Na linha de fogo amigo entre Washington e Moscovo

Kiev teme as consequências da relação entre Trump e Putin. Por um lado, os dois líderes querem dar-se bem. Por outro, os EUA continuam a condenar na ONU a agressão russa

Até quando irá durar a lua de mel entre Donald Trump e Vladimir Putin? Viverão felizes até ao para sempre dos seus mandatos? Ou chegará o dia em que, no Twitter, o presidente dos EUA dirá que a relação está complicada e que isso é mau e triste? O cupido da diplomacia terá a resposta, mas, num caso ou noutro, é quase certo que a Ucrânia estará sempre entre os dois.

"A "grande negociação" entre Moscovo e Washington irá envolver várias peças e é certo que a Ucrânia será uma delas", resume ao DN Anton Fedyashin, doutorado em Estudos Russos e da Europa de Leste pela Universidade de Harvard.

Em 2014 a Rússia invadiu e anexou a península da Crimeia (território oferecido à Ucrânia, então uma república soviética, pelo presidente Nikita Khrushchev em 1954) e em referendo 97,5% da população respondeu que preferia estar sob a alçada de Moscovo e não de Kiev. Na mesma altura, grupos separatistas em Donbass, no leste da Ucrânia, apoiados por Putin, iniciaram uma luta armada para conquistar mais autonomia para as regiões de Donetsk e Lugansk. Europa e EUA responderam com sanções contra Moscovo. Na cidade de Minsk, primeiro em setembro de 2014 e depois em fevereiro de 2015, a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente francês François Hollande patrocinaram um compromisso entre Putin e Petro Poroshenko, o presidente ucraniano. Desde então poucos progressos houve na implementação dos acordos e as armas nunca se calaram completamente.

Para Fedyashin é provável que Trump acabe por colocar pressão sobre a Ucrânia no sentido de Kiev reconhecer o estatuto especial das regiões de Donetsk e Lugansk. Em troca, Moscovo daria instruções aos rebeldes para baixarem as armas, permitindo que o exército ucraniano voltasse a controlar a fronteira no sudeste do país. Na opinião deste professor de História da Universidade Americana em Washington a Ucrânia só teria a ganhar com esta solução: acabariam os combates, haveria eleições e poderia começar todo o processo da reconstrução.

Outros analistas têm uma visão menos otimista daquilo que poderá acontecer. Ouvido pelo DN, Taras Kuzio, investigador ucraniano da Universidade de Alberta, no Canadá, não acredita que a boa relação entre Trump e Putin seja duradoura e está convencido que uma das consequências quando o verniz estalar será o envio de armas norte-americanas para a Ucrânia.

Nos EUA, entre a classe política, há quem advogue esta atitude. Tendo em conta o recente escalar das tensões e o intensificar dos combates no leste da Ucrânia, John McCain, presidente da comissão das Forças Armadas no Senado, defendeu na semana passada que a administração Trump deveria ajudar militarmente Kiev para que a Ucrânia possa defender-se.

A jornalista russa Ana Nemtsova escreveu no início de fevereiro um artigo para o Politico em que apresenta a Ucrânia como a "primeira baixa da aliança entre Trump e Putin". Explica a repórter que o país está "aterrorizado" com a possibilidade de Washington, para agradar a Putin, virar as costas a Kiev.

Até que ponto poderá o presidente dos EUA fechar os olhos e reconhecer a Crimeia como parte integrante da Rússia? Peter Kuznick, em conversa com o DN, não tem dificuldade em imaginar esse cenário. "Haverá alguns protestos reclamando a inviolabilidade das fronteiras, mas poucos ficarão verdadeiramente perturbados com a anexação, desde que os habitantes da própria Crimeia continuem a apoiá-la", sublinha o historiador e diretor do Instituto de Estudos Nucleares da Universidade Americana. O analista acrescenta que "o mundo acabaria por agradecer o desagravar das tensões".

Ainda assim, a primeira intervenção da nova embaixadora norte-americana nas Nações Unidas, Nikki Haley, a 3 de fevereiro, foi tranquilizadora para Kiev. "Queremos melhorar as relações com a Rússia, mas a terrível situação no Leste da Ucrânia exige uma forte e clara condenação", afirmou a ex-governadora da Carolina do Sul. Haley foi clara no discurso. Disse que "a Crimeia é parte da Ucrânia" e que as sanções relacionadas com a "ocupação russa" da península "vão continuar". Na quarta-feira, Donald Trump, numa carta enviada a Dalia Grybauskaite, presidente da Lituânia, sublinhou a importância do apoio que este país báltico tem dado para a "soberania e integridade territorial da Ucrânia".

Resta saber até que ponto Moscovo está disposto a aceitar esta visão. "A Rússia acredita que está inocente e não entende o porquê das sanções", explica Kuzio. "Os habitantes da Crimeia votaram em referendo e Putin nega a presença de tropas na Ucrânia e defende que o conflito é uma guerra civil", acrescenta o investigador. Assim, aos olhos de Putin são os EUA e o Ocidente que devem pôr um ponto final nas hostilidade para com a Rússia. Por outro lado - defende Fedyashin - a manutenção das sanções relativas à Crimeia, uma vez que foram aplicadas contra indivíduos e contra a própria península, tem como resultado "inspirar mais lealdade em relação à Rússia".

Donald Trump conversou por telefone com Putin a 28 de janeiro. Entre outros assuntos falaram sobre a Ucrânia e o diálogo correu bem. O presidente norte-americano dialogou ainda com Poroshenko, a 4 de fevereiro. A conversa também terá corrido bem. Será possível fazer a quadratura do círculo no triângulo diplomático desenhado entre Washington, Kiev e Moscovo?

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