Tunísia: um independente e um magnata dos media preso reivindicam ida à 2.ª volta

Caso se confirme o resultado das sondagens à boca das urnas, isso representa um duro golpe para a classe política tunisina que está no poder desde a revolução de 2011 que levou ao afastamento de Ben Ali.

Os dois candidatos antissistema, um dos quais atualmente na prisão, reivindicaram este domingo à noite a passagem à segunda volta das eleições presidenciais na Tunísia, após eleições marcadas por uma baixa participação. A confirmar-se os resultados das sondagens à boca das urnas, tal representa uma duro golpe para a classe política tunisina que está no poder desde a revolução de 2011.

Segundo os institutos de sondagens privados Sigma Conseil e Emrhod, o professor universitário independente Kais Saied venceu a primeira volta com 19% dos votos, à frente do magnata dos media Nabil Karoui, que foi detido em agosto acusado de evasão fiscal e lavagem de dinheiro, que conseguiu 15% dos votos. Os resultados oficiais só serão conhecidos na terça-feira. A data da segunda volta ainda não foi estabelecida.

Sete milhões de tunisinos foram chamados a votar na primeira volta das segundas eleições livres desde a revolução de 2011, que afastaram o presidente Ben Ali. A participação foi de apenas 45%, que a comissão eleitoral tunisina qualificou esta taxa de "aceitável". Em 2014, nas primeiras eleições presidenciais livres, a participação tinha sido de 64% na primeira volta. Havia 26 candidatos às eleições que tiveram que ser antecipadas pela morte, a 25 de julho, do presidente Beji Caid Essebsi, de 92 anos. A sua viúva morreu este domingo.

"A minha vitória traz grande responsabilidade para mudar as frustrações para esperança. É um novo passo na história da Tunísia. É como uma nova revolução", disse Saied à rádio Mosaique.

A aparente vitória do professor de Direito, de 61 anos, perito em temas constitucionais, é uma surpresa, com os especialistas a terem dificuldades, antes da votação, em justificar a sua subida nas sondagens. Não tem o apoio de nenhum partido nem organizou comícios, tendo ido porta-a-porta explicar aos seus eleitores as suas políticas conservadoras. É conhecido como "Robocop", por causa da forma como fala, tendo ficado conhecido dos tunisinos por comentar a atualidade política nas televisões desde a revolução.

"É um dia excecional para a democracia e para a história do país. Hoje, o povo tunisino escolheu dois candidatos para a segunda volta", disse Karoui numa carta lida pela sua mulher, Salwa Smaoui, no quartel-general do seu partido Qalb Tounes. Karoui, de 56 anos, é o dono da estação de televisão privada Nessma.

Na quarta-feira começou uma greve de fome para poder votar. A sua candidatura não foi recusada porque nada na acusação o impede, mas se for considerado culpado e vencer as presidenciais não será autorizado a tomar posse. A mulher de Karoui disse esperar que ele seja libertado em breve e possa empreender a sua campanha.