Putin recebe Assad e anuncia novo capítulo para a Síria

Presidente russo recebe hoje Erdogan e Rouhani em Sochi. Antes, ao lado lado do líder sírio, anunciou que as operações militares estão a chegar ao fim. É hora de discutir a transição

Saiu do carro, subiu a sorrir os degraus da residência oficial da presidência russa em Sochi, apertou a mão de Vladimir Putin e logo tombou sobre este num abraço, tão breve quanto simbólico. A reunião de três horas do presidente sírio Bashar al-Assad com o homólogo russo, na segunda-feira à noite, é a segunda deslocação à Rússia (e ao estrangeiro) desde o eclodir da guerra, em 2011. E marca o virar da página num conflito de seis anos em que a principal aliança da oposição síria se demitiu e na qual o Irão, através do presidente Hassan Rouhani, anunciou a derrota do Estado Islâmico.

Vladimir Putin é a peça central do conflito na Síria. Hoje recebe na mesma cidade na costa do Mar Negro os presidentes da Turquia e do Irão, após ter mantido conversas ao telefone com os líderes da Arábia Saudita e dos Estados Unidos, Salman al-Saud e Donald Trump. O homem acusado de desestabilizar a Ucrânia é o mesmo a encabeçar esforços para que a paz seja uma realidade na Síria, impondo o que alguns comentadores chamam de pax russica.

"Ainda temos um longo caminho a percorrer antes de alcançar uma vitória completa sobre os terroristas. Mas, no que diz respeito ao nosso trabalho conjunto na luta contra o terrorismo no território da Síria, a operação militar está de facto a chegar ao fim", declarou Putin a Assad. Este concordou com o anfitrião: "É do nosso interesse avançar com o processo político. Contamos com o apoio da Rússia para assegurar a não interferência de atores externos. Não queremos olhar para trás. Todos os que querem verdadeiramente uma solução política são bem-vindos. Estamos prontos a dialogar."

Na visita surpresa de Assad, houve tempo para este se mostrar agradecido aos militares russos (e ao ministro da Defesa, o general Sergei Shoigu), com quem se encontrou no final da reunião. "Gostaria de sublinhar o esforço realizado peças forças armadas da Federação Russa, os sacrifícios que fizeram. Não nos esqueceremos", afirmou. A intervenção militar russa, iniciada em setembro de 2015, foi crucial para alterar o destino da guerra.

Não é claro se para o Kremlin a manutenção de Assad no poder é objeto de análise com as outras potências em jogo. "Foram discutidas possíveis opções de soluções políticas", disse o porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, a esse propósito. Coincidência, ou não, a Comissão Suprema para as Negociações, a maior aliança política da oposição síria - cujo primeiro ponto na agenda era a saída de Assad do poder - viu a sua liderança demitir-se. O abandono de Riyad Hijab, ex-primeiro-ministro, e de outros nove membros da aliança apoiada pela Arábia Saudita foi visto com agrado por Moscovo. "Retirar o protagonismo a figuras radicais permitirá unir essa oposição heterogénea, interna e externa, numa plataforma mais razoável, realista e construtiva", comentou o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov. Riade recebe nesta semana uma conferência da oposição síria.

No encontro tripartido de hoje, o outro aliado de Assad, Teerão, deverá defender a permanência no poder do filho de Hafez al-Assad. Ontem, o presidente Rouhani anunciou o fim do Estado Islâmico. "Com a orientação de Deus e a resistência das pessoas na região, podemos dizer que esse mal que pendia sobre a cabeça das pessoas foi afastado ou reduzido."

Antes do encontro entre Putin, Erdogan e Rouhani, as chefias militares concordaram em coordenar esforços para eliminar o Estado Islâmico e outros grupos terroristas, bem como em iniciar esforços para pacificar Idlib, região controlada por rebeldes apoiados por Ancara.

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