Macron tenta solução para caos que Sarkozy ajudou a criar na Líbia

Presidente francês foi o anfitrião da reunião do primeiro-ministro líbio, reconhecido pela ONU mas com pouco poder além de Tripoli, e do líder militar que controla o Leste do país

Nicolas Sarkozy esteve na linha da frente da intervenção militar da NATO que em 2011 ajudou à queda do ditador líbio Muammar Kadhafi, que antes recebera de braços abertos em Paris. François Hollande tentou resolver o caos no qual o país caiu, mas a sua melhor tentativa falhou em 2016, quando nas negociações em França não esteve nenhuma das fações que controlam a Líbia. Agora é a vez de Emmanuel Macron tentar pôr fim a uma crise que trouxe milhões de refugiados para as costas europeias e alimentou a ameaça terrorista. Resta saber se o presidente francês terá sucesso onde os antecessores falharam.

Menos de três meses depois de ter sido eleito, Macron foi o anfitrião de um encontro em Paris em que anunciou a promessa de eleições para a próxima primavera e um cessar-fogo entre os dois principais atores do conflito. De um lado, Fayez al--Sarraj, o líder do governo de Acordo Nacional criado após a assinatura dos acordos de Skhirat (Marrocos) e apoiado pelas Nações Unidas. Sediado em Tripoli, o seu controlo não vai muito além da capital. Do outro, o marechal Khalifa Haftar, que acumula vitórias militares à frente do Exército Nacional Líbio e controla grande parte do Leste do país. É lá que está o Parlamento de Tobruk, eleito em junho de 2014, que não reconhece o governo.

"Existe legitimidade política. Está nas mãos de Sarraj. Existe legitimidade militar, a do comandante Haftar. Eles decidiram atuar juntos. Eles têm a legitimidade de reunir à sua volta todos os que querem fazer parte do processo de reconciliação", disse Macron. É a primeira vez que Haftar, apoiado pelo Egito e pelos Emirados Árabes Unidos (e a aproximar-se da Rússia), é recebido por um líder ocidental. No mandato de Hollande, o Ministério dos Negócios Estrangeiros era contra cooperar com ele, ao contrário do titular da pasta da Defesa, Jean-Yves Le Drian, que agora é o chefe da diplomacia.

Nos arredores de Paris os dois líbios concordaram que "a solução para a crise só pode ser política e passa por um processo de reconciliação nacional associado a todos os líbios". Sarraj e Haftar, que já se tinham reunido em Abu Dhabi em maio, defendem a organização de eleições "o mais rapidamente possível" e comprometem-se num cessar-fogo e a abster-se de qualquer recurso à força, exceto no que respeita à luta antiterrorista. Também apelam à desmobilização das milícias que atuam no país, assim como à criação de um exército regular.

Mas nem todos estão satisfeitos com a intervenção francesa, em especial a ex-potência colonial. Itália tem liderado os esforços de paz no país de onde partem muitos dos migrantes que chegam à sua costa. Ontem, em Roma, Sarraj aceitou que barcos italianos patrulhem as águas territoriais líbias. "Existem demasiadas questões sobre a Líbia, demasiados mediadores, demasiadas iniciativas... Precisamos de combinar os nossos esforços e focá-los no [enviado especial da ONU para a Líbia, Crispian] Salamé", disse ao jornal La Stampa o chefe da diplomacia italiana, Angelino Alfano.

"É um processo que é essencial para a Europa toda, porque se não tivermos sucesso, por causa do risco de terrorismo e das consequências migratórias que um tal falhanço implicaria, as consequências sobre os nossos países são diretas", reagiu Macron. A preocupação francesa (e internacional) com a Líbia surge por receio de que, face às derrotas no Iraque e na Síria, o Estado Islâmico possa aproveitar a ausência de poder na Líbia para ganhar terreno. Em junho de 2015, o grupo conquistou assim Syrte, sendo a cidade libertada só em dezembro de 2016.

Depois de anos de isolamento por causa dos atentados de Lockerbie (1988) e do voo 772 (1989), que fizeram 440 mortos, a Líbia voltou aos cenários internacionais graças ao apoio à guerra contra o terrorismo, no rescaldo dos ataques do 11 de Setembro de 2001. O reforço das relações entre França e Líbia (que tem as maiores reservas de petróleo de África) dá-se em 2007, após Sarkozy enviar a então primeira-dama, Cécilia, para negociar a libertação de cinco enfermeiras e de um médico búlgaros condenados à morte pela contaminação de criança com VIH.

As portas de Paris foram então abertas a Kadhafi, que estava no poder desde 1969 e que viajou para a capital francesa numa visita de Estado com uma comitiva de 400 pessoas. A Primavera Árabe que se espalhou pela região em 2011 e a guerra civil reativaram as críticas contra Kadhafi, com Paris, Londres e Washington a assumirem a liderança para o derrubar. A guerra civil e as divisões duram até agora.

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