'Matthew' deixa caos no Haiti e Florida prepara-se para o pior

Ventos de 230 km/h e inundações deixaram Les Anglais numa "situação catastrófica". Após passar por Cuba, tempestade cruza hoje as Bahamas. Amanhã à noite pode atingir os EUA

De olho no rasto de morte e destruição que o furacão Matthew deixou ontem à passagem pelo Haiti e por Cuba, o governador da Florida Rick Scott declarou o estado de emergência indicando que a região deve preparar-se para o pior. O 13.º furacão da época no Atlântico foi o mais forte a atingir o Haiti em mais de meio século, trazendo ventos de 230 km/h, a queda de 64 centímetros de precipitação em alguns pontos do país e a subida das águas três metros acima do normal. Hoje, o Matthew atravessa as Bahamas e amanhã à noite, caso não mude de direção, passa ao largo da Florida.

O olho do furacão atingiu terra às primeiras horas da manhã de ontem na vila piscatória de Les Anglais. "A situação é catastrófica, a cidade está inundada, há árvores caídas em todo o lado e é muito difícil a circulação. O vento danificou muitas casas e arrancou os telhados", disse à Reuters a adjunta do presidente da câmara, Marie Claudette Regis Delerme. Há registo de pelo menos três mortos por causa do furacão.

Num país onde milhares de pessoas ainda vivem em tendas e barracas desde o sismo de 2010, que fez mais de 220 mil mortos, o receio é que haja deslizamentos de terras por causa das inundações. Mais de nove mil pessoas foram retiradas das suas casas, mas muitas recusaram sair com receio de perder os poucos bens que têm. Apesar da destruição, o furacão não deverá atrasar a realização das presidenciais (que já deviam ter ocorrido) no próximo domingo, disse o gabinete do presidente interino, Jocelerme Privet.

"É a pior tempestade que atinge o Haiti em várias décadas e os danos serão, sem dúvida, significativos", disse em comunicado Marc Vincent, representante da Unicef no Haiti. Os outros dois furacões desta intensidade a atingir o país (na mesma área que agora o Matthew) foram o Flora, que deixou cerca de cinco mil mortos em 1963 , e o Cleo, que matou 132 no ano seguinte.

A organização para a infância da ONU teme pelo destino de "mais de quatro milhões de crianças" que estarão expostos às consequências do furacão. A prioridade, segundo Vincent, é garantir o acesso das populações a água potável, por causa da epidemia de cólera que se pode agravar. A doença foi reintroduzida no país, por negligência, pelos capacetes azuis da ONU destacados após o sismo. Só este ano já foram detetados 27 mil casos suspeitos da doença, um terço deles em crianças.

Em Cuba, as autoridades estavam há dias a preparar-se para o Matthew, contando com o apoio de voluntários para ajudar nas evacuações - que envolveram 430 mil pessoas. O presidente cubano, Raúl Castro, esteve na região oriental da ilha a supervisionar esses esforços. O olho do furacão ia atingir a província de Guantánamo, onde os EUA têm a base militar e prisão - os 61 prisioneiros estão em instalações preparadas para resistir a este tipo de tempestade, mas o pessoal não essencial foi retirado.

Os meteorologistas esperavam que a passagem pelo Haiti e por Cuba pudesse enfraquecer o furacão (de categoria 4 para 3 na escala de Saffir-Simpson, cujo máximo é 5), mas ainda assim continuará a ser considerado perigoso com ventos superiores a 170 km/h quando passar pelas Bahamas (teme-se que diretamente sobre a capital Nassau).

Na Florida, os especialistas não excluem um "impacto direto" e o governador declarou o estado de emergência. "O Matthew é um furacão de categoria 4 que pode por vidas em causa e devemos levá-lo a sério. Se atingir diretamente a Florida, poderá haver um nível de destruição como não temos visto desde que o Andrew destruiu o condado de Miami-Dade em 1992. É por isso que não podemos atrasar as coisas e temos que nos preparar para um impacto direto agora", disse Rick Scott. O presidente dos EUA, Barack Obama, anulou uma ida à Florida para uma ação de campanha da candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton.

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