Príncipe André "foi abusador", acusa uma das mulheres exploradas por Epstein

Uma das mulheres que esteve envolvida no esquema de tráfico sexual e abuso de menores do milionário americano Jeffrey Epstein acusa agora o príncipe britânico, filho da rainha Isabel II, de ser um "abusador".

Virginia Giuffre, uma das mulheres que esteve envolvida no esquema de tráfico sexual e abuso de menores de Jeffrey Epstein afirma que o príncipe André "era um abusador" um "participante" na exploração sexual a que foi sujeita ainda na adolescência. Uma acusação feita na primeira entrevista que deu à televisão NBC News. O canal tem vindo a divulgar a história de várias vítimas.

Virginia, que chegou a ser fotografada ao lado do príncipe André, conversou com o canal de televisão sobre o seu envolvimento com Epstein, que enquanto enfrentava acusações de tráfico sexual de crianças se enforcou-se na prisão de Nova Iorque, onde estava detido desde 6 de julho deste ano.

Esta mulher contou como o milionário americano a instruiu a fazer sexo com outros homens poderosos, incluindo, segundo ela, o segundo filho mais velho da rainha Isabel II, Andrew. Já antes tinha revelado que foi recrutada por Epstein quando tinha 15 anos e foi coagida a a participar em atividades sexuais com ele a troca de pagamentos.

Em 2011, Giuffre disse no tribunal que Andrew sabia a "verdade" sobre o abuso de meninas menores de idade por Epstein e que deveria testemunhar. No processo que foi desencadeado em 2014, confirmou que tinha feito sexo com o príncipe, entre outros amigos do milionário. O monarca inglês sempre negou veementemente as acusações. E em 2015, o tribunal decidiu que aquelas alegações eram "imateriais e impertinentes" e ordenou que fossem eliminadas de uma ação de difamação contra a amiga de Epstein, Ghislaine Maxwell, filha do antigo dono do império de comunicação social Robert Maxwell, que foi acusada de ajudar o milionário nesta rede de exploração sexual.

Na entrevista que deu à NBC, Giuffre insistiu que Ghislaine Maxwel teve um papel determinante na suposta rede de tráfico sexual de Epstein. "A primeira vez em Londres, eu era tão jovem. Ghislaine acordou-me de manhã e disse: 'Hoje vais encontrar um príncipe'. Eu não sabia naquele momento que ia ser traficada para um príncipe", afirmou Giuffre. E frisou sobre André: "Ele nega que tenha acontecido e continuará a negar que aconteceu. Mas ele sabe a verdade e eu sei a verdade".

O príncipe já tinha negado qualquer comportamento inadequado ou de estar ciente de qualquer das atividades de Epstein, numa rara declaração no Palácio de Buckingham. Em comunicado, no mês passado, Andrew admitiu que conheceu o milionário americano em 1999 e que o via duas vezes por ano e reconheceu que ficou em várias das suas casas. Mas garantiu que não "viu, testemunhou, ou suspeitou de qualquer comportamento que posteriormente o levou à prisão e condenação".

André admitiu que o suicídio do milionário deixou muitas perguntas sem resposta. "Este é um momento difícil para todos os envolvidos e não consigo entender ou explicar o estilo de vida de Epstein. Deploro a exploração de qualquer ser humano e não toleraria, participaria ou incentivaria tal comportamento", garantiu o príncipe.

De acordo com a procuradoria do distrito sul de Manhattan, que acusou Epstein, o milionário tinha criado há mais de uma década, uma rede para abusar de dezenas de meninas na sua mansão de Nova Iorque, e numa outra situada na Florida. Epstein já tinha sido acusado de abuso sexual em 2008, mas alcançou um acordo extra oficial com a procuradoria para o fim da investigação, tendo cumprido 13 meses de prisão e alcançado um acordo económico com as vítimas.

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