"Tenho arrepios. Nunca imaginei em toda a minha vida que conduziria nesta avenida"

Não é um domingo qualquer na Arábia Saudita. Acabou a proibição de conduzir para as mulheres. Pegaram no volante logo à meia noite

Os primeiros minutos deste domingo na Arábia Saudita ficaram marcados pela presença inédita de mulheres ao volante nas estradas do reino, uma reforma histórica neste país ultraconservador, levada a cabo pelo príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman.

"Tenho arrepios. Nunca imaginei em toda a minha vida que conduziria nesta avenida ", contou à AFP Samar Almogren, apresentadora de televisão e mãe de três filhos, enquanto descia a King Fahd Avenue, principal artéria da capital saudita, ao volante do seu automóvel, poucos minutos depois da meia-noite.

A agência conta que dezenas de mulheres aproveitaram a nova lei para circularem ao volante das suas viaturas logo que começou o novo dia, em que foi finalmente levantada uma proibição que durava há décadas e que era o sinal mais visível da repressão sobre as sauditas.

Roa Altaweli quase não dormiu. É isso que conta à BBC: "Acordei mais cedo que o habitual, aliás estava tão entusiasmada que mal consegui dormir. Hoje vou a conduzir para o trabalho e pela primeira vez não vou no banco de trás. Vou ao volante. Ainda mal posso acreditar."

Em Jeddah, a cidade onde vive, as primeiras mulheres a conduzir foram recebidas com aplausos nas ruas.

Mona Al-Fares é médica. Ainda antes da meia-noite entrou para dentro do carro e ficou à espera. Chave na ignição, assim que o relógio anunciou a mudança da lei girou-a, meteu a primeira e arrancou. O marido e os filhos iam no carro com ela, contou à CNN: "Sinto-me estupefacta. Estou mesmo a conduzir no meu país? Sinto-me feliz, aliviada. Sinto que sou livre."

O dia é bom para quem vai conduzir pela primeira vez. As crianças estão de férias da escola, há pouco trânsito. Roa é parteira e teve de ir para o hospital trabalhar. O pai foi ao lado para lhe dar algumas indicações. "Passei pela polícia no caminho, mas sem medo de ser mandada parar. Tenho uma carta de condução e estou a conduzir legalmente na Arábia Saudita. Parei para tomar café num drive-in e fui a primeira mulher condutora que o funcionário alguma vez atendeu."

Roa chegou ao hospital, estacionou e fechou o carro. Diz que caminhou confiante para o trabalho. "Temos um longo caminho a percorrer. Hoje é um dia histórico, e parece um dia carregado de promessas de um futuro com mais dias históricos para as mulheres na Arábia Saudita."

A questão de saber se a sociedade saudita estava pronta para ter mulheres ao volante de viaturas foi matéria de um longo debate no reino, que nem sempre decorreu nos moldes esperados.

Em 2013, um conhecido clérigo saudita, o xeque Saleh al-Louhaidan, chegou a garantir que a condução de automóveis poderia danificar os ovários das mulheres e deformar a sua pelve, o que levaria a malformações dos recém-nascidos.

A resistência ao levantamento da proibição ainda é forte em alguns setores da sociedade saudita. A AFP conta que músicas com títulos como "Do not drive" tornaram-se extremamente populares nas redes sociais nas últimas semanas.

Em 2013, um conhecido clérigo saudita, o xeque Saleh al-Louhaidan, chegou a garantir que a condução de automóveis poderia danificar os ovários das mulheres e deformar a sua pelve, o que levaria a malformações dos recém-nascidos

Anunciada em setembro de 2017, a medida promovida pelo príncipe herdeiro integra um amplo plano de modernização do país, pondo fim a uma proibição que se tornou símbolo do da posição secundária atribuída às mulheres pelo regime.

A medida está a ser encarada por muitos como o início de uma nova era numa sociedade que vive sob um regime islâmico rigoroso.

"É um passo importante e uma etapa essencial para a mobilidade das mulheres", resume Hana al Jamri, autora de um livro que será publicado em breve sobre as mulheres no jornalismo na Arábia Saudita.

A escritora lembra que as mulheres sauditas "vivem num sistema patriarcal", e que a possibilidade de conduzir automóveis vai ajudá-las a desafiar as rígidas normas sociais do reino.

Segundo estimativas da empresa de consultadoria PricewaterhouseCoopers, cerca de três milhões de mulheres sauditas devem adquirir a carta de condução e começar a dirigir até 2020.

Apesar da abertura das escolas de condução, muitas mulheres reclamam da falta de instrutores e do alto custo das aulas. As autoridades emitiram este mês as primeiras licenças de condução para as mulheres, havendo muitas que simplesmente trocaram a carta de condução estrangeira por uma licença saudita.

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