Plácido Domingo: "Em alguns sítios não se pode dizer nada a uma mulher"

O tenor espanhol, em entrevista ao "El País", nega todas as acusações de assédio sexual que 20 mulheres lhe fizeram. "Não têm sentido", assegura Plácido Domingo, que no início de outubro demitiu-se da direção da Ópera de Los Angeles.

São 20 as mulheres que acusam Plácido Domingo, de 79 anos, de abuso sexual e conduta indevida durante produções de ópera. Em entrevista ao El País, o tenor espanhol nega tudo. "As acusações que me fazem não têm sentido. O que quero é deixar de falar nisto tudo", afirmou. Têm sido "meses muito difíceis", admitiu.

As denúncias das 20 mulheres foram tornadas públicas através de uma investigação da agência Associated Press (AP), revelada em agosto. Foram oito cantoras e uma bailarina que acusaram o cantor de assédio sexual, que terá sido perpetuado ao longo de mais de três décadas.

Das nove pessoas que o acusaram na altura, apenas a meio soprano Patricia Wulf aceitou divulgar o seu nome, as restantes pediram anonimato por temer represálias profissionais e pessoais. Um mês depois, em setembro, a AP revelava que mais 11 mulheres acusavam o tenor de conduta imprópria. Neste grupo, também apenas uma mulher autorizou ser identificada: Angela Turner Wilson, colega de Domingo quando este dirigia a Ópera de Washington, na ópera "Le Cid" da temporada 1999/2000.

Na segunda-feira, Plácido Domingo atuou pela primeira vez em Espanha depois de ter rebentado o escândalo no verão. Foi aplaudido em Valência, conta o El Pais, que esta quarta-feira publica uma entrevista com o tenor.

Refere que não foi acusado de nenhum crime e não pensa avançar com um processo judicial. "Nunca ataquei uma mulher, nunca me excedi, não faz parte da minha educação ou do meu modo de ser. Também não abusei do meu poder em nenhum teatro. Tomamos as decisões de contratação em equipa", garantiu ao jornal.

"Não se pode dizer nada a uma mulher"

As denúncias levaram a Ópera de Los Angeles a abrir uma investigação. "Estão a recolher testemunhos de muitas pessoas com quem trabalho há décadas. Quero respeitar o curso dessa investigação interna, perante a qual eu permaneço totalmente disponível. Eu insisto, não vou resolver isto em tribunal. Não é um caso legal, nem vou transformá-lo nisso", justificou o tenor que diz já ter sido ouvido nesta investigação.

"[O assédio] deve ser castigado em cada momento e em todas as épocas", defendeu o cantor. Quando foi questionado sobre a sua ideia relativamente às regras da sociedade que hoje em dia estão diferentes, afirmou: "Ao que me referia, como espanhol, é que o uso do piropo - por exemplo, "que bom vestido trazes", "estás tão bem" - era algo que podias dizer há 30 anos, até há dois. É que não se pode dizer nada a uma mulher. Aqui [Espanha] não é assim, mas em outros locais e, nomeadamente, nos grupos de onde saíram as acusações, é assim"

No início de outubro, e na sequência desta investigação, Plácido Domingo decidiu apresentar a demissão de diretor-geral da Ópera de Los Angeles. "Enquanto continuo o meu trabalho para limpar o meu nome, decidi que é do melhor interesse da Ópera de Los Angeles que me demita como diretor-geral e que deixe as minhas atuações futuras", afirmou, na altura, o tenor num comunicado emitido pelo seu representante.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG