"Podemos permitir que haja praias de nudistas mas não que haja gente a nadar de burquíni?"

O espanhol que atualmente é o alto-representante da ONU para a Aliança das Civilizações participou na 25.ª edição do Fórum de Lisboa do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, que se realizou no Centro Ismaili. Miguel Ángel Moratino está preocupado com atitudes hostis frente ao islão.

A Mesquita-Catedral de Córdova, pela forma harmoniosa como conciliou cristandade e islão, é uma metáfora do que devia ser o diálogo de civilizações?
Córdova para mim, e digo isto tendo sido representante por ela no Congresso de Deputados espanhol, reflete plenamente não só o espírito mas também a realidade e a urgência de ter uma aliança de culturas, de civilizações e de religiões. A Mesquita-Catedral de Córdova reflete plenamente a convivência, palavra preciosa espanhola que também existe em português mas que não existe no mundo anglo-saxónico, que usa o termo composto living together. Para nós ibéricos, é um conceito único em que se expressa que podemos, desejamos e queremos viver juntos, e isso reflete-se plenamente em Córdova. Daí o meu interesse em que haja nessa cidade uma sede que represente a Aliança de Civilizações para toda a Península Ibérica e o Norte de África.

Sabemos a história do califado de Córdova e da presença árabe na península. Sabemos que houve tempos de convivência religiosa, mas também de luta. Hoje, o islão e o cristianismo podem ter uma relação pacífica apesar de todos os atentados terroristas cometidos por extremistas em nome do islão?
Esse é o grande debate a que não podemos fugir: perceber agora o que representa a relação do mundo ocidental, o mundo que corresponde ao espaço tradicional do cristianismo, com o mundo islâmico. Sobretudo na Europa, é um dos temas de maior interesse que deviam atrair os políticos e a sociedade em geral. Nos últimos anos até tem havido algum debate, mas transformou-se em algo tremendamente confuso. Houve duas aproximações e duas escolas de pensamento sobre como abordar a relação entre o islão e o mundo ocidental. Uma delas, que rejeito absolutamente, é a que defendem os supremacistas com as suas teorias de replacement, de um filósofo francês que se chama Camus - Jean Renaud Gabriel, não confundir com Albert Camus - e que diz que tudo o que é muçulmano é mau e que nos estão a invadir, a subjugar e a querer substituir-nos. Tudo isso são posições absolutamente inaceitáveis e que não configuram a realidade da sociedade e de uma crença religiosa, social, cultural como o mundo islâmico, que tem anos de demonstrações de paz, tolerância e convivência com outras realidades, outras religiões e outras culturas. Esses são os que mais barulho fazem, os que estão numa batalha permanente e que fazem parecer que está cada vez pior, que é impossível conciliar o islão com o mundo europeu ocidental. A outra escola de pensamento é a que, de maneira mais voluntária, tem tentado estabelecer pontes com o mundo islâmico, embora não muito bem-sucedida talvez pela existência de alguns preconceitos como o de que quer impor o nosso conceito europeu ao mundo islâmico. Queríamos modernizar o islão através dos conceitos europeus e, portanto, éramos condescendentes com eles, queríamos que fossem como nós, que se identificassem com a nossa maneira de viver e, apesar de haver uma vontade de manter boas relações, no final não se conseguiu estabelecer um respeito mútuo para podermos viver juntos. Em conclusão, é urgente e necessário iniciar uma nova leitura de qual deve ser a relação entre o mundo árabe muçulmano e o mundo ocidental. Temos de começar de novo, por parte de ambos, a dialogar para nos entendermos, a escutar-nos e a tentar conhecermo-nos melhor e a estabelecer mecanismos de convivência que permitam que nos respeitemos e que possamos construir o futuro em conjunto. E quem deve explicar o islão não são os europeus - há com certeza uma série de cientistas, historiadores e estudiosos das religiões e das culturas que sabem muito, mas os que se podem apresentar melhor são os próprios muçulmanos. É a eles que cabe a tarefa de iniciar uma explicação pedagógica sobre o que foi o islão na história e o que é nos dias de hoje.

O islão tem de reafirmar o quanto é plural?
O islão é evidentemente muito plural, mas é preciso explicar que há escolas distintas, famílias distintas e interpretações distintas - como também há no mundo ocidental -, e o primeiro conceito que contrapomos é o do Ocidente, que é um conceito geográfico, em contraponto a uma religião, o islão. É preciso ser prudente no que estamos a opor como elemento da equação.

