Quatro batalhões da NATO para travar ambições russas

Efetivos e localização das unidades definida na reunião da Aliança Atlântica que se inicia hoje em Bruxelas. Varsóvia classifica como "ameaça séria" atuação de Moscovo na região.

Serão até cerca de quatro mil efetivos, distribuídos por quatro batalhões "reforçados", que vão ser colocados, de "forma rotativa", na Polónia e nos Estados bálticos no quadro de "uma nova atitude de defesa" da NATO no seu flanco Leste como parte da resposta à atuação da Rússia na Ucrânia e em toda a região, afirmou ontem o secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg. Dois batalhões serão fornecidos pelos Estados Unidos e os restantes serão um do Reino Unido e um outro da Alemanha.

A presença rotativa das forças da Aliança visa não pôr em causa os Acordos de Paris, assinados em 1997, que impedem a presença permanente de forças da NATO em países fronteiriços com a Rússia.

Na conferência de imprensa a antecipar a reunião dos ministros da Defesa dos 28 Estados da Aliança, hoje e amanhã em Bruxelas, Stoltenberg escusou-se a detalhar o total de efetivos para os quatro batalhões e os locais onde ficarão estacionados, assim como os países de origem das unidades, referindo a decisão final para a Cimeira da NATO, a 8 e 9 de julho, em Varsóvia. Mas o total de efetivos deve ser definido na reunião de Bruxelas.

Para Stoltenberg, as decisões tomadas hoje e amanhã mostram a determinação da NATO em evidenciar o "poder de dissuasão" necessário para enfrentar a natureza das novas ameaças e "estabelecer o equilíbrio adequado para "para reforçar as capacidades das unidades no terreno e projetar forças".

O secretário-geral da Aliança destacou que o posicionamento dos quatro batalhões é apenas parte de uma estrutura de defesa que integra ainda a Força Conjunta de Resposta Imediata, com cerca de cinco mil efetivos, e a Força de Resposta da NATO, com cerca de 40 mil militares. Mas nem tudo se resume à presença de tropas no terreno. Stoltenberg destacou a importância da criação, em fevereiro, de seis centros de comando e controlo na Bulgária, Estónia, Letónia, Lituânia, Polónia e Roménia, e a realização, em maio, de dois exercícios militares - Brilliant Jump e Brilliant Capability que testaram, respetivamente, as capacidades de rápida deslocação de unidades - a maioria proveniente de Espanha - até ao flanco Leste da NATO e de organização dos centros de comando na região.

Foi ainda destacado o facto de ser já possível um rápido movimento de tropas em exercícios militares pelos territórios dos membros da Aliança no âmbito de um esforço político realizado com os respetivos governos. Este desenvolvimento e as novas estruturas no terreno permitiram que o "tempo de resposta a uma crise, que era de 30 dias, tenha passado para dois ou três dias", afirmou o general Salvatore Farina no final do Brilliant Capability (no início do mês em Szczecin, na Polónia) em declarações a jornalistas estrangeiros, entre os quais o DN, presentes a convite do governo de Varsóvia. O exercício visou certificar o quartel-general do Corpo Multinacional Nordeste como centro de comando e controlo com "capacidade de resposta imediata" a crises no flanco Leste da Aliança.

Diálogo com a Rússia

Numa conjuntura de "elevada tensão" entre a Rússia e a NATO, na sua conferência de imprensa o secretário-geral referiu a importância de manter o diálogo com Moscovo e admitiu a realização de um Conselho NATO-Rússia antes da cimeira de julho. Estas reuniões foram interrompidas após a anexação da Crimeia em junho 2014, tendo-se realizado apenas uma, a 20 de abril último, em que ficaram claras "as profundas diferenças" entre os dois lados, declarou Stoltenberg no final da reunião.

A reunião de abril sucedeu uma semana após o mais recente incidente entre os dois lados, quando um Su-24 chegou a nove metros de distância do destroyer americano USS Donald Cook durante um exercício no Mar Báltico, em que participava um helicóptero polaco que estava a bordo.

Ontem, interrogado sobre a possibilidade de realização de nova reunião do Conselho NATO-Rússia, Stoltenberg admitiu ser possível "ainda antes da cimeira" de Varsóvia, adiantando, contudo, não estar acordada nem a data nem a agenda do encontro.

Ainda numa questão que envolve a Rússia, a guerra no Leste da Ucrânia, que tem conhecido um intensificar de confrontos nas últimas semanas, Stoltenberg indicou que haverá amanhã um encontro com o ministro da Defesa deste país para um ponto da situação, estando igualmente agendada uma reunião com o ministro da mesma pasta da Geórgia, país que travou uma breve guerra com a Rússia, em agosto de 2008, nas regiões da Abecásia e Ossétia do Sul, declaradas independentes por grupos pró-russos.

"Há ameaças sérias"

A conjuntura que se vive nos Bálticos e no Leste da Europa criou "um ambiente mais tenso nas patrulhas áreas", explicou o tenente-aviador polaco Marcin Kawecki, falando com os jornalistas estrangeiros que visitaram a base de Lask, no centro da Polónia.

É de facto no domínio aéreo que se tem verificado o maior número de incidentes entre os países da NATO e a Rússia, o que leva este piloto de F-16, o que torna "um maior desafio" a realização das missões, que realiza em regra "três ou quatro vezes" por semana.

Tendo como plano de fundo a tensão descrita pelo aviador polaco entende-se melhor as preocupações do poder político em Varsóvia expressas ao referido grupo de jornalistas pelo porta-voz do presidente Andrzej Duda. Para Marek Magiorowski, é fundamental "convencer os nossos aliados que há ameaças sérias à Polónia" e restantes países da região. "Putin tenta criar a impressão" de que é a NATO a criar uma "escalada de tensões", mas é "Moscovo que investe cada vez mais nas forças armadas, que anexou a Crimeia, que atua de forma violenta na Ucrânia, que multiplica os exercícios militares", disse Magiorowski. "A Rússia é um adversário real" que prossegue um desígnio específico: "o regresso ao mundo bipolar em que a URSS e os EUA eram determinantes", considerou o porta-voz da presidência polaca. Para este, uma "guerra na Europa não é impossível. Não é de excluir que possa suceder no solo de um membro da NATO" e a Aliança "tem de estar preparada para isso".

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