Polícia tunisina: "Às vezes culpo-me" pela Primavera Árabe

Há 5 anos uma agente confiscou a banca de Mohammed Bouazizi que se imolou e morreu. Começavam as revoltas que em vez de democracia levaram guerra e terrorismo à região

Quando no dia 17 de dezembro de 2010 Faida Hamdy confiscou a banca de um jovem vendedor de vegetais da cidade tunisina de Sidi Bouzid, Mohammed Bouazizi, estava longe de imaginar o caos atual: instabilidade, desemprego, pobreza, ataques terroristas e guerra proliferam nos países aos quais a Primavera Árabe da Tunísia alastrou (Egito, Líbia e, sobretudo, Síria), o Estado Islâmico é senhor e rei e apesar do contra-ataque das várias coligações internacionais controla parte dos territórios sírio e iraquiano e realiza atentados na UE.

"Às vezes desejava não o ter feito. Sinto-me responsável por tudo", afirma a mulher polícia tunisina em entrevista ao The Telegraph por ocasião da data que marca o início da Primavera Árabe: o dia em que, para protestar contra o confisco por não ter a licença de venda, Bouazizi, de 26 anos, se imolou pelo fogo e foi hospitalizado com ferimentos graves. Visitado no hospital pelo então presidente tunisino, Zine El Abidine ben Ali, 11 dias depois do sucedido, o jovem viria a morrer a 4 de janeiro de 2011. Uma onda de indignação e protestos varreu o país e, a 14 desse mês, Ben Ali era obrigado a fugir após mais de duas décadas no poder.

Seguiram-se as revoluções no Egito e na Líbia, com a prisão de Hosni Mubarak e a morte de Muammar al-Kadhafi. Quando o espírito da Primavera Árabe chegou à Síria esbarrou em Bashar al--Assad e no seu regime. Grupos de opositores receberam apoio externo, mas insuficiente, sabe-se hoje. Os extremistas começaram a ganhar novo fôlego, após uma certa perda de influência da Al-Qaeda, criando o Estado Islâmico (um autoproclamado califado que opera entre o Iraque e a Síria, não reconhece fronteiras e espalha o terror).

"Às vezes culpo-me e digo que tudo aconteceu por minha causa. Fiz história porque foi a minha ação que contribuiu para isso. Mas olhem para nós agora. Os tunisinos continuam a sofrer", declarou Faida Hamdy ao The Telegraph. "Bouazizi e eu somos vítimas. Ele perdeu a vida e a minha não é a mesma. Quando olho para a região e para o meu país lamento tudo isto. A morte está agora por todo o lado e o extremismo floresce", lamenta a polícia de Sidi Bouzid. A própria Tunísia já foi alvo de pelo menos três atentados terroristas atribuídos ao Estado Islâmico neste ano. Dos 73 mortos, no total, a maioria eram turistas estrangeiros. A viver sob estado de emergência, tal como acontece com os franceses, os tunisinos acrescentaram agora o terrorismo à sua lista de problemas.

O meu irmão amava a vida e rejeitaria tanto estes políticos estúpidos como estes extremistas adoradores da morte

"O meu irmão criou algo que esta gente odiosa está a tentar destruir na região. O meu irmão amava a vida e rejeitaria tanto estes políticos estúpidos como estes extremistas adoradores da morte. O meu irmão morreu pela sua honra, não por riqueza ou ideologia", disse àquele diário Samia, uma das irmãs de Bouazizi (Prémio Sakharov a título póstumo em 2011). A mãe de Bouazizi, Manoubia, chegou a ser presa por insultar um juiz mas a família mudou-se de Sidi Bouzid para La Marsa, subúrbio costeiro próximo de Tunes. Hoje Manoubia e uma das suas filhas, Leila, vivem no Canadá, segundo alguns media, havendo rumores de que pretende abrir aí um restaurante chamado Jasmim. Este foi o nome inicialmente dado à revolução tunisina antes de se começar a falar em Primavera Árabe.

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