Mulheres ao volante e cinema para todos

Proibições duravam há cerca de três décadas e são sinal de uma sociedade religiosa, mas também jovem, diz analista.

No primeiro protesto contra a proibição de conduzir, em 1990, 47 mulheres sentaram-se atrás do volante e andaram pelas ruas de Riade durante cerca de uma hora, até serem detidas pela polícia religiosa. Depois foram despedidas dos seus empregos e impedidas de viajar. Uma dessas mulheres, uma professora universitária na casa dos 60 anos, recorda esse episódio como um momento de desafio que abriu uma nova era do movimento dos direitos das mulheres.

Foi preciso esperar quase três décadas para que a Arábia Saudita iria deixasse de ser o único país do mundo onde as mulheres não podiam conduzir. O anúncio foi feito no passado mês de setembro e a lei terá de ser implementada até 24 de junho.

Segundo o embaixador saudita nos Estados Unidos, o príncipe Khaled bin Salman, as mulheres não precisarão da autorização dos seus guardiães para ter carta de condução ou ter de andar com um deles dentro do carro. Poderão também conduzir por qualquer parte do reino, incluindo as cidades sagradas de Meca e Medina.

"Porque é que esta mudança aconteceu agora, depois de tanto tempo? É parcialmente o resultado de fatores de cima para baixo, como um novo príncipe herdeiro a introduzir um novo estilo de política. Também reflete mudanças provenientes de uma sociedade que pode ser altamente religiosa, mas também é muito jovem e enfrenta um novo futuro económico", defende Jane Kinninmont, investigadora na Chatham House e especialista em mundo árabe. "O crédito desta decisão será dado ao novo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman. Aos 32 anos, ele apresenta-se como um modernizador. Deixar as mulheres conduzir faz mais para mudar a imagem da Arábia Saudita do que qualquer outro anúncio político poderia ter feito, e também ampliará a sua imagem pessoal como um agente de mudança", acrescenta a mesma analista.

Mas algumas ativistas sauditas dizem que esta mudança tem um preço: o seu silêncio. Quatro mulheres que participaram em protestos contra a proibição disseram à Reuters no início de outubro terem recebido telefonemas a instruí-las para não comentarem o decreto. Duas delas adiantaram que cerca de 25 ativistas tinham recebido chamadas semelhantes. "Ele foi muito direto. Disse que me era ordenado que não comentasse o tema de as mulheres conduzirem ou seriam tomadas medidas contra mim", disse à Reuters uma das ativistas. Uma acusação rejeitada pelo governo saudita, citando mulheres que expressaram as suas opiniões em artigos no The New York Times e na CNN.

Em meados de dezembro, a Arábia Saudita anunciou o fim de uma outra proibição que durava há 35 anos e que diz respeito à reprodução de filmes no cinema, que voltarão a funcionar a partir de março. "A abertura dos cinemas servirá de catalisador para o crescimento económico e a diversificação. Ao desenvolver um setor cultural mais amplo, criaremos novas oportunidades de emprego, além de enriquecer a opção de entretenimento do reino", disse o ministro da Cultura e Informação saudita, Awwad bin Saleh Alawwad.

A intenção do governo é abrir mais de 300 cinemas, com mais de dois mil ecrãs até 2030, construindo uma indústria que poderá contribuir com mais de 24 mil milhões de dólares para a economia e criar cerca de 30 mil empregos no mesmo período.

Mas este sinal de abertura traz um piscar de olho aos mais conservadores: o governo garantiu que os filmes serão censurados de forma a garantir que se mantêm "em linha com os valores e os princípios em vigor e não contradizem as leis da sharia e os valores morais do reino".

"A Arábia Saudita está sempre nas notícias, mas é simpático estar nas notícias por este motivo", afirmou a realizadora Haifaa Al Manour, que em 2012 lançou a sua primeira obra rodada integralmente no reino, o premiado O Sonho de Wadjda. "Sinto que estamos prestes a viver o que era o Egito nos anos 1950", disse a cineasta, referindo-se à explosão do cinema no que é agora o epicentro do cinema popular árabe.

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