Proibir viagens? Reduzir contágio na comunidade é mais eficaz

Um estudo avaliou o efeito da quarentena imposta à cidade de Wuhan pelas autoridades chinesas a partir de 23 de janeiro e verificou que isso só adiou em três a cinco dias a progressão da doença no próprio país

Quais são as medidas mais eficazes para conter a epidemia em curso, num momento em que ela já está em mais de 110 países e com transmissão sustentada em muitos deles, como é o caso em vários estados europeus, com a Itália à cabeça? Será mesmo eficaz isolar cidades e regiões inteiras como fez a China e como, numa decisão inédita em tempo de paz, está a fazer a Itália?

Para tentar perceber o contributo que a proibição de deslocações pode ter na contenção da epidemia, um grupo de investigadores dos Estados Unidos e de Itália, coordenado por Alessandro Vespignani, da Fundação ISI, em Turim, e da Universidade de Northeastern, nos Estados Unidos, modelou a progressão da epidemia na China e chegou à conclusão de que a quarentena imposta à cidade de Wuhan, impedindo todas as deslocações, quer para fora quer para dentro da cidade, a partir de 23 de janeiro, apenas adiou entre três a cinco dias a epidemia no próprio país.

Porquê? Porque nessa altura, muitas pessoas que tinham sido infetadas na cidade onde tudo começou já tinham viajado para outras regiões, gerando novos focos da doença noutros pontos do país. Estava-se em pleno Ano Novo chinês e milhões de pessoas estavam nessa altura a viajar para passarem as festividades com a família.

Em contraste, a medida imposta pelas autoridades chinesas acabou por ter impacto à escala internacional, porque adiou até meados de fevereiro a disseminação da doença, que acabou por sair da China duas a três semanas depois, sobretudo a partir de outras cidades, como Xangai, Pequim, Shenzhen e Guangzhu, de acordo com os autores do estudo.

O modelo computacional desenvolvido pelos investigadores indica ainda que a limitação de deslocações, mesmo com um corte de 90% das viagens a partir de uma região afetada, tem apenas "um impacto modesto" na progressão da epidemia, a menos que isso "seja acompanhado de intervenções no âmbito da saúde pública e de alterações nos comportamentos para se reduzir consideravelmente a transmissibilidade da doença".

Os que os dados indicam, dizem os cientistas, é que as restrições de viagens para regiões afetadas pela Covid-19 têm um impacto modesto, enquanto a aplicação de medidas para diminuir o contágio na comunidade é bastante mais eficaz.

Numa situação que considera ser já de pandemia, embora a Organização Mundial da Saúde ainda esteja a evitar usar a palavra, o virologista e investigador do Instituto de Medicina Molecular - João Lobo Antunes, da Universidade de Lisboa, Pedro Simas, defende por seu turno que "o mais importante nesta altura é proteger os grupos de risco", que são os idosos e as pessoas com doenças crónica ou respiratórias.

"Mais cedo ou mais tarde este vírus vai infetar a maior parte da população, porque é novo e não existe imunidade contra ele", sublinha o especialista. "Nesse sentido, o que é necessário ter mecanismos para proteger as pessoas mais vulneráveis, fazer uma espécie de quarentena para essas pessoas, porque isso no final acabará por aliviar os hospitais e os serviços de saúde".

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