Quem é Kim Yo-jong, a irmã mais nova do líder norte-coreano?

Tem sido a pessoa mais próxima de Kim Jong-un desde que ele assumiu o poder em 2011. A menina que sonhava ser bailarina poderá em breve ser a nova líder da Coreia do Norte.

Irmã, confidente, assistente pessoal, primeiro, representante oficial, depois. E, agora, também, sua possível sucessora. De todos os membros da família que poderão assumir o poder no lugar do líder norte-coreano, Kim Jong-un, a sua irmã mais nova, Kim Yo-jong, parece ser a escolha mais provável.

A questão sobre se Kim Yo-jong se vai ou não tornar a primeira mulher líder da Coreia do Norte tornou-se central à medida que as dúvidas sobre o estado de saúde do seu irmão se intensificaram, uma vez que Kim Jong-un não aparece em público há duas semanas - embora na noite deste domingo um fonte do governo sul-coreano tenha garantido à CNN que o líder do norte da península "está vivo".

No entanto, sabemos pouco sobre a possível sucessora de Kim Jong-un. Não existem sequer certezas sobre a data de nascimento, embora se pense que Kim Yo-jong seja cerca de quatro anos mais nova do que o irmão, ou seja, tenha agora 31 anos.

Kim Yo-jong era uma miúda que sonhava ser bailarina e a quem o pai chamava "princesa". Em 1996, muito nova ainda, foi morar com o irmão, Kim Jong-un, em Berna, na Suíça, onde ambos estudaram até ao ano 2000. Estavam os dois sozinhos numa casa, com os criados e os guarda-costas. Terá sido nesse período que ela e o irmão se tornaram muito próximos. No regresso à Coreia, licenciou-se em informática na Universidade de Pyongyang. Em 2007 tornou-se uma das líderes juvenis no Partido dos Trabalhadores da Coreia.

A primeira aparição pública de Kim Yo-jong foi numa sessão de fotografias com os participantes da 3.ª Conferência do Partidos dos Trabalhadores da Coreia, em setembro de 2010, quando ficou ao lado da secretária pessoal e suposta amante do pai, Kim Ok. Depois, foi notada a sua presença ao lado do irmão no momento da morte do pai, em 2011.

Mas ela só foi referida oficialmente pela primeira vez a 9 de março de 2014, quando acompanhou o irmão a uma votação da Assembleia Popular Suprema. Kim Yo-jong foi identificada como uma "alta funcionária" do Comité Central do partido.

Kim Yo-jong tornou-se a confidente mais próxima do irmão, acompanhando-o em visitas de inspeção a fábricas, quintas e unidades militares. Numa viagem do líder à China, a irmã foi vista a segurar um cinzeiro para que ele apagasse um cigarro - era quase como uma assistente pessoal.

Na verdade, era mais do que isso. Tornou-se vice-diretora do Departamento de Propaganda e Agitação do Partido dos Trabalhadores, onde, entre outras coisas, era responsável por gerir a imagem do líder nos meios de comunicação estatais. Foi ela quem incentivou o "culto da personalidade" em volta de Kim Jong-un e também quem organizou alguns dos eventos públicos mais relevantes nos últimos anos na Coreia do Norte.

Em 2017, Kim Yo-jong foi nomeada membro suplente do politburo, tornando-se a segunda mulher a ter lugar naquele órgão.

Entretanto, o seu envolvimento nos assuntos diplomáticos tornou-se mais óbvio. Esteve ao lado de irmão nas cimeiras com o presidente dos EUA, Donald Trump (em 2018 em Singapura e em 2019 em Hanói) e com o presidente chinês, Xi Jinping, sentou-se atrás do vice-presidente Mike Pence quanto representou a Coreia do Norte nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018 e foi o primeiro membro da família governante a visitar Seul desde a guerra, onde entregou uma mensagem pessoal de seu irmão, convidando o presidente sul-coreano Moon Jae-in para um encontro.

No mês passado, Kim Yo-jong fez a sua primeira declaração pública, acusando o Sul de ser como um "cão a latir assustado" depois de Seul ter protestado contra um exercício militar de tiro. E em março, elogiou publicamente Donald Trump por enviar a Kim uma carta na qual dizia que esperava manter boas relações bilaterais e oferecia ajuda para lidar com a pandemia de coronavírus.

Em abril do ano passado, após o fracasso da cimeira de Hanói, ela foi removida do politburo do partido, tendo sido reintegrada este mês. Atualmente, Kim Yo-jong é deputada na Assembleia Popular e ocupa o cargo de primeira vice-diretora do Comité Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia - o que, só por si, já a tornaria uma das pessoas mais poderosas do país. Mas, além disto, existe ainda a família.

