamos ter"

Ontem, os parisienses recomeçaram a sair à rua. Para pôr flores e acender velas, desafiar o medo e unir a cidade. Mas basta um grito e é o pânico

Quase quatro da tarde na Praça da República. Continuam a escrever e colar papéis e cartazes na estátua, a colocar velas no chão. É domingo, faz sol, e ao silêncio fúnebre das ruas de ontem sucede-se a romaria aos locais dos atentados e à praça eleita como centro de todas as celebrações que convocam a liberdade, o laicismo e o espírito da França. Para quem esteve aqui aquando dos atentados de janeiro, há uma espécie de fadiga da emoção: outra vez isto, outra vez as mesmas palavras de ordem, outra vez a cidade que se une, grandiloquente, orgulhosa, épica como só Paris. Outra vez subir à estátua para pendurar bandeiras - como faz este rapaz muito moreno, de mochila às costas, aclamado pela multidão enquanto afixa a faixa tricolor. Mas cá em baixo espera-o um grupo de polícias, fortemente armados como andam todos nestes dias, que fazem menção de levá-lo. "Não, não, não vão prendê-lo, não?", ouve-se a várias vozes. Uma mulher de uns 60 anos grita: "O que é que estão a fazer? Deixem-no em paz. Que mal fez ele? Estamos numa situação excecional, caramba." Mas ele não tem o direito de subir à estátua, diz um polícia. Ela não desarma: "Do que não havia o direito era de fazerem o que fizeram anteontem. Disso é que não havia o direito." O tom do protesto aumenta, os polícias estão cercados, vaiados, no centro de uma roda de câmaras de TV e telefones. "Vocês envergonham a França", diz outra mulher. "Não é o momento para isto", responde um dos agentes. "É o momento, é", responde a sexagenária com a sua voz de comando. "Nunca foi tanto o momento." Os polícias desistem de sair dali com o rapaz, pedem-lhe a identificação. Ele tira-a da mochila, ergue um cartão onde se lê "Press": "Sou jornalista." Chama-se Fahrid Ahmad, tem 25 anos e é do Bangladesh. "É a segunda vez que me pedem a identificação hoje", conta ao DN, num francês atropelado. "Não sei porquê." O DN faz-se eco da dúvida: porque é que estão a pedir-lhe a identificação? Os polícias fazem cara tipo "Porque que é que achas?". Mas decidem retirar-se: "Vamos sair daqui, e este senhor vai poder circular livremente." Batem-se palmas, a senhora que o defendeu abre-lhe os braços: "Tens aqui a tua França. És meu filho."

Hoje de manhã, Sarkozy tinha exigido uma mudança dramática na política de segurança e na política de imigração - acrescentando: "Não há relação, claro." Em janeiro, uma das notáveis do partido de Sarkozy, Valérie Pécresse, defendeu um "patriot act" - a lei de exceção com que os EUA responderam ao 11 de Setembro. Leon, 66 anos, médico, assumindo "uma sensibilidade de esquerda", suspira. "Pois, as leis liberticidas. Muita gente está pronta a aceitá-las. Tem de se discutir isso. E confesso que o meu reflexo é estar de acordo." A mulher, que só dá a alcunha - Fefe --, 63 anos, secretária reformada, abana a cabeça. "Não. Estas coisas não se evitam assim. Aliás, não se evitam. Qualquer pessoa que saia à rua de kalash mata centenas em minutos. Aqui, por exemplo [num gesto que abarca a praça]" E não têm medo? Abanam a cabeça. "Não temos, mas se calhar devíamos ter. Em janeiro, havia alvos específicos: os humoristas, os judeus. Agora é contra todos. Somos todos alvos, e quando o somos todos pode acontecer a todos, em qualquer sítio. Dizem-nos para ficar em casa. E tanta gente saiu à rua." Há quem fale de ato de resistência. Leon sorri: "Não sei se é resistência ou inconsciência"

"Não há nada para ver, vês?"

Junto ao Bataclan, a sala de concertos onde ocorreu a maior matança, ainda há vários quarteirões cercados. Junto às baias e ao longo das ruas - em lugares onde terão sido atingidos passantes - há velas, ramos de flores, dizeres. Gente a tirar fotos, a rezar, a chorar -- e diretos de TV, claro. Há até pais com crianças. Um levanta-a para que ela veja a zona interdita: "Não há nada para ver, vês?"

Do que não havia o direito era de fazerem o que fizeram anteontem

Do outro lado da rua, dois jovens curdos, um rapaz e uma rapariga, e uma jornalista da TV turca pegam-se aos gritos: "Vens para aqui fazer propaganda da Turquia quando o teu país ajuda o Daesh [Estado Islâmico]. E ameaças-me? E chamas a polícia contra mim? Eu sou francês, nasci cá. E a polícia francesa não está ao serviço do governo turco." Um francês de meia idade mete-se: "Estamos em França, os vossos problemas não nos dizem respeito." Outro jovem curdo-francês responde, exaltado: "O quê, só contam os mortos aqui? Os mortos lá não contam? Onde está a sua humanidade? Acha que este problema vem de onde?" A polícia aparece, pede aos curdos para "circularem".

Não costumo ser medrosa, mas estou em pânico

Mark, o que iniciou a discussão, começa a responder às perguntas do DN quando se ouvem gritos: "Fujam, fujam." A multidão começa a correr em todas as direções. Uma rapariga passa por mim, pega-me na mão, arrasta-me para uma rua lateral. "A polícia disse para fugirmos." Grita para os carros parados: "Fujam, há um alarme." Entramos numa garagem onde já estão outras pessoas, fecham a porta de ferro. Anne Sophie - é o nome da rapariga - tem 23 anos e perdeu-se dos pais, deixou o telefone no carro, chora. "Não costumo ser medrosa, mas estou em pânico." Minutos depois, consegue falar com o pai no telefone de outra pessoa. Acede a sair e procurá-lo. Está numa rua perto, no carro. "Vem connosco", insiste ela. "Não estás em segurança." Passam dois polícias à paisana, mão nas armas à cintura, olhar nervoso esquadrinhando os carros que passam lentamente. "Já se pode ir para ali?", pergunto, apontando na direção do Boulevard Voltaire. "Sim, pode ir." Saberei depois que o movimento de pânico idêntico aconteceu ao mesmo tempo na Praça da República. Não há medo até haver.

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