Quando ele e ela foram feitos um para o outro e também para a presidência

Nos EUA pode acontecer que a mulher se sente na cadeira que já pertenceu ao marido. Não será caso único. Por duas vezes, na Argentina, o poder ficou a morar na mesma casa

Caso consiga derrotar Donald Trump nas eleições de novembro, Hillary irá ocupar o lugar que já foi de Bill Clinton entre 1993 e 2001. Será a primeira presidente norte-americana, mas não será a primeira mulher a suceder ao marido na chefia do Estado. Nesse particular o pioneirismo pertence à Argentina. Ainda que em circunstâncias distintas, por duas vezes elas tomaram o lugar que havia sido deles.

A 1 de julho de 1974, o coração de Juan Domingo Perón deixou de bater. A morte interrompia-lhe o terceiro mandato como presidente argentino. Depois de ter ocupado o cargo entre 1946 e 1955, regressara ao poder em 1973, já com 78 anos, após quase duas décadas de exílio. Foi durante essa ausência forçada que Perón, no Panamá, conheceu aquela que viria a ser a sua terceira mulher. Isabel de nome artístico e também natural da Argentina, trabalhava como bailarina em cabarés. María Estela, por batismo, era 35 anos mais nova do que Juan e ocupava assim o lugar no coração de Juan Domingo deixado por Evita, que morrera em 1952, vítima de cancro.

Quando Perón regressa a Buenos Aires para ocupar de novo a presidência, Isabel, além de primeira-dama, chama igualmente a si as funções de vice-presidente. Evita fora também candidata ao lugar, nas eleições de 1951, mas desistiu do bilhete conjunto com o marido ainda durante a campanha e nunca chegou a assumir responsabilidades governativas.

Em 1974, com a morte de Perón, Isabel assumiu as rédeas da nação, tornando-se na primeira mulher a dirigir a Argentina e uma das primeiras no mundo a assumir responsabilidades políticas de chefia nacional. Mas não durou muito o consulado. Em março de 1976 foi vítima de um golpe de estado, tendo vindo a exilar-se em Espanha onde ainda vive, hoje com 85 anos.

Já neste século, com o casal Kirchner, a Argentina voltou a ver uma mulher suceder ao marido na presidência do país. Néstor e Cristina conheceram-se através de amigos comuns no mesmo ano em que o coração de Juan Domingo Perón desistiu de bater, em 1974. Casaram no ano seguinte.

Em 2003, Nestor Kirchner liderou a coligação Frente para a Vitória que concorreu às presidenciais. Acabaria por perder a primeira volta, por uma escassa margem (22,2% contra 24,3%), para o bloco político chefiado pelo ex-presidente (1989-1999) Carlos Menem. A segunda ronda não chegou a realizar-se. Com a desistência do adversário - motivada pela larga desvantagem que lhe era atribuída pelas sondagens -, Nestor Kirchner ficou automaticamente com o cargo. Findo o mandato, em 2007, tinha chegado a hora de Cristina.

Advogada de formação, já levava uma longa experiência política, como deputada e senadora, quando decidiu avançar para o posto hierárquico mais alto do país.

Também ao leme da coligação Frente para a Vitória, foi eleita em dezembro de 2007, com 45,3% dos votos. A vitória voltaria a sorrir-lhe quatro anos volvidos, desta vez ainda mais expressiva: 54,1%. Deixaria a presidência em 2011, no final do segundo mandato, já viúva. Nestor morreu em 2010, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. O destino trocou-lhes as voltas. Alguns analistas políticos, como indica a BBC, acreditam que o plano era o casal continuar na Casa Rosada, com Nestor a assumir novamente os destinos do país.

França e Filipinas

Do lado de cá do Atlântico, na Europa, ela quis, tentou, mas não conseguiu. Ele sim. Ségolène Royal, nascida no atual Senegal numa base militar, e François Hollande conheceram-se numa festa nos tempos de faculdade, em 1978. Nunca casaram, mas viveram juntos quase 30 anos e tiveram quatro filhos. Em 2007, Ségolène entrava na história da mesma forma que Hillary Clinton, ao tornar-se na primeira mulher candidata ao Eliseu nomeada por um grande partido.

Mas faltou-lhe um bocadinho assim. Conquistou 46,9% dos votos na segunda volta, realizada em maio, tendo perdido para Nicolas Sarkozy, que obteve 53,1%. Chegava ao fim o sonho presidencial de Ségolène. E no mês seguinte terminava também a relação com François. Veio depois a saber-se que o amor esfriara há já algum tempo e que ele mantinha uma relação com a jornalista Valérie Trierweiler.

Em 2011 viriam a ser adversários nas primárias do PS francês. François conseguiu a nomeação e Ségolène ficou-se pelo quarto lugar na primeira volta, com apenas 7% dos votos. Hollande acabaria por derrotar Sarkozy nas presidenciais, vingando, por tortas linhas, o desaire eleitoral da ex-mulher. Desde 2014 que Ségolène ocupa o cargo de ministra do Ambiente e da Energia no governo de Hollande, liderado pelo primeiro-ministro Manuel Valls.

Imelda Marcos, 87 anos, é hoje uma avó de oito netos, mas já foi primeira-dama das Filipinas e também candidata presidencial. No final de 1965, Ferdinand Marcos, marido de Imelda, venceu as presidenciais com 52%. Era o início de um longo reinado que só acabaria duas décadas mais tarde. Entre 1972 e 1981 Marcos decretou a lei marcial e governou de forma autoritária, sem que tivesse havido eleições. Em 1986 disse finalmente adeus ao poder. Apesar de ter ganho as eleições a Corázon Aquino, acabou por ser afastado depois de os militares decretarem que houvera fraude eleitoral. Nas eleições seguintes, em 1992, já depois da morte de Marcos em 1989, foi a vez de Imelda tentar a sua sorte. Não foi esse, nem de longe nem de perto, o desejo do povo. A ex-primeira-dama não foi além do quinto lugar, com 10,3% dos votos.

Talvez em novembro seja a vez de Hillary ocupar o lugar que já foi de Bill. Talvez tenham sido feitos um para o outro e os dois para a presidência.

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