Paraskeva também é nome de campeão da causa luso-americana

Nascido numa família grega de Moçambique, mas com uma costela portuguesa, luta hoje pela criação de Faculdade de Estudos Lusófonos no Massachusetts. Neste verão o DN republica algumas das reportagens integradas na rubrica sobre portugueses e luso-americanos de sucesso Pela América do Tio Silva. Este artigo foi publicado originalmente a 23 de março de 2018.

É Leslie Ribeiro Vicente que me apresenta João Paraskeva, professor da Universidade do Massachusetts em Dartmouth. Está à conversa com Jim DeMello, dono do edifício no coração de New Bedford que aloja a escola portuguesa e um grande benemérito da comunidade luso-americana. Leslie, ela própria professora mas na Discovery Language Academy, onde se aprende português, foi aluna de doutoramento de Paraskeva, cujo apelido exótico denuncia umas raízes que o próprio me explica serem "as famílias gregas de Moçambique".

Paraskeva teve a primeira experiência nos Estados Unidos há 20 anos, quando foi para uma universidade no Wisconsin investigar para o doutoramento na área da Educação. Depois desse período em Madison, voltou a Portugal por algum tempo, para de novo em 2008 fazer as malas e instalar-se na América, primeiro no Ohio e depois no Massachusetts. Trata-se pois de um tipo de emigrante diferente, mas nem por isso o seu envolvimento na comunidade deixa de ser grande e por trás da conversa com Jim DeMello está um sonho dos portugueses do Massachusetts: a criação de uma faculdade de Estudos Lusófonos. Sobre este assunto, já lá iremos, pois primeiro vale bem a pena conhecer o percurso de Paraskeva.

"Nasci em 1962 na então Lourenço Marques, agora Maputo. O meu pai é grego, a minha mãe meio portuguesa e meio grega. A minha família tem raízes em Lemnos, uma ilha do Egeu. Depois, fixaram-se em Alexandria, no Egito, e mais tarde um bisavô meu foi para as Rodésias e por fim para Moçambique, ainda no tempo colonial português. Acabou por se instalar na Beira", conta. Não é incomum esta presença grega em África, mesmo na antiga África Portuguesa. Por exemplo, o médico Constantino Sakellarides também nasceu em Moçambique, com um pai oriundo do Norte da Grécia e uma mãe nascida no Egito mas de uma família de Creta.

Converso com Paraskeva no Jim DeMello Internacional Center, depois de ele me ter ido buscar de carro à WJFD, a maior das rádios portuguesas na América, onde entrevistei Paulina e Henrique Arruda para esta série de reportagens no DN dedicadas aos luso-americanos, e na qual Leslie e Jim DeMello também foram incluídos. Conta-me que a costela portuguesa lhe veio do avô materno, Acácio Santos Ferreira, que foi de São Pedro do Sul para Moçambique em busca do pai, que deixara de dar notícias e, não o encontrando, ficou mesmo assim em África, trabalhando nos caminhos-de-ferro, e acabou por se apaixonar por uma beldade grega chamada Krissant Viliotis. A sua filha, Ana dos Santos Ferreira, casou-se depois dentro da comunidade grega com Menelaus Pandelos Paraskeva. João Paraskeva é um dos filhos do casal, nascido em vésperas de a guerra colonial começar em Moçambique.

A família, conta Paraskeva, simpatizava com o ideal de libertação dos povos e um tio juntou-se mesmo à Frelimo. "Ele foge de Moçambique em 1963 com Jacinto Veloso, que conta no seu livro Memórias em Voo Rasante a fuga num avião da Força Aérea Portuguesa que roubam e levam para a Tanzânia". A retaliação da PIDE sobre a família não tardará e para evitar o pior houve queimas de livros e documentos do tio no quintal da casa familiar em Lourenço Marques.

Notícias desse tio chegavam muito de vez em quando, dizendo estar na Argélia, em Cuba ou no Vietname. E, como um inspetor da PIDE vivia no piso de baixo, "em nossa casa a política era sempre falada metaforicamente, mesmo que eu, à medida que ia crescendo, já fosse percebendo um pouco", relembra o professor universitário. Um dos que ajudavam a fazer chegar informação sobre o tio guerrilheiro era Almeida Santos, advogado célebre em Moçambique e mais tarde uma das grandes figuras do PS.

