Morte de rapaz no Ohio reabre debate sobre armas e ação policial

Agente chamado para responder a um assalto abateu Tyre King, um afro-americano de 13 anos, quando este sacou da pistola de ar comprimido que trazia à cintura

"Um rapaz de 13 anos morreu em Columbus devido à nossa obsessão com as armas e a violência", lamentou ontem Andrew Ginther, presidente da Câmara da capital do estado norte-americano do Ohio. Tyre King terá puxado a sua pistola de ar comprimido quando os polícias se aproximaram dele na quarta-feira à noite após terem sido chamados devido a um assalto. Um dos agentes disparou várias vezes contra o adolescente, que veio a morrer no hospital infantil.

O caso reabre não só o velho debate sobre as armas nos Estados Unidos - no Ohio, por exemplo, a lei é totalmente omissa sobre as armas de pressão de ar, fazendo com que qualquer pessoa possa adquirir uma -, como se junta a uma série de outros em que jovens negros, como Tyre King, foram abatidos por polícias brancos. Casos esses que levaram as organizações de defesa dos direitos dos afro-americanos a denunciar a violência policial de que os negros são alvo e o racismo dos agentes. Por outro lado, também acenderam sentimentos de vingança que já levaram à morte de vários polícias. Em julho, por exemplo, cinco agentes foram abatidos em Dallas no Texas por um veterano do Afeganistão durante um protesto da organização Black Lives Matter.

Para a polícia de Columbus, a morte de King é "uma tragédia", explicou o chefe da polícia da cidade, Kim Jacobs, antes de acrescentar que "é a última coisa que um agente quer". Jacobs identificou o agente que disparou sobre o adolescente como Bryan Mason. Polícia há nove anos, este já em 2012 fora investigado após balear mortalmente um homem que apontara uma arma a outra pessoa. Foi ilibado. Agora foi para casa de licença enquanto decorre o inquérito.

Segundo a polícia, os agentes que responderam à chamada a denunciar um assalto - no valor de dez dólares (menos de nove euros) - quando chegaram ao local viram três suspeitos que correspondiam à descrição dos assaltantes. Dois fugiram para um beco. Aí os polícias dispararam sobre King, depois de, segundo os agentes, este ter tentado apontar-lhes uma arma. O outro suspeito foi detido.

Mais tarde, as autoridades perceberam que o que o rapaz tinha à cintura era uma pressão de ar, uma arma usada sobretudo em concursos de tiro desportivo e que dispara pequenos chumbos. A arma em questão tinha ainda uma mira de laser.

A família de King, que descreve o adolescente como um rapaz ativo, que gostava de futebol americano, hóquei e ginástica, garante ter testemunhos que contradizem a versão das autoridades e exige uma investigação independente.

A morte de King surge dois anos depois de Tamir Rice, de 12 anos, ter sido abatido em Cleveland, também no Ohio, por um agente branco enquanto usava uma réplica de uma pressão de ar. A morte do jovem negro é uma das que são recordadas nos protestos da Black Lives Matter.

A morte de King veio agora reacender o debate sobre a posse de armas nos EUA. Nos últimos anos, o presidente Barack Obama fez várias tentativas para impor um maior controlo na venda de armas, mas estas foram sempre travadas pela oposição republicana, em maioria no Congresso.

Nos últimos tempos, sucederam-se também as mortes de jovens negros, alguns desarmados, por agentes brancos. Não era este o caso em Columbus. O que centra a questão no dilema moral do polícia: disparar contra um suspeito que lhe parece armado ou esperar e arriscar tornar-se num alvo.

As estatísticas confirmam que metade dos suspeitos mortos pela polícia em 2015 eram negros (quando estes representam 13% da população dos EUA), mas o Wall Street Journal recorda que os afro-americanos também foram responsáveis por 57% dos homicídios e 62% dos assaltos à mão armada cometidos no ano passado.

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