Elite científica pede avaliação independente à forma como Espanha geriu a pandemia

Sem "censura política", mas como preparação para uma eventual segunda vaga. A avaliação, de acordo com o grupo de cientistas, deve incluir três áreas de ação: governação e tomada de decisões, assessoria científica e técnica e capacidade operacional.

"A covid-19 atingiu fortemente Espanha, com mais de 300.000 casos, 28.498 mortes confirmadas e registo de cerca de 44.000 mortes, a 4 de agosto de 2020. Mais de 50.000 profissionais de saúde foram infetados e quase 20 000 mortes aconteceram em lares de idosos ".

É assim que começa a carta - e o artigo no El País que a cita - e assinada por um grupo de cientistas que pede uma análise independente à forma como o país geriu - e ainda está a gerir - a pandemia.

O documento foi publicado na revista científica "The Lancet" e na carta os 20 "prestigiados" epidemiologistas e especialistas em saúde pública espanhóis - assim os classifica o diário - questionam os números da infeção no país.

"Como é possível que Espanha se encontre agora nesta situação?", perguntam, tendo em conta que o sistema de saúde espanhol é considerado um das melhores do mundo.

Os signatários da carta pedem um exame sério e independente que responda a esta pergunta.

O país ocupa o oitavo lugar na lista de países com o maior número de mortes durante a pandemia.

Os cientistas frisam na carta que não se trata de fazer "censura política". O que pretendem é "uma análise necessária para entender o que aconteceu e evitar que volte a acontecer", escrevem.

Entre as figuras da "elite científica" que assinam o documento estão Margarita del Val, virologista do Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa; Manuel Franco, investigador na Universidade Johns Hopkins (EUA); Daniel Prieto-Alhambra, fármaco epidemiologista da Universidade de Oxford (Reino Unido); Rafael Bengoa, conselheiro para a reforma da saúde de Obama, o ex-presidente dos EUA; Carme Borrell, diretor da Agência de Saúde Pública de Barcelona; e Carles Muntaner, professor de Saúde Pública da Universidade de Toronto (Canadá).

"É importante que saibamos o que aconteceu, agora que a situação não é tão difícil como no início, principalmente para estarmos prontos para uma possível segunda onda no outono", justifica Helena Legido-Quigley, promotora da carta e especialista doutorada em saúde pública pela London School of Hygiene and Tropical Medicine.

Especialistas de todos os quadrantes, para evitar viés político

A OMS também já anunciou que pretende fazer a sua própria análise do que aconteceu para que eventuais erros ou falhas sejam corrigidos. Boris Johnson também já se comprometeu a fazê-lo no Reino Unido e na Suécia, outro país cuja abordagem tem sido muito discutida, também irá avaliar o seu desempenho de forma independente.

"Solicitamos uma avaliação independente e imparcial de um painel de especialistas internacionais e nacionais, com foco nas atividades do governo central e dos governos das 17 comunidades autónomas", afirmam no texto.

Para evitar o tal viés politizado, os 20 que que assinam a carta correspondem a diferentes "sensibilidades", esclarece Legido-Quigley, ou têm colaborado em administrações de diferentes lados políticos, tanto em Espanha como no estrangeiro.

Os especialistas sugerem, por exemplo, entrevistar de forma anónima todos os envolvidos nos diferentes níveis de gestão da pandemia, nos governos central e regional.

A avaliação, de acordo com este grupo de cientistas, deve incluir três áreas de ação: governação e tomada de decisões, assessoria científica e técnica e capacidade operacional.

Além disso, devem ser consideradas as "circunstâncias sociais e económicas que contribuíram para tornar a Espanha mais vulnerável, incluindo as crescentes desigualdades" do país, refere ainda a carta.

Essa avaliação pode levar a uma melhor preparação para uma pandemia, prevenir mortes prematuras e construir um sistema de saúde resiliente, baseado em evidências científicas.

O grupo de especialistas conclui que o Governo de Pedro Sánchez deve agora tomar a decisão de encomendar este exame independente.

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