Com a independência em 1975, há um otimismo generalizado, diz Paraskeva. E, para a família, o novo país é a pátria, "até porque Portugal não era uma opção". E com um tio que chegou a ser secretário de Estado e ministro, a família sentia-se bem na sua nova condição de cidadãos moçambicanos. Foram tempos cheios de sobressaltos, mas também de entusiasmo. "Sei bem o que é estudar num regime marxista-leninista. Tínhamos professores de vários países, mas sempre gostámos mais dos cubanos. Andavam de autocarro como nós. Um dia, o professor cubano de Matemática explicou-nos que como as coisas estavam a correr não era marxismo, mas sim estalinismo da pior espécie. Havia fuzilamentos políticos e cheguei a assistir. E os alunos considerados reacionários eram levados para campos de reeducação, para a destronca. Tinham de cavar com as mãos a areia e as raízes de um toco de árvore até este conseguir ser arrancado", conta Paraskeva. Mesmo assim, fez-se militante da Frelimo e membro do grupo dinamizador do bairro.

A desilusão total, explica, foi quando o prenderam na rua sem motivo, quando levava com um amigo um aquário sem peixes. "O meu tio estava em Pemba e não podia ajudar, a família não sabia de mim e foram três dias de prisão que nunca mais esqueci." Era uma época em que a guerrilha da Renamo, anti-Frelimo, parecia capaz de tudo e já quase não se conseguia sair da capital. E o jovem Paraskeva, de 19 ou 20 anos, começou a pensar o que estava ali a fazer.

"Todos os dias desaparecia ou desertava alguém meu conhecido. E os meus pais perceberam os meus silêncios. Saí com um amigo com destino à Dinamarca, com escala em Lisboa. Mas em Portugal, como o visto ia só ser colocado em Copenhaga, não me deixaram embarcar. Sem saber o que fazer, os meus pais dizem-me para ir ter a Viseu com um casal amigo. E lá chego a Viseu, conheço aquela que será a minha mulher e uma nova vida começa", sintetiza Paraskeva.

Em Viseu, joga basquetebol, completa o 12.º ano, e depois de falhar a entrada em Engenharia Química por umas décimas tem a sorte de um professor insistir com ele para estudar. Faz na Universidade Católica a licenciatura em Humanidades e por uns tempos vai para a África do Sul dar aulas. "Os meus pais estavam lá. Eram tempos animados. Apanho a saída de Mandela. Entre artigos para o O Século de Joanesburgo e projetos de cooperação com a Católica, o tempo passa. Volta a Portugal e tira o mestrado na Universidade do Minho. E pouco depois avança para o doutoramento também no Minho, inscrevendo-se em paralelo como investigador em 1998 na Madison, no Wisconsin. Regressa a Portugal, mas por pouco tempo. O apelo do longe, da América, é forte. "Vou para o Ohio e depois, em 2008, sou admitido aqui na UMass Dartmouth."

A conversa é interrompida por um telefonema. É a mulher, que o espera. Têm uma filha que chegou com 2 anos aos Estados Unidos e hoje é bilingue. Falta ainda abordar o tema da Faculdade de Estudos Lusófonos. Paraskeva, Jim DeMello e Luís Pedroso (fundador da Accutronics e hoje dono da Qualitronics, que também já teve reportagem nesta série) estiveram perto de o conseguir na UMass Dartmouth, mas desde que a antiga reitora saiu as dificuldades são cada vez maiores, apesar dos milhões que têm sido investidos pelo governo português, pelo dos Açores, pela FLAD e por muitos filantropos da comunidade luso--americana. Paraskeva fala de "racismo institucional", de "sabotagem contra os portugueses", de "derrota política de Portugal". Mas não desiste. Coordena o departamento de Liderança Educacional e Políticas Públicas e dirige também um programa de doutoramento que já formou mais de duas dezenas de estudantes, metade deles luso americanos."É um sonho esta Faculdade de Estudos Lusófonos. E Jimmy e Luís podiam estar descansados a jogar golfe mas lutam por ela. E podem contar com a minha ajuda. Sinto-me português, orgulhosamente português, estou bem integrado na comunidade luso-americana. Sobre o futuro, não sei. Como dizia Agostinho da Silva, "sigo a vida na albarda do burro".

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