"O que pode ganhar o rabo-de-cavalo?"

Ambiente nas sedes dos partidos de Pablo Iglesias e Albert Rivera era distinto. Festa na rua junto ao museu Rainha Sofia. Caras mais sérias no hotel Eurobuilding

Foi uma noite de nervos para todos os partidos. E com razão. Depois de vários meses com um cenário político totalmente em aberto, após o fecho das urnas surgia um panorama ainda mais incerto. A partir daí, todos passaram o resto da noite a fazer contas.

No Teatro Madrid, onde a direção do Podemos esteve ontem a acompanhar os resultados, viveu-se um ambiente de festa. Em frente ao museu Rainha Sofia, muitos militantes e simpatizantes da formação liderada por Pablo Iglesias juntaram-se para acompanhar os resultados. No hotel Eurobuilding, por outro lado, o ambiente estava bem mais sério. O Ciudadanos não conseguiu o número de deputados que indicavam há dias as sondagens e a estreia do partido de Albert Rivera em eleições legislativas acabou por ficar ensombrada. E nas sedes do PP e do PSOE, a alegria era contida. O bipartidarismo caiu mas os dois partidos conseguiram mesmo assim segurar o primeiro e o segundo lugar. Cada um fez a leitura dos resultados à sua maneira.

Na rua algum desconcerto. "O que pode ganhar o rabo-de-cavalo?", afirma uma senhora de idade nas imediações de Atocha, ao ver tanta gente de roxo, cor do partido de Pablo Iglesias. "Não é má ideia sacar o dinheiro do banco, isto não sei como vai acabar ", diz-lhe o marido. A poucos metros centenas de pessoas festejavam o resultado do Podemos e o papel chave num possível governo de esquerda. "É um resultado muito bom", garante ao DN Óscar Pérez, que esteve na festa junto ao Rainha Sofia. "Era melhor termos sido segundos e sermos nós a mandar num governo de esquerda mas o melhor de tudo é ver cair ao PP", explica.

Mudança foi a palavra mais ouvida durante a campanha eleitoral e a mais repetida no dia de ontem pelos candidatos e pelos eleitores. Durante a jornada eleitoral, o DN falou com vários espanhóis e todos coincidiram em assinalar que desta vez as coisas vão mesmo mudar. "Seja qual for o resultado, nada vai ser como antes", avisa Laura Sánchez, 25 anos, depois de exercer o seu direito ao voto.

Ela é uma dos muitos jovens que escolheram o Podemos, "porque falam na minha linguagem e fazem política sem pensar no dinheiro". Há quatro anos não votou. "Estava fora de Espanha e acabei por deixar passar o prazo para votar pelo correio, mas também não sabia em quem votar", sublinha. Mesmo a ganhar, "o PP vai ter que fazer acordos com outros partidos para governar e só vejo nisso algo positivo", acrescenta a jovem.

"A minha mulher deu-me o envelope fechado, não sei em quem votei", diz entre risos Fernando González, 75 anos. "Imagino que colocou dentro os papéis do PP", acrescentou. Concorda? "Desta vez sim, nem sempre votei nos mesmos mas desta vez não confio nos novos, têm muita pedalada pela frente", confessa este madrileno à porta da escola pública San Juan de la Cruz. O seu genro Adolfo, de 40 anos, ponderou o voto até o fim. Não conta em quem depositou a sua confiança mas assegura que "foi a votação mais difícil, estou desiludido com os partidos grandes, não me identifico com Podemos e penso que para o Ciudadanos este projeto é demasiado grande".

Laura, Fernando e Adolfo, Maria e Raquel votaram ontem com a esperança de ter um país, a curto prazo, mais forte, mais rico e com mais igualdade. Falta saber aquilo que os partidos têm para lhes dar em troca.

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