"Macron tem carisma e uma verdadeira convicção europeia"

No seu gabinete na embaixada de França em Lisboa, Jean-Michel Casa diz ter sentido alívio ao saber da vitória de Emmanuel Macron.

Europeísta convicto, o embaixador garante que o novo presidente tem propostas para uma UE "mais dinâmica e mais virada para o emprego e crescimento".

As primeiras reações à vitória de Emmanuel Macron foram de alívio. A sua também foi?

Sim. Foi um Ouf! pessoal. Como representante da França, tenho um certo dever de reserva, mas como cidadão, foi um Ouf! de alívio por esta vitória da democracia. Tenho vontade de recuperar as palavras do presidente português para dizer que foi uma votação "formidável", que encarna a democracia, o estado de direito, os valores fundamentais da França. A Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Tudo o que é a França das Luzes, esses ideais que a França sempre quis partilhar com o mundo. Foi também um Ouf! de alívio porque sou, eu próprio, por convicção pessoal, muito pró-europeu e é uma satisfação enorme ver eleito de forma triunfal o candidato que era mais pró-europeu. Claramente com uma vontade de devolver à França todo o seu lugar na Europa. Não fui eu que usei a expressão, foi o ministro dos Negócios Estrangeiro alemão, foi o comissário português Carlos Moedas, que esta manhã dizia que a França pode recuperar o seu lugar no centro, no coração da Europa. E não é uma imagem geográfica, mesmo se geograficamente França fica no centro da Europa, é também uma imagem política. É muito importante que França, que foi a inspiradora, em grande parte, da construção europeia, que foi um dos membros fundadores, tenha um papel central. Não um papel exclusivo. Mas um papel de líder nas ideias. E esse é claramente o desejo de Emmanuel Macron.

Não é uma coincidência ele ter chegado à pirâmide do Louvre ao som do Hino à Alegria, o hino europeu?

Não. Não foi uma coincidência. Acho que a Europa foi a melhor coisa que fizemos nas últimas seis décadas. Apesar dos seus defeitos, das suas imperfeições - há coisas que podem ser melhoradas. Para pessoas que estão convencidas que a Europa é o bem da França e que França está no coração da Europa, aqueceu-nos o coração ver Macron avançar sozinho, em direção ao seu destino, ao som do Hino à Alegria. Não é só o hino europeu, é um hino à alegria. É todo um símbolo.

Num momento em que há tantos desafios à UE, crise migratória, brexit, uma França forte no eixo franco-alemão é mais importante do que nunca?

Claro. O que celebramos hoje também em França, e Emmanuel Macron esteve esta manhã no Arco do Triunfo, é a vitória sobre o nazismo. Há uma coincidência formidável destas três datas: a eleição de Emmanuel Macro, a celebração entre o presidente cessante e o presidente eleito, da vitória contra o nazismo a 8 de maio 1945 e [hoje] o Dia da Europa. O Dia da Europa é o quê? É antes de mais uma iniciativa francesa de reconciliação com a Alemanha e a partir daí criou-se o núcleo de uma Europa de paz, de prosperidade que se alargou. E há ainda os que não puderam estar entre os membros fundadores. Estou a pensar em Portugal ou Espanha porque a situação política era diferente mas que têm o seu lugar na Europa de amanhã - mais integrada, mais ativa. Sim, há muito trabalho a fazer numa Europa que pode fazer mais. Está no programa de Emmanuel Macron [pega no programa]. Não estou aqui para fazer propaganda mas li-o, claro, e há todo um enorme capítulo dedicado à Europa. Era o único candidato a ter um capítulo tão importante dedicado à Europa, com muitas propostas para uma Europa mais ativa, mais dinâmica, mais virada para o emprego e o crescimento. Com a ideia de um orçamento e de um ministro das Finanças da zona euro, de um orçamento para o investimento.

Acha que vai ser fácil fazer avançar essas ideias numa Europa tão dividida como ela está?

