Agressões contra muçulmanos em França triplicaram em 2015

Observatório registou ataques contra mesquitas e agressões a mulheres com véu

Em 2015, o número de atos contra pessoas ou instituições muçulmanas em França triplicou face ao ano anterior, disse à Lusa Abdallah Zekri, presidente do Observatoire National contre l'Islamophobie (Observatório Francês contra a Islamofobia).

"Em 2015, houve cerca de 400 atos de islamofobia em França, contra 133 em 2014", explicou o membro do Conselho Francês do Culto Muçulmano, quando questionado sobre um ano marcado pelos atentados terroristas de 7 a 9 de janeiro e de 13 de novembro.

Abdallah Zekri apontou como exemplo o incêndio de origem criminosa na mesquita de Auch, no sul de França, e o lançamento de cocktails molotov contra a mesquita de Mérignac, nos arredores de Bordéus, sublinhando que além do "aumento do número de ações, o grau de violência também aumentou".

"Antigamente, havia ações contra mesquitas com slogans, símbolos nazis e cabeças de porco. Em 2015, a violência foi mais grave: foram disparadas balas reais contra mesquitas, lançados cocktails molotov contra locais de culto e uma mesquita foi incendiada, tendo havido mulheres agredidas em locais públicos porque tinham um lenço na cabeça", descreveu.

O presidente do Observatório Francês contra a Islamofobia lamentou, também, os atos de vandalismo na Córsega contra uma mesquita e um restaurante árabe, na semana de natal, na sequência da agressão de dois bombeiros e de um polícia num bairro social, apontando que "não cabe aos habitantes fazer a justiça pelas próprias mãos" e sublinhando que "pedir a expulsão dos árabes é ter memória curta porque foram os soldados muçulmanos que libertaram a Córsega das mãos dos nazis" na Segunda Guerra Mundial.

Abdallah Zekri explicou que em 2015, de acordo com as queixas da comunidade muçulmana que foram chegando ao observatório, "há um olhar de suspeita e desconfiança" relativamente aos muçulmanos, que são também os mais visados pelas buscas "violentas e a horas aleatórias" da polícia no contexto do estado de emergência em vigor depois dos atentados de 13 de novembro.

O responsável do Conselho Francês do Culto Muçulmano afirmou, também, que o número de atos contra os muçulmanos foi mais expressivo em janeiro do ano passado, após os ataques ao semanário Charlie Hebdo, a uma polícia municipal e a uma mercearia judaica, do que depois dos atentados de 13 de novembro que fizeram 130 mortos.

"Em janeiro de 2015 tivemos 178 atos antimuçulmanos, ultrapassando todo o ano de 2014 em que houve 133 atos islamófobos. Por outro lado, uma semana depois dos eventos trágicos de 13 de novembro, houve 35 atos antimuçulmanos. A diferença é significativa porque em janeiro foram assassinados alvos específicos, enquanto em novembro os atentados afetaram toda a gente, desde católicos, a muçulmanos, judeus e ateus. Foi toda a juventude francesa que foi visada", continuou.

Por outro lado, Abdallah Zekri fez questão em sublinhar, à Lusa, que a comunidade muçulmana se uniu para "denunciar os atos bárbaros que nada têm a ver com o Islão".

"O Islão não tem nada a ver com os atentados. O Islão nunca defendeu nem a violência nem os assassínios. Nós condenámos o terrorismo bárbaro e os que o defendem em nome de um programa religioso em total contradição com o Islão. Eles querem dominar o mundo com as suas ideias integristas e o seu califado e criar um Islão feito à medida deles que nada tem a ver com as bases desta religião que defende a tolerância e a paz", continuou.

O presidente do Observatório Francês contra a Islamofobia alertou, ainda, para o aumento do número de jovens que se radicalizam em França e na Europa e que partem para a Síria e para o Iraque para integrarem as fileiras jihadistas, lembrando que "o racismo alimenta o integrismo" e que "os jovens vítimas de exclusão social e racismo são facilmente recrutados pelo Daesh".

"O fenómeno ganhou uma nova dimensão. Mais de mil franceses partiram para combater em nome do Daesh na Síria e no Iraque, 25 por cento dos quais se converteram muito recentemente e nem conhecem a religião. Por outro lado, é algo que não afeta apenas a França, mas toda a Europa", sublinhou.

A 7 de janeiro de 2015, Chérif e Saïd Kouachi mataram 12 pessoas no ataque à sede do semanário satírico Charlie Hebdo, em Paris. Um dia depois, Amedy Coulibaly matou uma polícia municipal em Montrouge, junto à capital, e a 9 de janeiro tomou de assalto uma mercearia judaica, em Paris, fazendo quatro mortos. A 13 de novembro, a capital francesa voltou a ser palco de vários ataques terroristas que fizeram 130 mortos.

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