E o islão, cada vez mais, faz parte do Ocidente, pois milhões de muçulmanos vivem em países como a França, a Alemanha, o Reino Unido, a Espanha...
O islão faz parte do Ocidente. E o país que está a viver mais este jogo diabólico de contradições, que está mais exposto, é a França, que está numa confusão absoluta e total, na minha opinião.

Fala da contradição entre um Estado que é laico e a existência de uma forte minoria islâmica...
O governo, o Estado, é laico e ninguém o põe em causa. Nem sequer os muçulmanos franceses têm dúvidas de que vivem numa República Francesa laica. Há leis aprovadas, incorporadas na Constituição, há uma declarada separação da Igreja e do Estado, incluindo normas que entretanto se apresentaram sobre o vestuário nas escolas públicas, etc. Há leis e os muçulmanos respeitam-nas, o que os muçulmanos não entendem é que o ministro da Educação de França diga que não é desejável usar o véu em espaços públicos. Porque podemos permitir que em França haja praias de nudistas mas não podemos permitir que haja pessoas a nadar de burquíni? Que contradição é esta?

Defende a liberdade de escolha pessoal absoluta?
Defendo a lei na liberdade de expressão, que não significa que toleremos algo que vai contra a Constituição. Que sejamos laicos, muito bem, mas que não se negue a liberdade religiosa e social de sete milhões de cidadãos franceses que são muçulmanos.

Falando de Portugal e de Espanha, a longa história de presença árabe faz que os dois países tenham uma maior compreensão do mundo islâmico?
Em Espanha e Portugal entendemos melhor o que é a herança, o legado e o espírito muçulmanos porque convivemos com eles, porque nos entendemos. Há uma sensibilidade maior, daí que a presença de muçulmanos em Espanha e em Portugal, apesar de um ou outro problema que possa surgir, se leve de forma muito satisfatória...

Mesmo assim com uma grande diferença: em Espanha houve atentados de inspiração islâmica...
Depois do atentado de 2004, as autoridades identificaram que a célula Al-Qaeda-Magreb era a responsável pelo ataque - gente da Tunísia, também de Marrocos, magrebinos. Mas não se produziu uma cruzada contra aqueles que eram compatriotas destes terroristas. Em Espanha, nas semanas e nos meses que se seguiram ao atentado, não houve manifestações contra os muçulmanos. Houve, sim, condenação do atentado terrorista, condenação destes fanáticos, houve coordenação com Marrocos, que nos forneceu informações para sermos mais eficazes na luta contra o terrorismo. E houve a decisão de criar no âmbito das Nações Unidas esta Aliança de Civilizações, precisamente para que no futuro esta tendência para o choque não se produza. Porque tanto no mundo muçulmano como no ocidental estamos a enfrentar o mesmo desafio e a mesma ameaça, que são estes setores radicais que os próprios muçulmanos defendem que, precisamente por atentarem contra a vida de civis, não devem ser representativos da religião muçulmana.

Dos contactos com líderes muçulmanos, sente que se preocupam com a necessidade de marcar a diferença para a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico, explicar que esse terrorismo não pode ser confundido com a religião de 1500 milhões de pessoas?
Claro. Não há líderes muçulmanos atuais de países representativos que não se tenham juntado à luta contra o Daesh. Todos se puseram contra este autodenominado califado, que não existia e que não existe e que não é justificável no mundo muçulmano. Todos os países e seus representantes muçulmanos estão a defender o que eles mesmos denominam um islão autêntico e moderado, que simplesmente reflete a consciência, o valor, a ética religiosa e moral de uma religião e de uma cultura. Por isso temos de entendê-lo melhor. Há muitos que continuam a utilizar esse medo do islão para obter benefícios eleitorais.

Está a falar dos partidos europeus que são anti-imigração mas que também são anti-islâmicos?
Sim, porque misturam tudo! Chegam a conclusões erradas que são fáceis de desmontar e mostrar que são falsas. Querem associar delitos perpetrados nos mais distintos países aos imigrantes, sobretudo imigrantes muçulmanos. Atribuem aos muçulmanos crimes de natureza sexual de forma generalizada. Pode haver um caso ou outro, mas não é a norma.

Uma comunidade muçulmana, como a ismaili em Portugal, que está muito bem integrada, tem uma atitude muito liberal nos costumes, acaba por ser também uma boa forma de os europeus perceberem essa tal diversidade que há no islão?
A comunidade ismaili pode mostrar toda a sua trajetória não só em Portugal mas noutros lugares onde trabalhou contra o conflito religioso. É um exemplo de integração que se tem de aplaudir e que pode ser utilizado para demonstrar que todos os estereótipos que nos dizem que o islão quer ocupar e voltar a dominar o mundo ocidental são falsos.

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