Recolher obrigatório e corrida aos bancos em Harare

Todos os dias às 18:30, um tanque militar circula, tocando a sirene para o recolher obrigatório, na avenida principal e mais movimentada da capital

O recolher obrigatório na capital do Zimbabué desde a intervenção militar de quarta-feira levou alguns moradores de Harare a mudar de rotinas. A circulação nas ruas e subúrbios da capital está interdita das 19:00 às 05:00, uma medida que abrange restaurantes e bares e que afeta sobretudo quem trabalhava à noite.

"Agora fechamos às 19:00. Já não atendemos durante 24 horas, como era habitual" diz à Lusa Tariro Masa, funcionária numa rede de restaurante, referindo que alguns funcionários noturnos foram dispensados.

Um tanque militar circula, tocando a sirene, todos os dias às 18:30 na avenida que tem o nome do primeiro presidente moçambicano pós-independência, Samora Machel. É a principal avenida da capital, a mais movimentada.

Depois de passar, as ruas ficam desertas, testemunha a Lusa, e é assim, tanto na maior avenida, como nas ruas de bairro por onde o tanque passa.

"Esta é uma cidade que não dormia e agora fica sem pessoas nas ruas às 19:00", lamenta um taxista, que cancelou as habituais escalas noturnas e passou a trabalhar só de dia, num horário "com poucos clientes e receita".

Uma estudante, Ennie Munetsi, explica à Lusa que, com o que ganhava no trabalho sazonal em restaurantes noturnos, conseguia pagar algumas despesas, mas agora divide o tempo de aulas com "raras solicitações de trabalhos diurnos".

"Isso está a ter impacto" na planificação do dia-a-dia e na carteira, acrescentou, adiantando que várias colegas estão igualmente a ressentir-se dos "danos colaterais" da tensão política no país.

Hoje, com os tanques ainda em posições estratégicas na capital, vários moradores fizeram longas filas em bancos, em busca de reservas de dinheiro em numerário.

"Tenho tentado obter dinheiro em numerário desde terça-feira, para ter reservas em caso de necessidade, porque a situação política ainda pode evoluir" conta à Lusa Sammuel Murera, numa longa fila, à porta de uma agência bancária, sublinhando que não pretende deixar o país com a crise.

O Zimbabué enfrenta uma aguda escassez de divisas desde a introdução do dólar norte-americano, sendo raras as transações em numerário, depois de os bancos terem encorajado o uso massivo de cartões de débito e de crédito.

No último ano, o Governo introduziu uma moeda de troca, o Bond, que circula em paralelo com o dólar, mas que também começou a ser difícil de encontrar.

"Preciso levantar um dinheiro enviado por um parente no estrangeiro para garantir as reservas da família. Podemos vir a precisar de dinheiro em espécie", diz Miranda Chida, uma moradora de Harare que enfrenta uma fila de quase 150 metros junto a uma agência de intermediação financeira.

Algumas pessoas param em restaurantes e supermercados e, quando veem clientes com notas, perguntam-lhes se podem pagar com cartão e ficar com as notas, testemunhou a Lusa.

Nas ruas de Harare, alguns condutores de transportes coletivos aplaudem o afastamento da polícia de proteção e de trânsito desde que se Harare passou a ter controlo militar.

A mudança, dizem, trouxe "dignidade e sossego" por ter acabado com extorsões e corrupção.

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