Quando Mugabe espalhou a confusão em Lisboa

Robert Mugabe, que morreu esta sexta-feira aos 95 anos, foi o homem forte do Zimbabwe durante mais de três décadas. Em 2007, a sua vinda a Lisboa, para participar na cimeira UE-África, gerou tensão na Europa, entre europeus e africanos e protestos nas ruas da capital portuguesa

Em dezembro de 2007, durante a presidência portuguesa da União Europeia, houve dois eventos de alto nível realizados em Lisboa que foram boicotados pelo então primeiro-ministro britânico Gordon Brown: um foi a cerimónia de assinatura do Tratado de Lisboa no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, no dia 13 de dezembro, o outro foi a cimeira UE-África, que teve lugar no Pavilhão de Portugal e na FIL, Parque das Nações, uma semana antes, entre os dias 8 e 9 de dezembro.

No primeiro caso o então líder trabalhista fez-se representar pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros David Miliband e a sua ausência explica-se pela sempre complicada relação Reino Unido-UE, como se pode comprovar pelo estado em que atualmente estão - ou melhor não estão - os procedimentos para fazer acontecer o Brexit. No segundo caso o chefe do governo decidiu que os britânicos seriam representados apenas pela baronesa Valeria Amos e a sua não-comparência ficou a dever-se à presença do então presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, naquela que foi a segunda cimeira entre europeus e africanos.

Desde que soube que os portugueses tencionavam convidar todos - mesmo todos os dirigentes de África - para a cimeira, Gordon Brown começou a protestar e a dizer que não aceitaria sentar-se à mesma mesa do que Mugabe. O então presidente do Zimbabwe, que esta sexta-feira morreu aos 95 anos, em Singapura, onde recebia tratamento médico, liderou uma campanha de guerrilha contra o governo da ex-colónia britânica nos anos 1970 e, mais tarde, promoveu uma campanha de expropriação dos fazendeiros brancos e de expulsão dos mesmos das suas terras. A solidarizar-se com o boicote do Reino Unido de Gordon Brown, o então primeiro-ministro da República checa, Mirek Topolanek, que enviou à capital portuguesa o seu MNE. Apesar de tudo, o boicote não implicou o bloqueio da iniciativa, tendo esta sido finalmente apoiada por Londres.

Alvo de sanções da UE desde 2002, acusado de violações dos direitos humanos, de arruinar a economia do seu país e de perseguir de forma violenta os políticos que faziam oposição ao seu partido, o ZANU-PF, o presidente do Zimbabwe estava impedido de pisar solo europeu. Mas Portugal decidiu levantar a proibição para que Mugabe viesse à cimeira. E convidou-o. Apesar disso, fez saber, na voz do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que preferia que ele não viesse. Após alguma tensão, numa entrevista ao Jornal de Angola, em outubro de 2007, o líder zimbabweano afirmou: "Não compete à Europa dizer quem deve participar ou não. Se um dia permitirmos isso estamos acabados. A UE quer dividir-nos". O mesmo jornal angolano noticiou então que Mugabe confirmara ao então presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, que viria à capital portuguesa participar na cimeira UE-África. Esta seria a primeira vez, desde 2001, quando visitou França e Bélgica, que Robert Mugabe pisaria território europeu.

Mugabe confirmou a sua presença na cimeira de chefes do Estado e de governo através de uma mensagem escrita que foi entregue ao então chefe do Estado angolano pelo então ministro para a Habitação Rural do Zimbabwe. Este era Emmerson Munangagwa, o qual foi citado, na altura, pelo mesmo jornal, a dizer: "As sanções só permitiram que nos tornássemos mais fortes ao longo destes anos. Como presidente do Órgão de Defesa e Segurança da SADC, o chefe do Estado angolano tem sido capaz de dizer ao mundo e à comunidade internacional que o Zimbabwe está politicamente firme nas suas posições". Munangagwa foi mais tarde vice-presidente do Zimbabwe, acabando por ser demitido por Mugabe, em novembro de 2017. Na sequência de um golpe sem sangue, apoiado pela população, Munangagwa sucedeu a Mugabe à frente do partido e do país, depois de aquele ter passado mais de três décadas no poder naquele Estado da África Austral. A sucessão deu-se, primeiro, de forma interina e, depois das presidenciais de 30 de julho de 2018, de forma permanente.

