Michelle Obama: "Nós mulheres ainda suspeitamos umas das outras"

Ex-primeira-dama foi a estrela da United State of Women, convenção onde se falou do futuro das mulheres na era do Time"s Up e Me Too

A jovem escritora Marley Dias e a atriz Marsai Martin não conseguiram acabar de apresentar Michelle Obama, porque bastou dizerem que a próxima convidada tinha estado na Casa Branca para que os gritos ensurdecedores de seis mil pessoas afogassem o resto do discurso. A ex-primeira-dama era a voz mais esperada da segunda edição do United State of Women, um evento que começou em Washington em 2016 e este ano voou para Los Angeles em plena ebulição dos movimentos Me Too e Time"s Up. Em conversa com a atriz de Black-ish Tracee Ellis Ross, Michelle Obama falou com candura da vida familiar e dos sonhos da nova geração de raparigas. Mas foi a abordagem política que incendiou o Shrine Auditorium, apesar de nunca referir o presidente Donald Trump pelo nome.

"Ainda estamos na fase de perceber o que significa ser mulher, o que pensamos de nós e das outras. À luz das últimas eleições, estou preocupada connosco como mulheres. O que nos passou pela cabeça quando deixámos que aquilo acontecesse?", questionou, arrancando uma sonora reação da audiência. "Se nós como mulheres ainda suspeitamos umas das outras, se não estamos confortáveis com a ideia de que uma mulher possa ser nossa presidente - e comparado com... o quê?" Michelle disse que o facto de Hillary ter perdido mesmo sendo a "pessoa mais qualificada" diz algo sobre o estado das mulheres, que foi o centro deste evento.

A ex-primeira-dama também admitiu que os oito anos do marido na Casa Branca não cumpriram o sonho do Yes, We Can. "Ainda não acertámos nisso", afirmou, depois de alguém na audiência lhe ter dito que devia candidatar-se em 2020. "Quando ouço as pessoas dizerem para eu me candidatar, isso é parte do problema", respondeu. "Não é "Sim, eu posso", é "Sim, nós podemos". E até acertarmos nisso, não importa qual é a pessoa que se candidata. E olhem, não acho que sou diferente da Hillary."

Apesar de Michelle Obama ter reiterado que não está interessada em voltar à Casa Branca, no evento estiveram dois nomes que estão na shortlist de possíveis candidatos democratas em 2020: o mayor de Los Angeles, Eric Garcetti, e a senadora da Califórnia Kamala Harris.

"Lutamos pelas mulheres porque lutamos pela nossa cidade", disse Garcetti, que pela primeira vez na história de LA conseguiu a paridade nos órgãos governativos da cidade. "Homens, parem de dizer que fazem isto porque têm uma mãe ou uma irmã. Precisamos de fazer isto por nós próprios", apontou. "Libertação do abuso sexual, igualdade salarial, o direito de controlar o corpo e a saúde, isto são direitos humanos."

No caso de Kamala Harris, de quem se diz já ter iniciado uma "campanha-sombra" para 2020, o foco esteve nas eleições intercalares deste ano. "Para estarmos seguros temos de ter uma democracia musculada", afirmou, urgindo toda a gente a mobilizar-se. "Sou uma guerreira alegre: temos de encontrar a alegria nesta luta."

Apesar da natureza politizada dos discursos, que apelaram à resistência, ao combate ao racismo e à discriminação de género, não houve referências diretas aos partidos nem ao presidente, salvo na intervenção da atriz Jane Fonda. "Quando Trump foi eleito e a tóxica base de supremacia branca foi exposta, percebi uma coisa: estive envolvida em trabalho progressista toda a vida, mas porque sou branca vi as questões de raça através de uma lente muito superficial", disse. "É preciso mais que empatia."

Na audiência, cuja diversidade era espantosa, Cecilia Torres disse ao DN que acredita ter sido esse o fundamento da eleição de Trump. "Esta campanha foi racista, foi sobre os imigrantes mexicanos, não sobre os loiros que vêm da Polónia", afirmou. "Ele criou uma plataforma para aqueles que desdenham dos imigrantes." Torres é voluntária da UNICEF e viajou desde Chicago para recarregar baterias. "Estão a pregar aos convertidos, mas ao mesmo tempo é revigorante reavaliar o que fazemos todos os dias."

O tom dos discursos, que incluíram sobreviventes do massacre de Parkland, ginastas vítimas de abuso sexual pelo médico Larry Nassar, representantes das comunidades indígenas, Black Lives Matter e outras causas, não foram feitos para convencer ninguém. A audiência reagia em uníssono porque estão todos do mesmo lado. O foco esteve nas estratégias de ação: o que fazer até às eleições, que medidas pode cada um tomar nas suas comunidades e como agarrar o momento de efervescência do Me Too e Time"s Up para que haja mudanças reais.

"As pessoas estão hiperfocadas na parte mediática", disse Tarana Burke, fundadora do Me Too. "O trabalho que tem de ser feito acontece depois de dizermos "eu também"."

Em Los Angeles

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