Paritário e de todas as cores políticas, governo Macron é criticado à direita e à esquerda

Os Republicanos expulsam do partido quem aceitou cargos. Socialistas consideram que executivo vai acabar com serviços públicos

É um governo desenhado para agradar a todos, que por isso tem algo para desagradar a todos. O presidente francês, o centrista Emmanuel Macron, cumpriu a promessa de acabar com as linhas divisórias entre a esquerda e a direita ao nomear um executivo onde existe paridade de género, num executivo com nomes fortes de ambos os campos políticos e várias figuras da sociedade civil. "Um governo muito à direita para a esquerda e muito à esquerda para a direita", como resumia ontem o jornal Le Parisien, a pensar nas legislativas de junho que podem obrigar a mudar tudo.

No executivo do primeiro-ministro Édouard Philippe, há outros dois militantes d"Os Republicanos, entre os quais o ex-candidato às primárias Bruno Le Maire (Economia) e a estrela em ascensão da direita, Gérald Darmanin (Ação e Contas Públicas). "Enquanto secretário-geral d"Os Republicanos, constato que escolheram deixar a nossa família política", escreveu Bernard Accoyer, numa carta para os três. "A França é melhor que os partidos", respondeu Le Maire no Facebook, agradecendo os anos em conjunto a defender convicções e valores. Mensagem semelhante de Darmanin, que disse ser antes de tudo "gaullista" e citou o general Charles de Gaulle, que dizia que a França é tudo ao mesmo tempo, esquerda e direita.

Para Accoyer, "o objetivo principal [de Macron] é confundir os franceses na campanha para as eleições legislativas". Estas realizam-se a 11 e 18 de junho e o presidente, que formou há pouco mais de um ano o seu movimento En Marche!, está à procura de conquistar o maior número possível de lugares no Parlamento. Nas últimas sondagens, surgia à frente da direita - numa aliança com o Movimento Democrático (MoDem), cujo líder, François Bayrou, é o novo ministro da Justiça.

Não há renovação

O secretário-geral socialista, Jean-Christophe Cambadélis, reagiu no Twitter: "Novo governo, mas não um governo de renovação. Cautelas de esquerda mas Matignon e Bercy à direita", escreveu, referindo-se ao primeiro-ministro e ao ministério da Economia. Os socialistas, que procuram recuperar de números históricos negativos nas presidenciais, alertam para o risco que representa para os serviços públicos o executivo, que conta com dois militantes socialistas: o histórico Gérard Collomb (Interior) e Jean-Yves Le Drian, amigo de François Hollande que passa da Defesa para a pasta da Europa e Negócios Estrangeiros.

O governo inclui ainda representantes do Partido Radical de Esquerda (centro-esquerda) e membros da sociedade civil, entre eles o ecologista Nicolas Hulot. Depois de ter recusado o convite de três anteriores presidentes, aceitou assumir a pasta da Transição Ecológica e Solidária, sendo também um dos três ministros de Estado - os outros são Bayrou e Collomb. A nomeação de Hulot, que tem sido crítico da energia nuclear, levou à queda de 6,5% das ações da EDF, a estatal elétrica que será supervisionada por ele.

O executivo é também paritário: há oito ministros e oito ministras, assim como dois secretários de Estado de cada sexo. Mas as pastas mais importantes ficam nas mãos de homens. A eurodeputada Sylvie Goulard é a exceção, assumindo as Forças Armadas. Macron falhou ainda ao não criar um Ministério da Mulher, só uma secretaria de Estado para a Igualdade entre Mulheres e Homens, ultrapassando também o número de ministros prometido (dizia 15 e são 18). O primeiro Conselho de Ministros é hoje às 11.00.

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