"Papa foi mostrar que a alternativa são os padres que encarnam o Deus da misericórdia"

Os padres Anselmo Borges e Fernando Calado Rodrigues comentam os ataques à máfia que o Papa fez hoje, na Sicília, durante a celebração em memória do padre Giuseppe Puglisi, morto há 25 anos. Um padre que a Igreja toma como exemplo.

Mais uma vez, Francisco chegou pela manhã deste sábado simples e humilde à ilha que se conhece como o coração da máfia. Tinha uma multidão à sua espera. Mais uma vez, a todos acenou, cumprimentou e disse: "É bonito o sol da Sicília." Para logo a seguir, e já na celebração na Praça Europa, em memória do padre Giuseppe Puglisi, morto pela máfia há 25 anos, dizer que a Sicília precisava de "homens e mulheres de amor, não de homens e mulheres de honra".

Francisco voltava a colocar a máfia no centro do seu discurso. De forma mais violenta, como disse ao DN o padre Fernando Calado Rodrigues, da diocese de Bragança. "Foi mais violento do que nas ocasiões anteriores em que falou do tema. Ele disse que quem é mafioso não é cristão. Isto não deixa dúvidas." De forma clara, para o padre e cronista do DN, Anselmo Borges. "No meio deste ambiente de vergonha que tem assolado a Igreja nos últimos tempos por causa da pedofilia, o Papa foi à Sicília dizer que a verdadeira alternativa são os padres que encarnam o Deus da misericórdia e não o Deus do poder, do dinheiro."

Anselmo Borges explica que ao aproveitar o exemplo do padre Pino Puglisi, que trabalhava com os jovens, ajudando-os a sair da droga e da máfia, "um padre que negou o dinheiro, que nunca teve medo e que foi vítima da máfia, que morreu pelos outros, o Papa deixou bem claro que este é exemplo a seguir". Continuando: "A Igreja só tem sentido quando está ao serviço da humanidade." Por isso, acredita, que Francisco quis aproveitar o dia de hoje para, mais uma vez, deixar bem claro o lema do seu pontificado: "Foi falar de um exemplo, daqueles que optaram pela encarnação do Deus misericordioso e da ternura."

Não é a primeira vez que Francisco ataca a máfia ou que a refere nas suas homilias. A teóloga Teresa Toldy confessou mesmo ao DN não ter ficado surpreendida com as suas palavras. "O Papa definiu no início do seu mandato os vários pontos sobre os quais iria tratar. E tem-no feito, de forma mais ou menos acentuada e de acordo com as circunstâncias. A questão da máfia é uma delas", explicou. Teresa Toldy sublinhou ainda que se há coisa que não se pode dizer deste Papa é que salte de tema para tema. "A máfia tem sido uma das suas preocupações. Refere-a muitas vezes nas suas homilias diárias na Casa de Santa Marta. Hoje na Sicília teria de falar. Não me parece que seja um tema novo ou um alvo novo, não me parece que seja um ataque direto a Itália nem à corrupção. Desde o início que Francisco ataca a corrupção em todo o lado, até dentro do Vaticano."

Um ano depois de chegar a Roma, em março de 2014, Francisco reuniu-se com centenas de representantes de várias associações que combatem o crime organizado e que são alvo de ameaças constantes da máfia. Na altura, elogiou o trabalho destes e os seus esforços. No encontro definiu logo a sua posição: "O fenómeno mafioso, como expressão de uma cultura de morte, deve ser contrariado e combatido", afirmou.

Em junho desse ano, voltou a apontar o dedo ao crime organizado e aos mafiosos, aqueles que diz serem os que "exploram carências económicas e sociais para realizar os seus projetos deploráveis", numa visita à Calábria e a Nápoles. A quem o ouvia, Francisco anunciou que rezou a Deus para que "toque o coração dos homens e das mulheres das diversas máfias, para que deixem de fazer o mal, se convertam e mudem de vida".

Dois anos depois, a 19 de setembro de 2016, numa segunda-feira, inspirado no Evangelho do dia, São Mateus, o Papa começava a semana a falar da luz da fé e dos perigos que podem apagá-la, dizendo que a máfia é um deles. "Toda a máfia é obscura."

Hoje, mais uma vez, referiu-se à contradição entre o ser crente e o ser mafioso. "Uma pessoa que é mafiosa não vive como cristão porque com a sua vida ele blasfema contra o nome de Deus." E pediu: "Mudança, irmãos e irmãs! Parem de pensar em si mesmos e no dinheiro... Convertam-se ao Deus real." O Papa disse mesmo aos irmãos e às irmãs que o ouviam que quem "acredita em Deus não pode ser mafioso."

Para o padre Calado Rodrigues é mais uma situação que só torna o seu pontificado ainda mais positivo. "É mais um discurso contra os poderes instalados. É mais um sinal da sua eficiência." Para o padre Anselmo Borges, este discurso do Papa suscita ainda duas questões fundamentais do seu pontificado. "A questão do Deus dinheiro e do Deus Igreja ao serviço dos outros, da humanidade, dos jovens."

Da pobreza à ecologia, os desafios do pontificado de Francisco

No entanto, ambos concordam que a questão da máfia ou da corrupção não é a primeira que marca o pontificado de Francisco. Essa é a pobreza. "Os pobres, os mais frágeis, a igreja das periferias a quem é preciso chegar e de que ele tanto fala", recorda Calado Rodrigues. Depois vem a ecologia, um tema que assume para o seu pontificado na encíclica Laudato si, em junho de 2015. "Uma questão global e que tem tido agora grande oposição da parte do presidente norte-americano", sublinha o padre de Bragança. Em terceiro lugar, a reforma da Cúria, também muito contestada, até dentro da própria Igreja, mas que em breve os 23 decretos definidos pelos cardeais e pelo Papa deverão estar traduzidos sob a forma de Motu Proprio - a Constituição da Igreja. Por fim, Calado Rodrigues diz que aparece a questão da corrupção e, por acréscimo, a da máfia. "É uma questão sobre a qual já falou várias vezes."

Mas o desafio de Francisco parece ser agora os jovens. Em outubro, realiza-se o Sínodo dos Jovens, onde se irá discutir "Os jovens, a fé e o discernimento vocacional". O Papa não os esqueceu ontem na Sicília. Esteve reunido com um grupo ao final da tarde, depois de ter estado com os sacerdotes irmãos de Pino Puglisi e outros familiares, pedindo-lhes que sejam capazes de gerar "uma civilização nova, fraterna, acolhedora".

Francisco rezou e falou do padre Giuseppe Puglisi, que foi morto no dia em que fazia 56 anos, 15 de setembro de 1993, quando saía de casa. Hoje é um dos mártires da Igreja. Pino Puglisi, assim o tratava quem com ele lidou, foi considerado um sacerdote exemplar no combate à máfia, ao tráfico de droga, à delinquência. Mas já a caminho do aeroporto de Palermo para regressar a Roma, o Papa quis fazer mais uma paragem, que não estava prevista: o local onde ocorreu o atentado que matou o juiz Giovanni Falcone, que lutava contra a máfia siciliana, em 1992.

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