Regina Duarte toma posse mas já é chamada de "comunista"

Quarta secretária de cultura em um ano de governo Bolsonaro, a atriz demitiu logo diretores ligados ao guru do presidente, Olavo de Carvalho. Nas redes, "olavistas" e bolsonaristas" falam em traição. Ela lembra que lhe foi dada "carta branca".

A quarta secretária de cultura do governo de Jair Bolsonaro, a atriz Regina Duarte, tomou posse do cargo nesta quarta-feira em Brasília mas nas redes sociais e não só os próprios apoiantes do presidente do Brasil já exigem a sua demissão. Em causa, a exoneração, por iniciativa de Duarte, de dois secretários, dois diretores, dois chefes de gabinete e mais seis funcionários ligados a Olavo de Carvalho, o filósofo radicado nos EUA considerado guru de Bolsonaro e da nova direita do país.

Na rede social Twitter o dia amanheceu com o assunto #foraregina como o mais comentado. Alguns bolsonaristas pediram para o presidente "botar ordem nessa bagunça", outros chamaram-na de "comunista" e de membro do PSOL, partido de extrema-esquerda, e a maioria usa a palavra "traidora" para a definir. Há quem a designe também como um "Cavalo de Tróia" que vai entrar no governo para devolver a cultura à esquerda.

O próprio Olavo de Carvalho reagiu com irritação: "Aplaudir a indicação da Regina Duarte parece ter sido uma cagada minha, mais uma entre tantas. Não sei onde vou arranjar tanto papel higiénico". Antes, ele dera a entender que a própria atriz fora indicada por ele: "Se a Regina Duarte quer mesmo se livrar de indicados do Olavo de Carvalho, a pessoa principal que ela teria de botar para fora do ministério seria ela mesma", escreveu o ex-astrólogo que inspira a nova direita do Brasil.

Entre os demitidos está Dante Mantovani, presidente da Fundação Nacional das Artes, que causou polémica ao dizer que "o rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo".

Ao jornal O Globo, o ex-diretor do Departamento do Sistema Nacional de Cultura disse que "o motivo da demissão foi apenas por sermos bolsonaristas". "Eu, por exemplo, não estava lá por isso. Sou altamente técnico e qualificado. Inclusivamente, em novembro do ano passado, comecei a prestar serviços de assessoria jurídica voluntariamente para a secretaria. Só depois a [reverenda] Jane, ex-secretária-adjunta, me indicou para o cargo de diretor", afirmou Ricardo Freire Vasconcellos.

Na posse, o assunto foi indiretamente aflorado. Depois de dizer que assumiu para "pacificar" a área cultural, a nova secretária da cultura virou-se para o presidente e disse que aceitou o convite por ouvir que tinha "carta branca".

"O convite que me trouxe até aqui falava em porteira fechada [austeridade] e carta branca. Não vou esquecer não, presidente. Foi inclusivamente com esses argumentos que eu me estimulei e trouxe para trabalhar comigo uma equipa apaixonada, experiente, louca para botar a mão na massa".

Bolsonaro reagiu: "Obviamente, em alguns momentos eu exerço poder de veto em alguns nomes. Já o fiz em todos os ministérios, até para proteger a autoridade. Isso não é perseguir ninguém. É colocar os ministérios e as secretarias na direção que foi tomada pelo chefe do executivo",

Regina, cuja secretaria responde ao ministro do turismo Marcelo Antonio, sob acusação de corrupção e outros crimes por desvio de dinheiro de candidaturas femininas falsas nas eleições de 2018, disse ainda que o propósito dela "é pacificação e diálogo permanente com o setor cultural, com estados e municípios, com o parlamento e com os órgãos de controlo". "Uma cultura forte consolida a identidade de uma nação. A cultura é um ativo que gera emprego, renda, inclusão social, impostos, acessibilidade e educação. E é nisso que acreditamos", continuou.

A famosa ex-atriz da TV Globo, emissora com quem rescindiu contrato de 50 anos na semana passada para poder assumir o cargo, substituiu Roberto Alvim, demitido após plagiar texto de Joseph Goebbels, ministro nazi da propaganda, ao som de Richard Wagner, o músico preferido do regime de Adolf Hitler.

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