O moscovita que está a divulgar o vinho português na Rússia

A história de Kirill Yakovlev, um russo a viver em Cascais há 15 anos.

A Federação Russa vivia em crise económica quando Kirill Yakovlev visitou Portugal pela primeira vez. Estava-se em 2002 e "era um tempo de crise, de crise séria. Os jovens procuravam saídas profissionais, mas as perspetivas de trabalho eram escassas" e não estavam de acordo "com as habilitações de cada um". Mais: as perspetivas de remuneração "eram insuficientes, muito baixas", recorda Yakovlev, que nasceu em 1982 em Moscovo, cidade onde sempre viveu até se mudar para Cascais há 15 anos.

Em 2003, "o preço do petróleo cresceu, o que foi positivo para a economia russa", diz, mas a decisão estava tomada.

Licenciado pela Universidade Técnica de Transportes da capital russa (MADI, na sigla em inglês), Yakovlev, já em Portugal, fundou Slovo, publicação em russo distribuída no nosso país, em Espanha e na Itália. "Inicialmente era semanário, agora é mensário. Mas temos um site muito grande na internet", diz com algum sotaque, onde se destaca a entoação própria da língua russa. Posteriormente, entrou no setor imobiliário, nas viagens e na exportação de vinho português para o seu país. "Estamos a exportar 1,5 milhões de garrafas por ano, a maioria vinho verde e alentejano".

O vinho português é particularmente apreciado pelo consumidor russo. "Os russos gostam de Portugal e das coisas portuguesas" e o interesse dos portugueses pela Rússia está também a aumentar, considera Yakovlev, o que justificou a criação da agência de viagens. Está igualmente envolvido num projeto de divulgação dos dois países junto dos meios empresariais e das potencialidades dos respetivos mercados.

A escolha de Portugal deveu-se às "oportunidades de trabalho" - "estudámos o mercado antes de nos fixarmos e criarmos as empresas". Outro elemento é o que classifica como "processo fácil" para obter visto de residência. E pelo clima, claro. "Muito estável, sem grandes oscilações", pelo menos em comparação com a meteorologia na Rússia. E, como faz questão de salientar grande número de estrangeiros, pela "simpatia" dos portugueses. "São afáveis, prestáveis. Nem todos os povos do mundo são assim. É uma grande qualidade", considera Yakovlev. Sente também "não haver discriminação" no nosso país.

Quanto a Portugal propriamente dito, acho-o "diferente", com paisagens "fantásticas", com uma gastronomia e restaurantes "muito interessantes". A paisagem do Norte lembra-lhe "certas paisagens da Rússia".

Por outro lado, destaca a cidade de Tomar e o castelo. "É preciso conhecer a história da cidade" para a compreender, afirma Yakovlev, que enumera ainda outros locais "fascinantes": Sintra, cabo da Roca, Óbidos, as termas do Buçaco e do Luso. E a Quinta da Regaleira, que é única", diz, sugerindo conhecer a relevância simbólica da arquitetura do local e da organização dos jardins. O que ajuda a entender também a referência a Tomar e ao seu castelo. "Há tanta coisa para ver", diz. Mesmo "sítios que não têm história, são muito bonitos para visitar", e dá como exemplo a costa alentejana, com as suas praias e outros pontos de interesse.

Admitindo "escrever melhor o português" do que o fala, Yakovlev, igualmente fluente em inglês, pensa que o país é, talvez, "para pessoas com mais de 45 anos, que têm dinheiro e que procuram uma vida tranquilo num sítio simpático". A sustentar o seu ponto de vista, compara o ritmo de vida de Lisboa e da capital da Rússia: "Moscovo é uma cidade dinâmica, de vida muito agitada - 50 vezes mais do que Lisboa. O ritmo lá é acelerado, aqui é passo a passo", diz com nota de ênfase positivo. Moscovo "é como Londres ou Nova Iorque", afirma Yakovlev.

Casado com uma compatriota, Yakovlev tem uma filha de 3 anos. "Ainda estamos a decidir em que escola irá estudar", se portuguesa "ou outra". E parte da sua família está também a viver em Portugal. A mãe de Yakovlev, o irmão, técnico informático numa empresa portuguesa, e a irmã mais nova, que estuda mandarim na Universidade Autónoma, estão também fixados em Cascais, onde aquele planeia continuar a construir a sua vida.

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