O poder da educação

Na ilha de Bolama há um homem que lidera a comunidade e coloca a educação em primeiro lugar.

Mustafá é um homem na casa dos 50 anos que tem 12 filhos. Não, não vive em Portugal, vive no Uato, tabanca (aldeia) da ilha de Bolama, na Guiné-Bissau. Mustafá é também trabalhador da AMI, agricultor e exemplo naquela terra. E um dos seus maiores exemplos será certamente o esforço e o orgulho que tem em fazer que cada um dos seus filhos entre no ensino superior. E já lá vão quatro. Uns em Direito, outros em Medicina ou Enfermagem, o importante é que estudem, diz o pai. Mais, neste ano - por estes dias, aliás - a sua filha está a acabar os estudos em Enfermagem, o que vai obrigar Mustafá a dar uma festa. E isso implica matar uma vitela e convidar todos os amigos e vizinhos. Outro significado: "Sai muito caro", diz o próprio. Que vê uma filha sair do ensino superior, para logo ver outro entrar. "Para o ano outro começa a universidade." E Mustafá não desanima. Numa terra onde as dificuldades são imensas, este homem tem dois orgulhos: a sua horta de uma variedade inigualável e o sucesso escolar dos filhos.

Conhecido como o galã da terra, Mustafá não se coíbe de dizer que pretendentes não lhe faltam. Já teve três mulheres (é muçulmano), mas agora tem apenas uma. Não descarta voltar a casar-se, mas ter mais filhos não está nos seus planos. "Quero dar educação a todos eles e 12 filhos já é muito caro", justifica-se.

Desconfio que, se tiver mais filhos, Mustafá não se desviará do seu sonho e que trabalhará ainda mais para dar a todos as mesmas condições. Porque, apesar de se queixar de quanto custa mandar um filho estudar para Bissau, é com os olhos a brilhar que fala da festa da filha que se aproxima. E nunca diz que não vai fazê-la, pelo contrário, quem o ouve falar diria que trabalha para ganhar o dinheiro para 12 destas festas. E nada o deixará mais feliz.

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