Parisienses calmos, mas sempre de olho na saída de emergência

Há um ano, Corentin estava no Stade de France quando começou a vaga de ataques terroristas que deixaria 130 mortos em Paris. Na sexta-feira voltou lá para ver o jogo França-Suécia. Aos poucos, tenta retomar a vida normal, mas como muitos parisienses admite que nada é já como antes

Paris aparenta ter conseguido retomar a normalidade um ano depois dos atentados terroristas que fizeram 130 mortos e mais de quatro centenas de feridos. Mas o medo, a vigilância e as medidas de segurança reforçadas na capital e nos seus arredores mostram que tudo não passa disso mesmo: aparência. Seja numa saída com os amigos, numa ida ao centro comercial ou a um café nas famosas esplanadas da capital francesa, o perigo assalta o pensamento dos parisienses. A vida continua como antes, mas jamais da mesma maneira.

O Bataclan, um dos alvos, reabriu as portas ontem com um concerto de Sting. Este acontecimento marca o fim do longo período de reabilitação desta parte da cidade, que aos poucos tentou retomar o ritmo normal de vida, mas o terrorismo e a possibilidade de novos atentados são agora presença permanente na consciência não só dos parisienses, mas de todos os franceses em geral. E não é um tema fácil de abordar.

"Preferia não falar sobre isso porque fui diretamente tocada pelos atentados e perdi uma pessoa. Aqui toda a gente se conhece e toda a gente perdeu alguém", afirma à reportagem do DN Jaelle, que vive perto da Boulevard Voltaire. Conta que após os atentados foi assediada por jornalistas e que agora prefere manter o anonimato possível. Mas não hesita em dar a sua opinião sobre as homenagens que vão decorrer neste domingo: "Acho importante recordar quem morreu, mas fazer só homenagens não funciona porque, como vimos agora nas eleições dos EUA, o problema está na cabeça das pessoas. Tenho receio de que os atentados sejam usados para exacerbar o populismo, a questão da identidade e do nacionalismo, em vez de unir a França", confessa a jovem.

"A única coisa que mudou é que agora fazemos a festa ainda com mais vontade", defende Julian, de 25 anos, que vive na Rua Charonne, onde fica situado o restaurante Belle Équipe, onde, há um ano, um grupo de três jihadistas matou 20 pessoas na esplanada. A convicção de Julian transforma-se em hesitação quando questionado sobre se pensa nos ataques quando vai a um concerto ou ao cinema. "É verdade que é difícil afastar esse pensamento, mas queremos é aproveitar o momento", esclarece.

Uma vida diferente

Uma semana antes dos atentados, os três filhos de Miriam e Omar estiveram no Bataclan a assistir a um concerto. "Foi algo terrível. Pensar naqueles jovens todos que foram ver um concerto e depois... A vida em geral mudou. E não foi só aqui no nosso bairro", descreve Miriam, admitindo que agora é muito mais vigilante nos transportes públicos.

Esta mudança é visível em todos os gestos do quotidiano parisiense. As grandes salas de espetáculos não dispensam os detetores de raios X e uma ida ao centro comercial obriga a abrir malas e mochilas. Nos transportes, a RATP, empresa que gere os transportes públicos de Paris, divulgou que por dia são sinalizados cerca de sete objetos suspeitos, um aumento de 60% face ao que acontecia antes dos atentados. Quanto ao reforço da segurança, o patrulhamento militar alargou-se a toda a capital francesa, com atenção especial aos pontos turísticos.

Estas mudanças pesam não só no dia-a-dia dos parisienses, mas também no de quem procura novas oportunidades na cidade. Charles e Marie são um casal de canadianos que se mudou há dois meses para as imediações do Bataclan. "Claro que pensamos no que se passou, especialmente quando nos mudámos para aqui, mas continuamos a fazer as nossas vidas. Talvez agora evitemos um pouco mais as grandes multidões, mas é importante manter a normalidade", defende Marie.

Mais vigilantes e responsáveis

Evitar multidões não estava nos planos das cerca de 78 mil pessoas que assistiram ao jogo entre a França e a Suécia - que a França acabou por ganhar 2-1 - no Stade de France nesta sexta-feira à noite. Mais do que a qualificação para o Campeonato Mundial de 2018, este jogo de futebol serviu para homenagear as vítimas do atentado neste mesmo estádio há um ano - estas foram as primeiras vítimas dos ataques coordenados e que posteriormente se estenderam ao Bataclan. Cumpriu-se um minuto de silêncio e o presidente François Hollande, presente no estádio, disse mais tarde que a ameaça ainda existe. "Já não somos como antes, somos mais fortes do que antes", disse o chefe do Estado francês.

Antes de entrar para o jogo, Corentin conta ao DN como há um ano viveu os atentados dentro do Stade de France. "Quando estava dentro do estádio, não sabíamos o que se estava a passar. Não havia qualquer informação. Quando saí, foi o pânico total", lembra o jovem estudante. Mais do que o medo que "paira sobre a cabeça de todos", Corentin considera mais importante mostrar o amor pelo futebol e, acima de tudo, retomar a vida. Mas não como antigamente. "Agora, quando vou a um evento qualquer, procuro sempre a saída de emergência", confessa.

Mas estes condicionamentos vão para além dos efeitos psicológicos nas populações, manifestando-se na gestão autárquica da região parisiense. Paulo Marques, vereador das Relações Internacionais da cidade de Aulnay-sous-Bois, a cerca de 20 quilómetros de Paris, defende que há um esforço acrescido que é pedido diariamente aos municípios. "Foi preciso reforçar a polícia municipal, foi preciso reforçar a segurança nas nossas 54 escolas e tornou-se mais difícil organizar eventos desportivos e associativos", considera o autarca lusodescendente, eleito pelo partido Os Republicanos (do ex-presidente Nicolas Sarkozy).

Uma das reivindicações de Paulo Marques é ainda a divulgação do conteúdo das Fichas S - fichas que identificam as pessoas que estão a ser seguidas pelas autoridades devido a suspeitas de terrorismo - aos presidentes de câmara. "O homem que ajudou a mulher de Amedy Coulibaly [um dos intervenientes nos ataques ao Charlie Hebdo] a fugir para a Síria foi funcionário da Câmara de Aulnay-sous-Bois durante quatro anos e lidava com as crianças do nosso município", conta Paulo Marques, que é também conselheiro territorial da Metrópole de Paris.

Para além da responsabilidade alargada como eleito local, o lusodescendente diz que é impossível os parisienses viverem como antes. "Fizemos um corrida de dez quilómetros nesta semana e, ao fundo, vi um camião branco. Foi impossível não pensar no pior, apesar de saber que havia segurança suficiente", confessa Paulo Marques, lembrando o ataque de Nice, no ferido do 14 de Julho deste ano. Nessa ocasião, um jihadista ao volante de um camião frigorífico atropelou mortalmente 86 pessoas que participavam nas celebrações da festa nacional. Muitas eram crianças.

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