Proximidade com Orbán chumba candidato húngaro a comissário do Alargamento e Vizinhança

Oliver Varhelyi, o candidato indigitado pela Hungria a pasta do Alargamento e da Vizinhança, esteve esta quinta-feira mais de três horas a responder aos eurodeputados no comité dos Negócios Estrangeiros, mas a maioria não ficou convencida. A principal razão será a suspeita de que o húngaro, até agora embaixador de Orbán para a UE, possa agir sob a influência deste.

"Ontem tínhamos uma imagem mais positiva dele, que parecia querer distanciar-se de Orban. Mas não temos certeza disso".

A frase é de Attila Ara-Kovacs, um eurodeputado húngaro socialista que com os colegas do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, Verdes, Renew Europe e a Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde obstaculizou a aprovação do compatriota, exigindo mais esclarecimentos, por meio de perguntas a que terá de responder por escrito. "É algo que nos deixou inseguros quanto ao que deveríamos pensar desta candidatura."

Já Kinga Gál, eurodeputada húngara do Fidesz, o partido de Orbán, considerou-se completamente satisfeita: "Ele respondeu de maneira calma às perguntas durante a audiência e as suas respostas foram profundas. Do ponto de vista profissional, penso que tem muita qualidade".

Depois do chumbo, devido a conflitos de interesses, do anterior candidato da Hungria, o ex-ministro da Justiça do país, László Trócsányi, este segundo indigitado pela Hungria para a pasta do Alargamento e Vizinhança na Comissão Europeia está a ter dificuldades em convencer o Parlamento Europeu da sua adequação para o cargo: conseguiu 30 votos em 142 membro do comité para os Negócios Estrangeiros, ficando muito longe dos dois terços exigidos para a aprovação. Um revés que atrasa a tomada de posse da comissão presidida pela alemã Ursula Von der Leyen.

Oliver Varhelyi, de 47 anos, diplomata, descrito como um tecnocrata que domina bem as matérias mas considerado, apesar de formalmente independente, muito próximo do primeiro-ministro Viktor Orbán, prometeu "não aceitar qualquer interferência [do primeiro-ministro do seu país, que não só é eurocético como visto como pró Rússia]", e defender o interesse comunitário, afirmando: "Temos de continuar a espalhar a democracia, prosperidade e Estado de direito no coração do nosso continente, a região dos Balcãs Ocidentais. É do interesse deles, e é do nosso interesse". A defesa do Estado de direito é um assunto particularmente sensível, já que o governo húngaro está a ser alvo de uma ação legal interposta pelo parlamento europeu por falhas, precisamente, na defesa do Estado de direito, e a indigitação do anterior candidato foi vista como uma provocação.

"Sem dúvida que Várhelyi é um diplomata muito experiente mas não nos convenceu. Temos de saber qual é de facto a sua visão quanto aos restantes países do leste e do sul nestes tempos de provação", disse o croata Tonino Picula,do Grupo da Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, expressando preocupação com a ligação a Orbán --"Gostaríamos de ter da sua parte a promessa escrita de que as suas ações como Representante Permanente da Hungria na UE não vão interferir nos seus compromissos futuros" --, justificando: "Continuamos comprometidos com o alargamento da UE e temos de ter a certeza de que esta pasta da maior importância fica nas melhores mãos".

O Expresso teve acesso às perguntas colocadas a Várhelyi, que aqui reproduzem:

"Sente-se vinculado ou influenciado no exercício das suas futuras funções como Comissário, incluindo pelas declarações que o seu primeiro-ministro fez sobre seu papel e a declaração feita no Conselho Turco em Baku, em 15 de outubro de 2019? [Viktor Orbán defende que a Hungria pode ser a ligação entre a Turquia e a UE]"

"Como avaliaria uma situação em que um governo da UE concedesse asilo a algum ex-primeiro-ministro condenado de um país do alargamento?"

"Como vê a recomendação do Parlamento Europeu em adotar um regime específico de sanções aos Estados que interferem nos direitos humanos, atualmente em discussão no Conselho e como contribuirá para sua rápida adoção?"

"No caso de um país do alargamento limitar o espaço dos partidos da oposição, controlar quase completamente os meios de comunicação nacionais, forçar os juízes a aposentarem-se precocemente, restringir a liberdade académica e não combater o crime organizado e a corrupção, o que recomendaria como comissário?

"Após a sua declaração na qual deu prioridade ao desenvolvimento económico, ao investimento estrangeiro e à gestão de migração em relação aos vizinhos do sul [Argélia, Egito, Israel, Jordânia, Líbia, Marrocos, Autoridade Palestina, Síria e Tunísia], que apoio prestará à sociedade civil nesses países parceiros? E está disposto a comprometer-se a suspender a prestação de assistência por meio de apoio orçamental aos governos que violem os direitos humanos, incluindo, entre outros, os direitos dos defensores dos direitos humanos e os direitos dos migrantes e refugiados e minorias religiosas?"

"Na sua opinião, qual deve ser o nível de apoio do IPA [Assistência Pré-Adesão] aos Balcãs Ocidentais? Acredita na redução do IPA e outros apoios financeiros à Turquia? Quais são os seus planos para mitigar e reduzir influências externas nos Balcãs Ocidentais?"

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