Na Londres do Brexit. Da indiferença portuguesa aos protestos diários

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Na Londres do Brexit. Da indiferença portuguesa aos protestos diários

Diariamente, nos últimos dois anos, dezenas de manifestantes juntam-se à porta do Parlamento britânico, ou contra ou a favor do Brexit. Mas na Casa Benfica de Londres a ansiedade não entra.

Ora inglês ora português. As línguas misturam-se sem aviso ou consciência, todos os dias, na Casa Benfica de Londres, no Reino Unido. "Cá está ele!", exclama Vítor Faustino, de 53 anos, apontando para Afonso, de 65. "Trouxe o invoice (fatura) do relógio?", pergunta-lhe. "Disseram que você estava aqui", responde Afonso, abrindo e cantando todas as vogais, num sotaque que faz adivinhar de onde é natural, de Vila Nova de Gaia, Porto. "Conheces o gajo ali do post office (posto dos correios)? Aquele com o ponytail (rabo de cavalo). É o mais simpático. Vai lá, que ele ajuda-te", explica Vítor. "Conhece, garante, "mas não muito bem". "Conheço-os de os ver há long time (há muito tempo)".

Estamos no bairro de Lambeth - o mais português da capital britânica, onde residem cerca de 30 mil portugueses. Por isso mesmo lhe chamam "Little Portugal". E neste Portugal em ponto pequeno o Brexit também parece ser um assunto pequenino. Pelo menos, na Casa Benfica: "não faz sequer parte das nossas conversas", diz Vítor. Aos portugueses que passam por ali, garante, é assunto que "não aquece nem arrefece".

O português é cliente habitual por aqui. Fugiu para Londres há 30 anos, atrás de uma namorada inglesa que conheceu nos cruzeiros onde trabalhava em catering. Durante os primeiros 15 anos, foi manager de um restaurante francês - que depois o dono decidiu fechar e mudar para Portugal. O namoro, esse, foi "sol de pouca dura". "Passado um ano já não havia nada" com a miúda pela qual deixou o país. A ideia "era ficar só um ano" pela cidade, mas a vida corria bem por cá.

Depois do trabalho no restaurante, Vítor tornou-se motorista na operadora de autocarros inglesa Go Ahead, onde trabalha até hoje. "E nem se compara o que ganho aqui e o que ganharia em Portugal a fazer o mesmo" - se em Portugal teria um ordenado "à volta dos 700 ou 800 euros", aqui ganha "no mínimo 2500 libras". Além disso, cada esforço a mais "é recompensado": "quando fazemos um overtime (horas extra), somos pagos como deve de ser". E depressa "um ano tornou-se 30", conta.

O português escolhe "ficar mais outros 30, se for preciso". O que se passa no Parlamento britânico não mexe com os seus planos de vida. Apesar de o governo do primeiro-ministro conservador Boris Johnson já estar a causar receios e o retorno de vários portugueses, que arriscariam ver rejeitado o seu estatuto de residente e passar a viver ali como ilegais depois de terminarem o prazo de regulamentação da sua situação, com a saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

Desde que chegou a Londres que frequenta esta casa, que inicialmente deu lugar ao restaurante português A Toca, entretanto expandida para uma área maior adjacente. Há uns meses até lá esteve a almoçar o atual ministro das finanças português, Mário Centeno. Faz quatro anos que o antigo espaço se tornou na Casa Benfica. E as paredes deste espaço não deixam margem para dúvidas: nela, moram cachecóis do clube vindos de várias localidades de Portugal, imagens de jogadores como Luisão e uma lista de todos os títulos alcançados desde a sua fundação. Tudo soa português, apesar de estarmos no coração do Reino Unido. Na televisão, a voz da apresentadora Cristina Ferreira ecoa pelo espaço, no balcão servem-se copos de vidro com a inscrição 'Sagres' e o prato do dia era feijoada à transmontana.

Mas o que Vítor gosta mesmo é do pequeno-almoço que lá toma, durante o intervalo entre turnos - quase sempre o mesmo: um abatanado e um pão com queijo. Gosta especialmente quando é feito pela Nazaré, a portuguesa do lado de lá do balcão e a mais antiga do estabelecimento. "E se a ela está de folga, nem venho. Se está de férias, tiro férias também", conta.

