Pilotos do Boeing 737 8 Max só tiveram curso online de 57 minutos

Formação durava entre menos de uma hora e três e não incluía formadores nem explicações sobre o sistema automático MCAS que se acredita estar ligado às recentes tragédias ocorridas na Indonésia e no Quénia

Os pilotos da Southwest Airlines e da American Airlines fizeram apenas pequenos cursos online, com 57 minutos a três horas de duração, para se prepararem para os novos Boeing 737 Max 8, avançou a CNN. A formação, sem tutoria, não incluiria qualquer referência ao novo sistema MCAS, destinado a fazer o aparelho inclinar-se automaticamente para baixo perante uma iminente perda de sustentação, sistema esse que está a ser fortemente associado aos acidentes com este modelo ocorridos em outubro (Lion Air) e no início deste mês (Ethiopian Airlines).

"O curso não era conduzido por um instrutor. Era feito por conta própria", confirmou à estação televisiva Mike Trevino, porta-voz do sindicato dos pilotos da Southwest Airlines, acrescentando o que sistema MCAS "foi instalado nos aparelhos e a Boeing não revelou essa informação aos pilotos".

"Isto é ridículo", acrescentou Dennis Tajer, da Allied Pilots Association, que representa cerca de 15 mil pilotos de companhias aéreas, exigindo a organização imediata de novas formações. "Se vais ter equipamento no aparelho cuja existência desconhecias, e se terás a responsabilidade de batalhar caso este falhe, tens de ter experiência prática".

A Boeing não reagiu a estas acusações.

Na passada terça-feira o Departamento dos Transportes dos Estados Unidos anunciou ter sido pedida uma auditoria à certificação dos Boeing 737-8 Max, no âmbito das investigações que decorrem nos Estados Unidos e em vários outros pontos do mundo, e que já levaram à suspensão temporária de voos com este modelo e de novas encomendas no mesmo. A Boeing prometeu dar toda a informação solicitada pelos investigadores.

Considerado revolucionário para a indústria, nomeadamente pela poupança de combustível e aumento da capacidade face a modelos anteriores, o 737-8 Max esteve envolvido, em pouco mais de quatro meses, em dois acidentes que causaram um total de 346 mortos. O avião da Lion Air, da Indonésia, despenhou-se no final de outubro, no início de um voo que ligava Jacarta à estância turística de Pangkalpinang. Já no início deste mês, um aparelho da Ethiopian Airlines caiu poucos minutos depois de ter descolado de Adis Abeba com destino a Nairóbi, no Quénia.

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