Pressão diplomática contra Assad e mais sanções à Rússia

EUA, Reino Unido e França apresentam projeto de resolução no Conselho de Segurança a pedir investigação ao arsenal de armas químicas da Síria. Peritos estão no terreno em Douma

Depois dos ataques com mísseis contra a Síria, EUA, Reino Unido e França viram-se novamente para o campo diplomático. Os aliados propõem uma resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas que apele a uma investigação ao programa de armas químicas do regime de Bachar al-Assad, pressionando a Rússia (que tem poder de veto) para que deixe de apoiar o presidente sírio. Ao mesmo tempo, Washington deverá hoje anunciar mais sanções contra os russos.

O texto do projeto de resolução, que começará hoje a ser discutido no Conselho de Segurança, terá sido escrito pelos franceses e conta com o apoio de norte-americanos e britânicos. Os três países estiveram por detrás da operação da madrugada de sábado contra alegados armazéns e locais de fabrico de armas químicas - que a Rússia condenou, não conseguindo contudo aprovar uma resolução nesse sentido no Conselho de Segurança.

Em 2014, os especialistas da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) concluíram que o regime de Assad tinha destruído o seu arsenal, após pressão internacional, mas voltaram a ocorrer ataques, o último no dia 7 em Douma. O projeto de resolução pedirá um inquérito às supostas reservas destas armas do governo sírio, assim como corredores médicos e de ajuda humanitária em toda a Síria. E "exige" que Assad participe em negociações de paz "de boa fé, construtivamente e sem pré-condições", segundo o The Guardian.

Assad encontrou-se ontem com deputados russos em Damasco, dizendo que a "agressão tripartida contra a Síria vem acompanhada de uma campanha de desinformação". Tanto os sírios como os russos alegam que o ataque em Douma foi forjado, acusando os EUA de o usarem como pretexto para atacar. Washington, Londres e Paris dispararam mais de 105 mísseis em represália, na véspera da chegada dos especialistas da OPAQ. Na reunião com os deputados, Assad terá elogiado o sistema de defesa aérea sírio, fabricado ainda nos tempos soviéticos, que os russos dizem ter intercetado 71 dos mísseis norte-americanos, britânicos e franceses. Um balanço que os aliados rejeitam.

Os especialistas da OPAQ, desde sábado em Damasco, previa começar ontem os trabalhos no terreno em Douma. "Deixaremos a equipa fazer o seu trabalho de maneira profissional, objetiva, imparcial e longe de pressões. Os resultados da investigação vão anular as alegações mentirosas", afirmou o vice-ministro sírio dos Negócios Estrangeiros, Ayman Soussane, citado pela AFP.

O trabalho dos especialistas está dificultado pelo facto de já ter passado mais de uma semana desde o ataque e de a zona, bastante devastada, ter passado entretanto para controlo do regime sírio - que deverá agora centrar os seus esforços na província de Deraa. Os últimos rebeldes saíram no sábado, após um acordo de rendição concluído dois dias após o suposto ataque que, segundo os médicos dos Capacetes Brancos, terá feito 40 mortos. EUA e França garantem ter provas de que armas químicas foram usadas em Douma. Um responsável da Administração norte-americana foi mais longe no sábado, falando não apenas no uso de cloro, mais fácil de obter, mas também de sarin.

Sanções

A nível bilateral, Washington está a estudar novas sanções contra a Rússia, pelo apoio contínuo a Assad, revelou a embaixadora dos EUA na ONU. Numa entrevista à CBS, Nicky Haley, anunciou que as sanções serão reveladas hoje pelo secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, mas devem "afetar as empresas que estiveram a lidar com equipamento relacionado com o uso de armas químicas por parte de Assad".

Noutra entrevista, à Fox News Sunday, Haley lembrou que o objetivo de Washington é "ver as tropas americanas em casa", mas que isso não acontecerá até haver garantias. E enumerou-as: que as armas químicas não são usadas de forma a pôr em risco os interesses norte-americanos, que o Estado Islâmico foi derrotado e que existe um espaço de onde observar o que o Irão está a fazer. Trump deixou claro que quer retirar os cerca de dois mil militares norte-americanos que estão na Síria, na campanha contra o Estado Islâmico, mas após os ataque afirmou também que os aliados estavam preparados para manter a pressão militar se Assad não parar de usar armas químicas.

O presidente russo, Vladimir Putin, num telefonema com o homólogo iraniano Hassan Rouhani, deixou claro que se os ataque s dos aliados continuarem na Síria "irão inevitavelmente levar ao caos nas relações internacionais". O teor da conversa foi divulgado pelas agências russas, citando um comunicado do Kremlin. EUA, Reino Unido e França ameaçaram com novos ataques caso a Síria volte a usar agentes químicos. As palavras de Putin foram conhecidas depois de o vice-primeiro-ministo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Ryabkov, ter usado um tom mais conciliatório, dizendo que Moscovo iria fazer todos os esforços para melhorar as relações políticas com o Ocidente.

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