Quando fez a sua chegada oficial a Lisboa, a 7 de dezembro, Mugabe tinha à sua espera, no Pavilhão de Portugal, o então secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, atual ministro da Defesa. Posteriormente, o então primeiro-ministro português, José Sócrates, deu as boas-vindas a todos os dirigentes presentes, dizendo que "durante estes duas de cimeira, Lisboa será, seguramente, a mais africana de todas as cidades da União Europeia". No decorrer da cimeira, as declarações mais duras sobre a situação zimbabweana foram feitas pela ainda chanceler alemã Angela Merkel: "A atual situação no Zimbabwe prejudica a imagem de uma nova África. Por causa disso, temos que mudar aqui, nesta fórmula, para colocar todos os nossos esforços no fortalecimento da democracia. Não temos o direito de olhar para o lado quando a questão são os direitos humanos. A intimidação dos que têm opiniões diferentes ou da imprensa não pode ser justificada. Nós, UE, estamos unidos na nossa avaliação... a situação no Zimbabwe preocupa-nos a todos, tanto na Europa como em África".

Enquanto Merkel falava, Mugabe, segundo reportagens da altura, não mostrou qualquer emoção. Combativo, o líder zimbabweano desferiu duras críticas aos primeiros-ministros que apoiaram o boicote de Gordon Brown: "O bando dos quatro pró-Gordon Brown [Alemanha, Suécia, Dinamarca e Holanda] pensam realmente que conhecem melhor do que o Zimbabwe ou do que os outros africanos [a situação dos direitos humanos]. É este tipo de arrogância e de complexo de superioridade [europeia] que nós combatemos". O mal-estar foi impossível de disfarçar. Dentro e fora da FIL.

À entrada do Parque das Nações, junto à Gare do Oriente, a PSP controlava os manifestantes anti-Mugabe, que o apelidavam de assassino e etc... Do estrangeiro vieram até Lisboa, para protestar, zimbabweanos residentes no Reino Unido. Do resto de Portugal também. Entre os manifestantes, o DN encontrou, na altura, um britânico, a residir no Algarve, que perdera a fazenda para os homens do regime e do partido de Robert Mugabe na antiga Rodésia do Sul. Mas, verdade seja dita, Mugabe não foi o único líder contestado nestas manifestações. O outro foi Muammar Al-Kadhafi. Desse, tanto havia críticos como apoiantes. O então líder da Líbia, que acabaria morto em 2011 na sequência da Primavera Árabe, foi notícia também por montar a sua tradicional tenda dentro do Forte de São Julião da Barra em Oeiras.

O certo é que, apesar da tensão, no final da cimeira que custou 10 milhões de euros, Mugabe apoiou a Declaração de Lisboa. "Como testemunho das nossas ambições, e de tudo o que hoje partilhamos e partilhámos no passado, estamos decididos a construir uma nova parceria política estratégica para o futuro, ultrapassando a tradicional relação doador-recetor e partindo de valores e objetivos comuns, na via da paz, da estabilidade e do Estado de direito, do progresso e do desenvolvimento", dizia o documento, notando: "Estamos convictos de que esta cimeira será lembrada como um momento de reconhecimento da maturidade e da transformação operada no nosso diálogo de continentes, inaugurando novas vias e oportunidades para agir coletivamente em prol do nosso futuro comum".

Sete anos mais tarde, em 2014, ano em que Robert Mugabe recusou ir Bruxelas a mais uma cimeira UE-África, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros português, Luís Amado, afirmou numa conferência na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, que valeu a pena trazer Mugabe àquela cimeira UE-África. "O 'efeito Mugabe' fez a mudança nas relações com África", afirmou, no evento organizado pelo Instituto Vale Flor, ISCTE e Instituto Camões, considerando que a relação entre a Europa e África tem de ser entendida "no contexto de uma reconfiguração geopolítica, a grande metamorfose que o mundo está a sofrer e que nos permitem arrumar de novo as relações dos últimos 500 anos".

Até agora já foram realizadas cinco cimeiras entre europeus e africanos. A de Lisboa foi a segunda. Em 2021, ano em que Portugal volta a assumir a presidência rotativa do Conselho da UE, pretende organizar outra. Isso mesmo confirmou em julho o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, durante a sua visita a Moçambique, garantindo que tal cimeira será realizada "qualquer que seja o Governo português saído das próximas eleições" legislativas marcadas para o próximo dia 6 de outubro. Entretanto, muita coisa mudou. Tanto em África. Como na Europa.

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