Nada é fácil na União Europeia. Mas o que é importante é ter pessoas determinadas, pessoas carismáticas. E Emmanuel Macron tem carisma, tem preparação, tem dinamismo e uma verdadeira convicção europeia. Conheço-o um pouco pessoalmente, cheguei a trabalhar com ele. E sei que é um europeu com convicções profundas.

Trabalhou com ele quando era ministro da Economia?

Quando era ministro e antes, quando era conselheiro e secretário-geral adjunto do Eliseu.

Enquanto embaixador em Lisboa, que conhece pessoalmente Macron...

Um pouco...

Acha que Portugal pode esperar uma cooperação ainda maior com a França?

Sim. Já há uma grande cooperação. Sobretudo desde que António Costa está no poder, mas também com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Foi muito simbólico o presidente e o primeiro-ministro terem ido celebrar o Dia de Portugal em França no ano passado. Foi um gesto formidável para celebrar a amizade franco-portuguesa, a importância da comunidade portuguesa de França e esta ligação tão forte que temos na Europa. Por isso, já temos posições próximas. Mas se lermos o programa de Macron é impressionante como as suas ideias se aproximam das ideias do governo português. Para aprofundar a zona euro, para completar a integração monetária pela integração económica e monetária. Mais Europa social para haver mais convergência económica, para termos instrumentos para essa convergência. Por exemplo para termos os meios para um orçamento de investimento europeu, uma zona euro mais unificada com um ministro das Finanças. Veremos que personalidade. Depois da vitória de Macron - que foi uma formidável vitória da democracia, uma formidável avanço para a Europa - estou extraordinariamente otimista quanto à relação de Portugal e França na Europa. E para fazer avançar a Europa. Precisamos mais do que nunca de sermos aliados. Todos os países que partilham a mesma visão: a França, Itália, Espanha e, claro, Portugal. Mas também queremos agir em parceria com os nossos amigos alemães. Sem França e a Alemanha nada é possível.

É a famosa locomotiva europeia...

É um motor. E é preciso que França e Alemanha falem. Não estão sempre de acordo, espontaneamente. Mas quando falam, conseguem aproximar as posições e assim ultrapassar os obstáculos. Mais precisamos de toda a gente. E em particular deste novo grupo que se criou nos últimos meses e que junta os países do Sul da Europa, que partilham uma mesma visão.

O primeiro telefonema de Macron para um líder foi para Angela Merkel...

É normal.

A primeira visita será a Berlim, já foi anunciado, mas Macron também já disse que quer visitar as tropas francesas. Só não disse onde.

Não, mas podemos imaginar que será às tropas francesas que se encontram envolvidas na luta contra o terrorismo. É um segredo da Defesa e o local será mantido secreto até ao último momento, mas podemos imaginar vários locais onde há tropas francesas no terreno a lutar contra o terrorismo. Estou a pensar por exemplo na zona do Sahel. Mas não estou a dar indicações que não tenho.

Com Macron podemos esperar uma França mais europeia, mas também uma França com um papel mais relevante no mundo?

O que foi marcante nesta campanha, e sobretudo durante o debate da semana passada, foi a diferença entre Macron e a outra candidata. A candidata que perdeu. Ele foi muito claro sobre as suas diferenças, sobre a vontade que tem de fazer a França desempenhar o seu papel no mundo. Temos uma História, um passado. E nem tudo é glorioso nesse passado, Macron falou sobre isso. Manifestou arrependimento em relação a alguns períodos da nossa História. Mas ao mesmo tempo podemos usar a expressão - que temos de ver pelo lado positivo, da "França conquistadora", não no sentido agressivo, mas uma França que reencontra o dinamismo, o otimismo, a esperança no mundo, que quer agir num mundo incerto, difícil, imprevisível. França quer ter um papel no quadro da Europa para afirmar os nossos valores a nossa civilização. Macron disse-o ontem: os franceses fizeram a escolha da civilização europeia e do respeito pela nossa herança republicana. Sem olhar sempre para o passado mas projetando-nos no futuro. Temos de ter orgulho na nossa história mas o que interessa é o que podemos fazer numa França reconciliada. Estas são palavras importantes na boca de Emmanuel Macron. Esta ideia de união dos franceses para tentar resolver os problemas da sociedade francesa. Porque há coisas que não estão bem em França.

