Moçambique em alerta vermelho por causa do ciclone Kenneth

Instituto Nacional de Gestão das Calamidades deslocou parte dos meios que estavam na província de Sofala, afetada pelo ciclone Idai, há pouco mais de um mês, para a província de Cabo Delgado

Moçambique precisa de 100 milhões de meticais (1,3 milhões de euros) para assistir eventuais vítimas do ciclone Kenneth, que deverá atingir o norte do país na quinta-feira, segundo as autoridades, que emitiram um alerta vermelho

"Nós fizemos um levantamento preliminar daquilo que serão as necessidades e estão estimadas em cerca de 100 milhões de meticais", disse a diretora-geral do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC), Augusta Maita, falando à margem do Conselho Coordenador da instituição.

De acordo com a diretora-geral do INGC, parte dos meios que estavam alocados para a província de Sofala (centro de Moçambique), afetada pelo ciclone Idai há um mês, serão alocados para a província de Cabo Delgado, no norte do país.

"Esta é uma previsão, mas logo que tivermos uma indicação clara do impacto do ciclone poderemos fazer uma atualização do que é necessário", declarou Augusta Maita.

Dados oficiais indicam que perto de 692 pessoas estão em zonas consideradas de risco no norte de Moçambique.

Além do norte de Moçambique, o ciclone, que começou como uma depressão atmosférica no oceano Índico, poderá afetar o sul da Tanzânia, país vizinho.

O ciclone Idai, que atingiu o centro de Moçambique a 14 de março, causou um total de 603 vítimas mortais, tendo afetado mais de 1,5 milhões de pessoas.

A ser necessário, o acesso à província de Cabo Delgado poderá ser mais complexa, dados o episódios de violência que têm sido levados a cabo por grupos de islamitas armados e a consequente resposta das forças armadas moçambicanas. Para esta quarta-feira está precisamente marcada a leitura da sentença de 189 pessoas acusadas de envolvimento na violência armada que afeta a província desde outubro de 2017.

O julgamento começou no dia 3 de outubro de 2018 e, no total, foram 20 sessões, dirigidas pelo juiz Geraldo Patrício, a quem hoje cabe a leitura da sentença das 189 pessoas acusadas de envolvimento na violência armada em Cabo Delgado, norte de Moçambique.

Entre os arguidos, estão moçambicanos e estrangeiros, maioritariamente da Tanzânia, país com zonas que fazem fronteira com os distritos moçambicanos que têm sido alvos de ataques de grupos armados na província de Cabo Delgado.

Desde o ano passado, as dezenas de detenções e o julgamento em curso não têm conseguido conter a violência em Cabo Delgado, multiplicando-se ataques por parte de grupos armados e acusações de abusos de direitos humanos contra as Forças de Defesa e Segurança (FDS).

Um documento a que a Lusa teve acesso na semana passada indica que o Ministério Público moçambicano constituiu um total de 339 arguidos em 19 processos relacionados com os ataques de grupos armados em Cabo Delgado.

Dos 339 arguidos nos 19 processos, 275 estão em prisão preventiva e 64 respondem em liberdade provisória, mediante termo de identidade e residência, lê-se no documento.

De acordo com números oficiais, pelo menos 140 pessoas, entre residentes, supostos agressores e elementos das forças de segurança, morreram desde que a onda de violência começou.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...