O primeiro-ministro que acabou com as notas de mil rupias

Objetivo de Narendra Modi é combater o mercado paralelo e a corrupção. Desde a meia-noite, os indianos deixaram de poder usar notas de 500 e de mil rupias (7 e 14 euros). Têm agora até ao fim do ano para as depositar no banco e explicar como as ganharam.

As noivas indianas agradecem prendas de ouro para o pé-de-meia e fazem bem, já quem guarda as poupanças em rupias debaixo do colchão tem agora um problema criado pelo primeiro-ministro Narendra Modi: desde ontem as notas de 500 e de mil rupias (7 e 14 euros) deixaram de ter valor legal e os donos têm só até ao final do ano para as depositar no banco. Quem se esquecer, ou temer dar explicações sobre a origem do dinheiro, ficará com mero papel, mesmo que as notas, bege e rosa, tenham um artístico desenho do Mahatma Gandhi.

Modi, filho de um vendedor de chá, tornou-se célebre como ministro-chefe de Gujarate entre 2001 e 2014 devido às elevadas taxas de crescimento económico do estado. Mas por causa dos motins religiosos regionais que causaram mil mortos em 2002 o político do partido nacionalista hindu BJP também esteve muito tempo sob suspeita de ter ignorado a violência antimuçulmanos.

Chefe do governo desde 2014, graças a uma maioria absoluta do BJP, procura agora modernizar a economia indiana e com certo sucesso. No ano passado, o país viu o PIB crescer mais do que o chinês e neste ano a previsão é de 7,6%, a melhor entre as grandes economias (a Índia é a sétima, tendo ultrapassado o Brasil, outro membro dos BRICS). E esta medida a meio do mandato enquadra-se nesse esforço, procurando combater a economia paralela e a corrupção. Conta o Times of India que quem aparecer no banco com mais de 250 mil rupias (3500 euros) terá de explicar a origem desse dinheiro, com a ameaça de pagamento dos impostos em falta acrescidos de uma multa de 200%.

São muitas as críticas à iniciativa de Modi, que não foi antecipada por nenhum jornal. Muitos comerciantes que fazem negócio em dinheiro vivo temem ser penalizados, enquanto outros indianos, mesmo com poupanças mínimas, desconfiam das intenções do governo do BJP, decidido a equilibrar as contas públicas a todo o custo.

Aos bancos foi dada ordem para vigiar a troca das velhas notas por novas (vai haver notas novas de 500 rupias e também de 2000). Os afetados pela cobrança fiscal serão uma minoria, pois 3500 euros é o equivalente a dois anos de rendimento médio na Índia. O governo tem a seu favor ter recolhido no mês passado o equivalente a dez mil milhões de euros graças a uma amnistia fiscal.

"O dinheiro sujo e a corrupção são os maiores obstáculos na erradicação da pobreza", tem argumentado Modi. Com 1250 milhões de habitantes e a maior taxa de pobreza dos BRICS (os outros são Brasil, Rússia, China e África do Sul), a economia da Índia precisa de crescer acima dos 10% anuais para mudar o rosto de um país que, antes da era colonial, disputava com a China quem tinha o maior PIB do mundo.

Apesar da diferença enorme de valor facial, a retirada destas notas indianas obedece à mesma preocupação de combate à economia paralela mostrada pelo BCE, ao decidir ir retirando de circulação as notas de 500 euros.

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