A economia é a prioridade dessa França mais forte e unida?

Com certeza será uma prioridade. Até porque Macron é, ele próprio, uma pessoa muito competente na economia. Foi inspetor das Finanças, teve uma experiência na banca, rápida, foi depois conselheiro económico do presidente Hollande e foi ministro da Economia. Conhece a economia. E mostrou-o no debate. Mostrou a importância que dá à economia e às questões sociais. Ao mesmo tempo a vontade de modernizar, de fazer poupanças, de respeitar as nossas obrigações europeias. Não porque nos são impostas pela Europa. Temos de parar com esta propaganda insuportável da Europa que nos impõe coisas. É uma escolha que fizemos em comum, porque é preciso controlar as finanças públicas. Caso contrário, endividamo-nos e a dívida custa caro, pesa sobre as nossas crianças amanhã. É importante respeitar os critérios europeus. Macron não fez muitas promessas, ao contrário dos outros candidatos. Mas anunciou um esforço para tentar pôr as finanças públicas em ordem e ao mesmo tempo gastar mais em coisas úteis, como é o caso do investimento. Ele tem a ideia de investir mais no crescimento, mas também na formação, na luta contra o desemprego, contra as desigualdades sociais. É tudo menos um programa liberal, ao contrário do que dizem os críticos. É um programa de modernidade económica. A economia francesa precisa de respirar, de ser mais flexível, ter mais margem de manobra. Mas ao mesmo tempo tem em conta a dimensão social, todo o sofrimento de uma parte da sociedade francesa. Com uma prioridade na luta contra o desemprego maciço.

Foi uma grande vitória de Macron, mas Marine Le Pen teve mais de dez milhões de votos e prometeu renovar a Frente Nacional. Há a possibilidade de ela vir a ser a líder da oposição?

Prefiro não falar nem da candidata nem do seu partido. Não acredito nisso. Não acredito que esse partido, que é tão contrário aos ideias republicanos, possa ser o líder da oposição. Não me quero pronunciar sobre a política interna francesa, não é o meu papel. E não vou falar das legislativas. Logo se vê. Deixemos cada partido desemprenhar o seu papel e logo veremos quais os resultados. Mas não, não acredito que depois da campanha que fez essa candidata e depois do debate terrível de quarta-feira passada, após esta derrota esmagadora de ontem, não acredito que ela seja a mais qualificada para ser líder da oposição.

Sem falarmos especificamente das eleições, é mesmo assim inegável que França assistiu ao desaire dos partidos tradicionais. Vai emergir daqui um novo panorama político francês?

Vamos ver. Isso é para os partidos resolverem. Veremos como é feita a designação dos candidatos. O novo presidente desejou, como é óbvio, uma maioria. Uma maioria confirme ao seu slogan En Marche! Como embaixador não me posso pronunciar sobre as escolhas. A única coisa que posso dizer - uma vez que sou um republicano, um democrata de convicção, porque acredito na estabilidade das nossas instituições - é desejável que o presidente tenha uma maioria que lhe permita governar. Para quê eleger um presidente jovem, renovador, o mais jovem da história da V República francesa, o mais jovem da nossa história se não lhe dermos uma maioria para governar.

Acha injusto que todos refiram a juventude de Emmanuel Macron?

Para mim foi uma imensa felicidade, pela primeira vez na minha vida, votar em alguém mais jovem do que eu. Acho formidável em termos de renovação da política francesa. Não é que ser jovem seja uma qualidade em si, Não é uma qualidade nem um defeito, é simplesmente um símbolo. A sua juventude e o seu programa: ambos encarnam uma renovação. Tudo o que ele disse e representou: a audácia, a esperança, o otimismo, a visão do futuro, olhar para a frente. Claro que há problemas em França, pessoas que sofrem. E é preciso resolver isso. E Emmanuel Macron tem vontade de resolver isso. Mas quer fazê-lo sem pessimismo, sem essa visão fatalista de uma França em declínio.

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