Putin e Trump. Descubra as diferenças

O muito aguardado encontro entre Vladimir Putin e Donald Trump junta duas pessoas com vivências, temperamento e estilo muito diversos. Mas se alguns dossiês cruciais os separam, há muito que os junta.

O presidente finlandês Sauli Niinistö vai ter um acréscimo de popularidade a partir do momento em que nesta segunda-feira, por volta das 13.00 em Helsínquia, receber no palácio presidencial Donald Trump e Vladimir Putin e encaminhá-los para o Salão Gótico.


A partir desse momento, o russo e o norte-americano ficarão a sós, apenas com os tradutores como testemunhas de uma reunião sem agenda.

Um vazio que os mais verrinosos poderão associar à capacidade estratégica de Trump e os mais pragmáticos a uma tentativa de reiniciar as relações entre Moscovo e Washington. Algo que o anterior presidente, Barack Obama, tentou sem sucesso.

Obama, alvo comum

O 44.º presidente dos EUA pode ser um primeiro ponto de aproximação. É do conhecimento geral que o empresário nutre um ódio de longa data ao seu antecessor no cargo. Ao nível político tudo tem feito para não deixar pedra sobre pedra do anterior presidente.

E desde o momento em que contribuiu para os rumores - infundados - de que Obama não era cidadão norte-americano que Trump não perde uma ocasião para apoucá-lo.

Na quinta-feira, na conferência de imprensa conjunta com a britânica Theresa May, voltou a responsabilizar Obama pela anexação russa da Crimeia. Já o fizera no G7, e também na cimeira da NATO, quando à pergunta se iria reconhecer aquele território como russo. "O que vai acontecer, não sei. Não estou satisfeito".

Vladimir Putin nunca escondeu o desdém que sentia por Barack Obama e deverá aproveitar-se desse ponto em comum para criar empatia com Trump. O antigo embaixador em Moscovo Michael McFaul conta no Washington Post que na primeira reunião entre Putin e Obama, o primeiro queixou-se longamente da equipa de George W. Bush.

Admirador de Putin

Quando ainda estava longe de se candidatar a um cargo político, em 2013, Trump perguntava no Twitter, caso se encontrasse com Putin em Moscovo: "Será que vai ser o meu novo melhor amigo?"

Para os serviços secretos norte-americanos, sim, a ponto de ter dado ordens para uma campanha nas redes sociais a seu favor, em detrimento de Hillary Clinton, como se lê no relatório entretanto tornado público.

Vladimir Putin nasceu numa família operária em Leninegrado, hoje São Petersburgo, em 1952, e fez carreira nas fileiras do KGB.

Donald Trump nasceu no seio de uma família abastada em Nova Iorque, e quando começou os seus negócios beneficiou de um empréstimo do pai no valor de um milhão de dólares. Enquanto este expandia o seu império imobiliário, Putin via o império soviético desintegrar-se.

Um e outro prometeram "devolver a grandeza" aos respetivos países. Putin é o artífice da União Económica Euroasiática, criada em 2015, e que tem como objetivo voltar a ligar todos os países que fizeram parte da URSS, com exceção dos países bálticos, que estão integrados na União Europeia.

Na vertente da defesa, um outro arco é desenhado com a Organização para a Cooperação de Xangai, que junta a Rússia à China, Índia, Paquistão e a antigas repúblicas soviéticas.


Donald Trump fez campanha com a frase "Tornar a América grande outra vez", em alusão a um declínio na indústria norte-americana. Para levar a sua avante iniciou uma guerra comercial com a China - que acusa de roubo intelectual e de concorrência desleal -, mas também dos aliados, da UE ao Canadá e ao México.
O seu desprezo em relação a instituições como a UE, a NATO ou a Organização Mundial do Comércio são boas notícias para o Kremlin.

O bilionário usou a TV para se expor e à sua família, levando a máxima "falem bem ou falem mal mas falem de mim" à letra. Ganhou enorme popularidade enquanto apresentador de um programa de reality.


Trump é um utilizador compulsivo do Twitter, no qual demonstra todo um arco de emoções. Nas conferências de imprensa ou qualquer situação em que tenha um microfone à frente, nunca se sabe o que vai dizer ou desdizer. Exemplo mais recente, as declarações sobre Theresa May ao The Sun.

Pelo contrário, de Putin apenas sabe que do KGB seguiu para a câmara da cidade natal e daí para primeiro-ministro. Dos familiares, há quase um segredo de Estado: é sabido que é divorciado e que tem duas filhas. O russo não tem smartphone e só usa da palavra em momentos agendados, não se deixando enredar em imprevistos.

Ambos têm uma visão semelhante em relação à comunicação social, tentando instrumentalizá-la a seu favor. Um pela perseguição à liberdade de imprensa e ao pluralismo - desde 2000 foram assassinados 25 jornalistas, embora ninguém possa acusar o presidente - o outro pela forma como espalha a sua mensagem, entre factos, mentiras e meias verdades, culpando os mensageiros de serem transmissores de fake news e abraçando a Fox News e fontes com uma agenda de extrema-direita como a Breitbart.

Putin e Trump são homens de grande fortuna patrimonial. Se a Fortune avalia a riqueza do norte-americano em 2,8 mil milhões de dólares, a de Putin ninguém sabe ao certo. Oficialmente recebe 121 mil euros por ano. Há quem aponte para 70 mil milhões de dólares e até 200 mil milhões, como o administrador da Hermitage Capital Management declarou perante uma comissão do Senado norte-americano.

Pontos de fricção

A Ucrânia, a Síria e a interferência russa nas eleições norte-americanas são os pontos quentes entre ambos.

Putin e Trump são homens que não costumam ceder sob pressão. Mas se Trump, como negociador nato, não se importa de dar algo em troca de outra coisa para selar um acordo, Putin nunca fez concessões na sua carreira política.

"A ideia que Trump recentemente sugeriu de que Putin poderia fazer uma concessão e sair da Ucrânia ou da Síria é risível. Putin não faz nenhum favor a ninguém. Geopolítica para ele é um jogo de soma zero", escreveu o embaixador McFaul.