Nazaré, 50 anos, ouve-o de cotovelos pousados no balcão, carregando uma expressão triste e olhando o tempo que faz lá fora. "Olhe para isto, sempre tão cinzento, sempre tão cinzento. Há lá sol como o da minha terra!". É assim desde que chegou, há 20 anos, num domingo de muita chuva, lembra. "Chovia que transbordava e o céu estava negro". Foi a 31 de outubro, "dia das Bruxas", acrescenta. Carrega na última palavra, como se a obscuridade desse dia tivesse ditado tudo o que representaria para Nazaré ter aterrado em Londres. Não foi amor à primeira vista. Nem à segunda e terceira. Na verdade, nunca houve amor. Se pudesse, regressaria "já ontem" para Viseu, de onde é natural. Não pelo Brexit - "oh, isso não me diz nada" -, pela saudade.

Lemos-lhe a história e rapidamente compreendemos a orgem do rosto entristecido. Foi por necessidade que há duas décadas se mudou para Londres. "Era muito feliz como chefe de departamento no Pingo Doce. Foram os melhores anos da minha vida. Quando deixei aquilo, chorei baba e ranho", recorda. Largou o emprego porque precisava de cuidar da filha doente, "que tinha várias convulsões sempre que estava longe da mãe". "O médico disse que eu tinha de escolher: 'quer continuar a ter um emprego ou ter a sua filha viva?'".

A filha tornou-se uma criança saudável, mas com o passar dos anos a família foi ficando debilitada financeiramente. Nazaré conseguiu uma oportunidade de trabalho em Londres e não pensou duas vezes. A família chegaria pouco depois. Além deste emprego, Nazaré acumula funções na limpeza de escritórios. Em Inglaterra, "ganha-se muito melhor", é certo. Mas "trocaria tudo isso para regressar a Viseu", garante. Só a neta, que nasceu em Londres há dois anos, é que a mantém por cá.

Michelle protesta todos os dias

Pela mesma altura em que Vítor dá o primeiro gole no seu abatanado, a britânica Michelle, 60 anos, começa o dia à porta de Westminster, de cartazes em riste. É assim há dois anos. Para ela, o Brexit é o motivo mais forte pelo qual alguma vez teria decidido sair à rua e protestar. "A primeira vez que decidi protestar foi pelo Brexit. Comecei há dois anos e continuo por cá". Todos os dias úteis da semana. Nestes dias de chuva, apresenta-se de quispo, com uma bata onde tem inscrito o apelo ao voto pela saída do Reino Unido da UE e dois cartazes na mão: "406 deputados votaram para sair da UE. Os deputados devem entregar um Brexit real", alerta num deles.

"Lá fora devem achar que nós somos doidos, não é?", referindo-se ao grupo de dez pessoas atrás de si, que apelam a que o Reino Unido saia da União Europeia. Por aqui, os turistas vão parando e tirando fotografias à pequena multidão que se junta em Westminster, como se fosse peça de um museu. E comenta-se: "É o Brexit. Que doidos", quase respondendo à questão de Michelle. "Continuam com isto?", surpreendem-se alguns. E outros mostram-se compreensivos: "Acho que só quem cá vive sabe o que se sente."

Entretanto, a britânica lembra o ano de 1973, quando o seu país integrou na antiga Comunidade Económica Europeia (CEE), a antepassada da UE. "Parecia uma ótima ideia. Estava tudo bem", diz. "Mas a UE é política, não uma verdadeira união entre países como prometeu ser."

Por isso, Michelle anseia pelos próximos meses: primeiro, eleições antecipadas, a 12 de dezembro; depois, retoma-se a discussão sobre o Brexit, depois de Bruxelas ter aceitado adiar a data da saída até 31 de janeiro de 2020. "Espero que Boris consiga chegar ao Parlamento Europeu com um acordo depois das eleições", remata.

Não muito longe dali, na Casa Benfica, Vítor dá mais um gole, Nazaré suspira. Por estas portas, o Brexit parece não entrar.

Reportagem publicada originariamente na edição impressa de 16 de novembro

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