Municipais do Brasil unem bolsonaristas e lulistas em coligações

Selva de três dezenas de partidos e questões locais que se sobrepõem às nacionais geram alianças contra natura entre arquirrivais políticos. O PT e o ex-partido do atual presidente, por exemplo, estão lado a lado em 145 municípios

Em Luziânia, no estado de Goiás, concorrem à prefeitura da cidade, de um lado, Marcelo Melo, do PSDB, partido de centro-direita de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin ou Aécio Neves, por exemplo. Do outro, Cristovão Tormin, do PSD, um partido fundado sem orientação política - "somos de direita, de centro e de esquerda", disse o fundador Gilberto Kassab na época da sua criação, em 2011. Em coligação com o candidato do PSDB estão MDB, PP, PSL, REDE, PTN, PPS, DEM, PRTB, PHS, PMB, SD, PT do B, PPL, PTC, PR e PRP, ou seja, 16 partidos. Ao lado do concorrente do PSD apresentam-se "só" 13, isto é, PTB, PRB, PSDC, PDT, PMN, PV, PC do B, PT, PSB, PEN, PSC, PPS e PROS.

Segundo levantamento do jornal Metrópoles, entre os partidos com mais de 2000 candidatos às mais de 5000 prefeituras do Brasil há praticamente todas as combinações de alianças possíveis - as exceções são o partido Novo, que tem como política evitar coligações, e uniões entre o PSOL, um dos partidos mais à esquerda do país, com ideário semelhante ao Bloco de Esquerda, e o PSL, força pela qual Jair Bolsonaro se elegeu presidente em 2018.

De resto, tudo é possível: coligações que reúnam o PT, de Lula da Silva, e o PSDB, do referido Fernando Henrique Cardoso, arquirrivais nacionais nas presidenciais de 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014 e 2018, há 313 pelo país.

Mas entre o PT, que além de Lula é de Dilma Rousseff, e o MDB, de Michel Temer, é impossível haver alianças depois do impeachment que os partidários da presidente chamam de "golpe", certo? Errado. Erradíssimo. É umas das parcerias políticas brasileiras mais eficazes a nível local com 605 uniões em cidades de grande, médio e pequeno porte.

"O MDB é o partido com mais candidatos às prefeituras no interior do Brasil. Fizemos muitas coligações e o natural é que façamos alianças expressivas com o MDB também. Além disso, o MDB tem um perfil que muda de estado para estado. Existem unidades da federação onde a aproximação connosco é maior, é algo circunstancial, não temos mais relação institucional com o MDB mas também não temos posição de confronto e as eleições impõem-se", justificou o senador Humberto Costa, integrante do Grupo de Tática Eleitoral do PT.

O assunto torna-se ainda mais difícil de entender aos olhos de europeus, onde em quase todos os países os partidos têm base ideológica bem definida, ou de americanos, divididos em apenas duas forças nacionais, se levarmos em consideração que PT e PSL estão juntos em 145 cidades. É certo que Jair Bolsonaro saiu do PSL em conflito com a direção e quer formar um partido próprio, o Aliança Pelo Brasil, mas uma fatia considerável do seu ex-partido ainda é composta por aliados seus. Pelo que há locais no Brasil onde lulistas e bolsonaristas caminham lado a lado.

"O Brasil sempre teve pluralidade de partidos, primeiro de cariz regional, na primeira república, depois, na revolução liderada por Getúlio Vargas, partidos nacionais mas com muita fragmentação, até ao golpe de 1964 quando a ditadura militar instituiu o bipartidarismo", explica Vinícius Vieira, professor de Ciência Política da Fundação Armando Álvares Penteado, ao DN.

"Já entre 1945 a 1964, um intervalo democrático, o PSB, de esquerda, e a UDN, de direita, aliavam-se, por tática, contra o getulismo, de centro", lembra a seguir o especialista.

"É uma sociedade que nunca se dividiu perfeitamente em direita e esquerda, ao contrário das sociedades industriais, há nomes que circulam entre os dois campos, o próprio Vargas é um exemplo, e, depois, os interesses da política local nem sempre convergem com os interesses da política nacional, é o caso destas alianças entre PT e PSL".

"No Brasil há dificuldade em encontrar partidos ideologicamente coerentes, a nível nacional não tanto, mas nos confins do país há interesses pessoais que se sobrepõem a interesses ideológicos, por isso há tantos políticos que passam por inúmeros partidos, o Bolsonaro é um desses".

De acordo com o cientista político, "no Brasil há dificuldade em encontrar partidos ideologicamente coerentes, a nível nacional não tanto, mas nos confins do país há interesses pessoais que se sobrepõem a interesses ideológicos, por isso há tantos políticos que passam por inúmeros partidos, o Bolsonaro é um desses".

"E porque não há então prévias?", pergunta-se Vieira. "Porque isso tiraria poder das direções, nomeadamente das direções dos estados, cujos caciques e oligarcas querem ter poder e autonomia, o que se traduz, depois em uniões entre bolsonaristas e lulistas, por exemplo".

O partido que mais encabeça coligações é o Democratas, partido de centro-direita dos dois presidentes do legislativo, Rodrigo Maia (Câmara dos Deputados) e Davi Alcolumbre (do Senado): a sigla fez alianças em 92,6% das prefeituras a que concorre; em seguida, vem o PSDB, com 91,7%, e o PP, partido onde Bolsonaro militou mais tempo na sua carreira, com 91,4%.

O PT, apesar das coligações aparentemente contra natura referidas acima, surge sozinho em mais de 20% dos municípios, o que é bastante, por comparação a outras forças. Entre esses municípios onde o partido de Lula corre solitário contam-se as grandes cidades.

"O PT não abre mão de ser o principal representante da esquerda mesmo que a urna diga o contrário", diz o professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília Arnaldo Mauerberg Junior, ao Metrópoles. É por isso que na maior das cidades, São Paulo, prefere apoiar um candidato próprio menos competitivo, Jilmar Tatto, a fazer papel de ator secundário na candidatura de Guilherme Boulos, do PSOL, em ótima posição para chegar à segunda volta, de acordo com as sondagens.

Há, entretanto, esperança que, no futuro, a sopa de letras eleitoral diminua. "Haverá cláusula de barreira já nesta década, com isso o fundo partidário será cada vez mais restrito e, a partir daí, talvez se veja um incentivo a uma estrutura mais enxuta com esse tipo de aliança catch all [apanha tudo], como se diz no mundo anglo-saxónico, cada vez menos comum".

Esse movimento teria reflexos também a nível nacional, onde tanto o antigo presidente Lula, partindo da esquerda para o centro, como agora Bolsonaro, num movimento da extrema-direita para o centro, acabaram por se tornar reféns do conjunto de partidos ideologicamente nulos que se coligam a qualquer governo em troca de nacos do poder, o famigerado "centrão".

"Bolsonaro, assim como Lula, adaptou-se e coligou-se com os partidos do centro por uma questão de sobrevivência do seu governo", sublinha Vieira.

No fundo, o Mensalão, esquema de compra de votos de deputados do primeiro governo do PT, nasceu desse ciclo viciado. Como agora, Bolsonaro já entregou milhares de milhões de reais nas mãos de políticos do "centrão", além de ter escolhido um juiz para o Supremo Tribunal Federal, aconselhado pelos líderes desse grupo de deputados assumidamente clientelistas.

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