Espanha em greve geral de mulheres: "Sem nós, o mundo para"

Dia Internacional da Mulher está a ser marcado por protestos em 170 países. Em Espanha, uma greve geral está a afetar todos os setores, desde os transportes à comunicação social

O Dia Internacional da Mulher está a ser marcado por protestos em mais de 170 países, com temas em cima da mesa que vão da igualdade de tratamento nos rendimentos e acesso a lugares de topo ao combate ao assédio sexual. Mas só em Espanha foi decretada uma greve geral de mulheres. Com o mote: "Sem nós, o mundo para", o violeta como tonalidade oficial e o apoio dos sindicatos, o protesto está a ter efeitos em todos os setores, desde os transportes e saúde e à própria comunicação social.

Na página da Internet do diário El País, uma das imagens em destaque na cobertura em direto de um dia considerado "histórico" no país vizinho é a própria redação deste jornal, onde se podem ver apenas homens a trabalhar e várias secretárias vazias cujos monitores têm uma imagem alusiva ao 8M (protesto de oito de Março) como protetor de ecrã.

Imagens semelhantes, divulgadas nas redes sociais, mostram vários parlamentos regionais onde é notória a ausência de deputadas. Políticos do sexo feminino e masculino, incluindo líderes partidários e autarcas, têm publicado mensagens de apoio ao protesto feminista.

Até agora as várias concentrações convocadas têm-se pautado pela tranquilidade ainda que, em Barcelona, a polícia tenha já atuado para impedir o corte de algumas ruas pelas manifestantes.

Greve com forte impacto

O CNT, a CGT e a Confederación Intersindical convocaram um dia inteiro de greve enquanto as duas maiores estruturas do setor em Espanha, a UGT e o CCOO, entregaram pré-avisos para paragens parciais entre as 11.30 e as 13.30 e, da parte da tarde, das 16.00 às 18.00.

Com alguma polémica - porque a greve abrange mulheres, deixando à partida toda a força de trabalho do sexo masculino em funções - o Ministério do Fomento espanhol decretou serviços mínimos em alguns setores, nomeadamente nos transportes. Ainda assim, a paralisação está a ter um forte impacto. A RENFE, que gere a ferrovia do país vizinho, suspendeu mais de 300 ligações de média e longa distância previstas para o dia. Nos trajetos mais curtos a taxa de cobertura está a ser da ordem dos 50%, subindo para os 75% em horas de ponta.

Também nos setores da Saúde e da Educação estão decretados serviços mínimos. Nas escolas, em muitos casos, estará apenas assegurada a presença de um elemento da direção e do pessoal necessário para garantir o serviço das cantinas e de acompanhamento de alunos com necessidades educativas especiais. Algumas universidades, nomeadamente a de Barcelona, anunciaram também a suspensão dos serviços académicos em várias faculdades.

Nos hospitais o impacto também é relevante. Por exemplo, no caso de Valência, apenas estão asseguradas 25% das consultas externas prioritárias e os centros de saúde estão a funcionar dentro dos parâmetros habituais para um sábado e não um dia de semana.

Aventais na varanda

O protesto estende-se às mulheres que trabalham sem salário nas suas próprias casas, assegurando o cuidado das famílias e as tarefas domésticas. Dando sequência a um apelo feito pelas redes sociais, várias mulheres penduraram hoje os seus aventais nas varandas como sinal de que se encontram em greve.

Em Portugal, apesar de dados do Eurostat revelarem que fomos o país da União Europeia em que o fosso salarial entre homens e mulheres mais cresceu entre 2011 e 2016 (4,6%), nenhuma organização sindical aderiu ao protesto do país vizinho. Estão, ainda assim, previstas várias iniciativas para assinalar o Dia Internacional da Mulher.

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