Mulheres obrigadas a viver escondidas depois de entrarem em templo hindu

Bindu Ammini e Kanakadurga, que no dia 2 de janeiro desafiaram a tradição entrando no templo de Sabarimala, têm passado os últimos dias a passar de esconderijo para esconderijo para escaparem à ira de religiosos conservadores

Duas mulheres de 40 e 39 anos, Bindu Ammini e Kanakadurga, tornaram-se protagonistas de um episódio de tensão entre forças progressistas e conservadores religiosos, com a classe política envolvida no debate, depois de terem desafiado as regras no dia 2 deste mês entrando no templo hindu de Sabarimala, vedado a raparigas e mulheres "em idade fértil", até aos 50 anos. A leitora universitária e a funcionária pública vivem desde então escondidas em "casas seguras", sendo frequentemente deslocadas por voluntários de um ponto para o outro.

O templo em causa é dedicado a uma divindade conhecida por Lorde Ayyappa, o qual segundo a crença popular terá mantido o celibato até ao fim da vida. E será devido a essa condição que, de acordo com as crenças dos seus muitos fiéis, a presença do sexo feminino é interdita.

Em dezembro, o Supremo Tribunal indiano, com quatro votos a favor e um contra, decidiu banir essa regra, considerando-a inconstitucional, mas a medida teve pronta reação de grupos religiosos conservadores, que começaram a organizar barricadas à entrada do templo para impedir a aplicação dessa decisão. Várias mulheres tentaram, ainda assim, entrar em Sabarimala. Mas Bindu e Kanakadurga o conseguiram, à segunda tentativa e com proteção policial, tornando-se de imediato num símbolo entre os que defendem o fim de práticas discriminatórias no país e num alvo daqueles que consideram que o Estado não deve intervir nas tradições religiosas. Entretanto, uma terceira mulher, cujo nome não foi divulgado, conseguiu entrar no templo.

Afastadas das famílias e forçadas a viver na clandestinidade, as duas mulheres não se arrependem da decisão tomada. Mas admitem que não previram as consequências do ato que assumiram, entre as quais vários tumultos nas ruas que já causaram pelo menos um morto. "Não estou preocupada com a minha segurança mas com a segurança da sociedade", disse Bindu Ammini, numa entrevista à CNN. "Nunca esperei esta situação. Violência nas ruas, uma pessoa morta", acrescentou Kanakadurga.

Apesar da decisão histórica do Supremo Tribunal e do ato ousado das duas mulheres, o apoio político à abertura do templo a todos tem sido escasso. A alguns meses das eleições gerais do país, nenhuma das principais forças políticas parece querer associar-se a medidas controversas, e quer o primeiro-ministro Narendra Modi, do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata Party (BJP), quer o Partido do Congresso, principal força da oposição, foram opositores da decisão do Supremo. No Kerala, onde o templo está localizado, o poder está nas mãos de uma coligação comunista que tem apoiado a decisão.

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