O poder como um negócio de família

"O regime norte-coreano é um negócio familiar e Kim Jong-un parece confiar na irmã", diz Leif-Eric Easley, professor associado de estudos internacionais na Universidade Ewha, em Seul, citado pelo The Guardian. "Ela demonstrou capacidade de modernizar a imagem do regime e tem alguma influência sobre a propaganda do Estado. Mas a sua função mais importante é ser confidente do irmão."

A Coreia do Norte é um regime totalitário que mistura o estalinismo com o ideal juche, de autossuficiência, uma linha de pensamento assente no nacionalismo e no culto a Kim Il-sung (o "grande líder") e família. Como tal, apesar de o país ter uma constituição e um órgão de representação do povo, o poder tem estado concentrado na família Kim e na elite militar. Kim Il-sung escolheu como sucessor o filho Kim Jong-il e o "querido líder" designou o filho Kim Jong-un o terceiro desta dinastia. Não há, porém, nenhum mecanismo ou legislação que preveja o substituto ou o sucessor do autocrata.

Quando Kim Jong-un assumiu o poder após a morte do seu pai em 2011, a grande questão era se o então líder de 20 e poucos anos poderia governar um país que reverenciava a antiguidade. Desde o início, ele exerceu a sua autoridade sobre generais mais antigos e eliminou os potenciais rivais: executou o seu tio e ex-deputado Jang Song-thaek, e suspeita-se que terá ordenado o assassínio do seu meio-irmão mais velho, Kim Jong-nam, exilado na Malásia.

De acordo com Kim Yong-hyun, professor de estudos norte-coreanos na Universidade Dongguk em Seul, a promoção de Kim Yo-jong e outros é um sinal de que "o regime de Kim Jong-un terminou a sua coexistência com os sobreviventes do regime anterior de Kim Jong-il, tendo realizado uma substituição geracional nos principais lugares de elite do partido".

O maior problema parece ser o facto de ela ser uma mulher numa sociedade controlada por homens. Muitos observadores da Coreia do Norte dizem que a família é mais importante que o género, mas alguns mostram-se céticos.

Uma mulher líder na Coreia do Norte?

Legalmente, não há nada que impeça uma mulher de ter o poder na Coreia do Norte. Ainda assim, alguns analistas acham que Kim Yo-jong nunca conseguirá dominar os generais que comandam o programa de armas nucleares. "É quase impensável ter uma líder feminina na Coreia do Norte" em parte devido ao seu "patriarcado único, baseado no confucionismo", diz Lee Byong-chul, ex-consultor presidencial da Coreia do Sul em questões de segurança nacional e atualmente professor na o Instituto de Estudos do Extremo Oriente, em Seul. Este especialista duvida que ela consiga controlar os "velhos generais do sexo masculino" sem a influência de seu irmão.

"O papel de Kim Yo-jong provavelmente será limitado a, no máximo, o de um regente", devido ao patriarcado feudal da Coreia do Norte, considera também Yoo Ho-yeol, que ensina estudos norte-coreanos na Universidade da Coreia e anteriormente assessorou o ministério da unificação e o ministério da defesa da Coreia do Sul. "Não apenas a liderança dominante é masculina, como também a população iria resistir a uma líder feminina", acredita este especialista citado pelo Bloomberg.

Apesar da primazia masculina, na vizinha Coreia do Sul, por exemplo, Park Geun-hye, filha do ex-ditador Park Chun-hee, foi eleita presidente em 2013, tornando-se na primeira mulher a ocupar o cargo no país.

Mas também há quem acredite no potencial da irmã mais nova de Kim Jong-un. "Kim Yo-jong já subiu tão alto que não é vista como uma mulher como as outras, mas como uma líder que tem a maior legitimidade para governar", diz Chun Yungwoo, ex-enviado da Coreia do Sul para negociações nucleares internacionais com a Coreia do Norte. "A Coreia do Norte é seguramente uma das sociedades mais machistas do mundo, mas a linhagem juntamente com o seu estatuto no Partido dos Trabalhadores da Coreia sobrepõem-se ao género."

Da mesma forma também Sung-Yoon-lee, que ensina Estudos Coreanos na Escola de Direito e Diplomacia Fletcher da Universidade Tufts, em Massachusetts, está convicta que Kim Yo-jong já "mostrou que sabe exercer a autoridade": "Os generais têm todo o interesse em proteger o seu próprio poder e entendem que o poder atravessa a família Kim", explica. "Ela será capaz de exercer o poder através de uma mistura de terror e promoções. Ela sabe exatamente como jogar este jogo."

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