Presidente cubano visita França e obtém perdão da dívida

Esta é a primeira visita de um líder cubano desde que, em março de 1995, Fidel Castro se reuniu com François Mitterrand

O presidente cubano está desde ontem em França naquela que é a primeira deslocação à Europa desde que assumiu funções em 2006, substituindo o seu irmão, Fidel Castro.

Raul Castro iniciou a visita a título particular, assumindo esta caráter oficial amanhã, quando se encontra com o seu homólogo francês, François Hollande. É a primeira visita de um dirigente de Havana a Paris desde março de 1995, quando Fidel se encontrou então com François Mitterrand. Fidel voltaria a França para as exéquias de Mitterrand no ano seguinte.

A presença do presidente cubano visa retribuir a deslocação de Hollande a Cuba, em maio de 2015, e possui uma forte componente económica de duplo sentido. Por um lado, Paris irá perdoar parte da dívida cubana à França (cerca de 3,6 mil milhões de euros), que será reconvertida em financiamentos para projetos de desenvolvimento na ilha das Caraíbas. Por outro lado, serão assinados acordos de âmbito comercial que irão "reforçar a presença" francesa em Cuba, disse à Reuters fonte diplomática de Paris.

Em dezembro, o governo francês desempenhou um papel central na negociação de um perdão dos juros da dívida cubana aos credores internacionais na ordem dos 7,8 mil milhões de euros.

A visita - além de se inscrever no processo de degelo das relações de Cuba com o Ocidente na sequência do restabelecimento de laços diplomáticos com os Estados Unidos em finais de 2014 - surge num momento em que Cuba necessita, em absoluto, de encontrar uma alternativa ao seu principal parceiro regional, a Venezuela. Isto enquanto espera pelo fim das sanções norte-americanas, muitas das quais permanecem em vigor.

Com a Venezuela a viver uma profunda crise económica e com o novo governo, que prossegue uma distinta orientação política, Havana precisa de novos apoios financeiros e comerciais. A França, que é um dos dez principais parceiros de Cuba, com trocas comerciais na ordem dos 180 milhões de euros anuais, encontra-se em boa posição para desempenhar esse papel.

"As trocas comerciais não estão à altura das nossas ambições", referiu o ministro do Comércio francês, Matthias Fekl, na passada sexta-feira. Além do comércio, Paris aposta no reforço do investimento no turismo e no setor dos transportes.

A França perspetiva ainda utilizar Cuba como plataforma para a entrada ou reforço da sua presença económica noutros países da região.

Segundo fontes oficiais em Paris, a questão dos direitos humanos - matéria em que o regime cubano é recorrentemente criticado pelas principais ONG - será abordada nos encontros, ainda que de "maneira discreta", para não afetar o alcance de uma visita que os franceses esperam ser "marcante". Segundo um comunicado divulgado pelo Eliseu na passada segunda-feira com o programa da visita, em que se inclui uma cerimónia junto do Arco do Triunfo, está classificada como o início "de uma nova etapa" nas relações bilaterais.

Amanhã, Raul Castro será recebido por François Hollande no Palácio do Eliseu, onde jantará com o seu homólogo francês. Depois, já no dia seguinte, encontra-se com o primeiro-ministro Manuel Valls, os presidentes da Assembleia Nacional e do Senado, a presidente da Câmara de Paris, a socialista Anne Hidalgo, e a diretora-geral da UNESCO, Irina Bokova.

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