Polícia da Bélgica irrita Paris ao devolver migrantes

Agentes belgas escoltavam ilegais de volta a França. Acabaram detidos, algemados e interrogados durante cinco horas.

Polícias belgas algemados pelos congéneres franceses não é todos os dias que acontece, mas foi o que sucedeu a dois agentes das forças de segurança do primeiro país que escoltavam um grupo de migrantes de volta a território francês e que foram confundidos com traficantes de pessoas e detidos para averiguações durante cinco horas.

O incidente levou um sindicato da polícia belga a fazer um pré-aviso de greve para a próxima semana exigindo uma atitude firme do governo de Bruxelas enquanto, por outro lado, o ministro do Interior gaulês, Bernard Cazeneuve, chamou ontem o embaixador da Bélgica em Paris para esclarecimentos.

Bruxelas negou que o seu embaixador tivesse sido convocado "para prestar contas", pois ambos os países "mantêm boas relações". Contudo, reconheceu que "uma reunião estava marcada há bastante tempo" entre o representante diplomático belga e o ministro do Interior gaulês. Este último teria também falado por telefone com o seu homólogo em Bruxelas.

O incidente, em si rocambolesco, tem na origem uma primeira situação não menos rocambolesca. Terça-feira de manhã, um camionista que circulava nos arredores de Ypres, na Flandres, proveniente de Calais, ao aperceber-se de ruídos estranhos no contentor que transportava, detém-se junto de polícias, pedindo-lhes para averiguarem a situação. Ao abrirem o contentor, os agentes belgas depararam-se com um grupo de 13 migrantes clandestinos (sírios e iraquianos), três dos quais menores. Ora, o destino destes migrantes não era a Bélgica, mas o Reino Unido - só que tinham entrado num veículo com o destino errado. Intimados a deixarem território belga, pediram aos agentes, segundo Bruxelas, para serem acompanhados até perto da fronteira francesa.

Os agentes terão acedido ao pedido por razões humanitárias e baseados no facto de os migrantes "desconhecerem" o trajeto a percorrer. Um primeiro grupo foi deixado a cerca de "50 metros" de território francês, sem qualquer problema. Mas um segundo grupo terá, "inadvertidamente" de acordo com Bruxelas, passado a fronteira na noite de terça-feira, sendo intercetado pela polícia gaulesa e levado para a localidade de Armentières, onde foram interrogados entre 21.30 e as 3.30. Os dois agentes belgas, que se deslocavam num veículo oficial, foram detidos pelos franceses numa viatura descaracterizada, sendo então algemados, apesar de exibirem a respetiva identificação, afirmou à L"Avenir o dirigente do SLFP-Police, Vincent Gilles. O dirigente sindical pensa que "os colegas franceses quiseram divertir-se" mas "acabaram por cobrir de ridículo toda a polícia" deste país. Não poupa também críticas ao ministro do Interior belga, Jan Jambon, a quem exige explicações. E para o pressionar e para que o ministro obtenha explicações de Cazeneuve, anunciou uma greve para a próxima semana. Explicações antecipadas num comunicado do prefeito da Região Hauts-de-France, onde se situa Armentières. "A iniciativa [dos polícias franceses] não é conforme às práticas habituais de trabalho" entre as forças de segurança dos dois países". Há "um centro de cooperação" para gerir estas situações, explicou um responsável sindical francês à BFMTV.

Bruxelas argumenta que, desde o restabelecimento do controlo de fronteiras sucedido em fevereiro, a prática é que migrantes clandestinos sejam levados até junto da fronteira do país por onde entraram na Bélgica. E estranha-se que não tenha sido disponibilizado um advogado nem um intérprete, pois os dois agentes eram falantes de holandês.

O incidente sucedeu num momento em que as autoridades francesas estão a desmantelar a "selva de Calais", o campo de migrantes ilegais nesta localidade, onde estão entre sete mil a nove mil pessoas.

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