"Lenine não matava bolcheviques, ao contrário de Estaline"

No dia em que se assinala o 150.º aniversário do nascimento de Lenine, o DN republica a entrevista a Orlando Figes, historiador britânico autor de A Tragédia de Um Povo. Uma conversa sobre a Revolução Russa de 1917.

Professor no Birkbeck College da Universidade de Londres, Orlando Figes é um reputado investigador da história da Rússia. Publicado primeiro em 1996, este seu A Tragédia de Um Povo - A Revolução Russa 1891-1924 foi agora editado pela Dom Quixote com um prefácio que fala de Putin e da Rússia de hoje. Figes, que é contra o brexit e acumula agora com o passaporte britânico o alemão (mãe era uma refugiada judia), falou com o DN em Lisboa.

O seu livro tem como título A Tragédia de Um Povo. Quão trágica foi para o povo russo a Revolução de Outubro de 1917, de orientação comunista?
Em relação às suas consequências a longo prazo foi muito trágica. Se pensarmos que essa revolução levou aos anos de Estaline, à Guerra Fria e ao isolamento do povo russo da civilização europeia de que antes fazia parte, foi de facto muito trágica. Mas a razão por que falo de tragédia é também no sentido grego de drama, das consequências de atos que não eram previsíveis. Como um conjunto de ideias que quando implementadas e em choque com a realidade trazem consequências que as pessoas não esperam. Quis transmitir um sentido da revolução como um período de caos.

Sei que é um historiador e não um futurólogo, mas mesmo assim pergunto-lhe se acha que seria possível outro caminho para a Rússia sem ser o bolchevique, mesmo admitindo que o fim do czarismo fosse inevitável. Por exemplo, com Kerensky a ser capaz de implantar uma espécie de democracia no seguimento da Revolução de Fevereiro.
Sim, é muito fácil imaginar caminhos alternativos. Acredito que não havia inevitabilidades em 1917. Não era obrigatório que o resultado fosse a ditadura bolchevique. Havia até a possibilidade de surgimento de uma democracia com base nos sovietes. Houve momentos em 1917, durante a conferência democrática em meados de setembro, em que uma coligação governamental socialistas podia ter surgido, evoluindo para uma espécie de estrutura de poder dos sovietes provavelmente com uma Assembleia Constituinte, que por sua vez poderia ter conduzido a Rússia para um sistema diferente. Este teria de ser improvisado. Provavelmente haveria uma guerra civil, mas não na escala que aconteceu mesmo. Tudo isto teria sido possível se não fosse Lenine e o seu constante apelo para a tomada do poder pelos bolcheviques. E, claro, houve o erro fatal dos socialistas revolucionários e dos mencheviques de abandonarem o congresso dos sovietes, o que permitiu aos bolcheviques tomar o poder sob a capa da legitimidade dos sovietes. Tudo poderia ter sido diferente mesmo, bastava Lenine ter sido preso.

Lenine foi decisivo?
Absolutamente.

Ou seja, mesmo sendo uma revolução um fenómeno das massas, foi o tipo de situação em que um homem só pode fazer toda a diferença?
Absolutamente. Se tirarmos Lenine da equação, mesmo depois da decisão de 10 de outubro do comité central bolchevique para uma insurreição, não era claro quando a tomada do poder aconteceria. A 24, Trotski ainda dizia em Petrogrado, apesar de tantos mobilizados, que estavam só a defender Petrogrado para que o congresso dos sovietes pudesse realizar-se. Se pensarmos nisto tudo, é só no momento em que Lenine deixa de se esconder e atravessa Petrogrado com a sua peruca e é confundido pela polícia de Kerensky com um bêbedo inofensivo que, passando essa barreira, se junta às forças bolcheviques que lançam a insurreição. Se o tivessem prendido, a proposta do menchevique Martov para um governo dos sovietes teria sido aprovada e teria havido um governo de coligação socialista, com mencheviques, bolcheviques, socialistas revolucionários. Lenine estaria numa ala extrema dessa coligação, se é que faria sequer parte dela. Kamenev e Zinoviev teriam ocupado o terreno central e poderia haver um governo popular baseado nos sovietes. E mesmo depois da tomada do poder pelos bolcheviques, muitos trabalhadores, organizados pelos ferroviários, protestaram, dizendo que queriam antes uma coligação socialista.

Falando do subtítulo do livro, o fim da Revolução em 1924 é óbvio, por ser o ano da morte de Lenine. Mas 1891 para início porquê? Por causa da grande fome?
Quando se começa a fazer a história da Revolução de 1917, parece sempre possível recuar e recuar, mas para mim 1891 é um bom ponto de partida porque essa grande fome, que matou milhões de pessoas, realmente politizou a sociedade russa, num tempo em que muita gente exigia já mais representação, mais direitos políticos, e o regime, com Alexandre III e depois com Nicolau II, caminhava no sentido de mais autocracia, quase num sentido medieval.

Seria possível ver no assassínio de Alexandre II, um czar reformista, em 1881, os fundamentos dessa reviravolta autocrática do filho e depois do neto?
Sem dúvida. E o livro poderia ter começado aí. O assassínio de Alexandre II provoca uma série de contrarreformas, e logo numa época, os anos 1870 e 1880, em que se começava a debater a necessidade de uma Constituição e a Rússia poderia ir numa direção mais europeia.

Faz sentido para si a velha diferenciação entre a União Soviética de Lenine e a construída por Estaline, de 1924 até à sua morte, em 1953?
É mesmo um velho debate. A minha visão é que as estruturas básicas que se vão notar durante a época de Estaline foram montadas por Lenine: a ditadura, a polícia política, o terror de massas, o culto do líder, enfim todos os elementos básicos. Mas Estaline é uma forma hipertrofiada disso. E, claro, há elementos da política de Estaline que Lenine nunca teria autorizado: primeiro que tudo, não se matava bolcheviques. Discutia-se, usava-se truques sujos, proibia-se fações, mas não se matava bolcheviques, só outros. E Lenine também nunca teria permitido a coletivização da forma como fez Estaline. Era suposto ter sido voluntária e não matando os camponeses que resistiam a ela.

Olhando para a Rússia cem anos depois da Revolução Bolchevique, vê em Putin hoje mais um herdeiro do czarismo do que da União Soviética?
Não vejo uma clara ideologia em Putin, sendo certo que existe, sim, o putinismo. É uma espécie de mélange pós--moderna, uma mistura de várias ideologias. Há certamente uma dose de sovietismo, também nacionalismo russo em forte medida, eslavofilismo, imperialismo russo, um pouco de Pedro, o Grande, um pouco de Stolypin, até de Ivan, o Terrível.

E vê uma continuidade com a história russa em Putin?
Lembro-me que na sua primeira campanha em 2000 havia um mapa da Rússia em branco, azul e vermelho. E nele surgiam as cabeças de toda a gente da história russa: Pedro, o Grande, Nicolau II, Lenine e Estaline, estava lá também Tolstói. E é assim que o regime de Putin se situa a si próprio. Um pouco mais cruamente, pode-se dizer, basicamente, que hoje a história russa é uma linha entre Pedro, o Grande e Putin.

Mas incluindo todos no meio, até os comunistas?
Sim, penso que sim. É nacionalismo no essencial, e o nacionalismo sempre reclama como seu tudo o que é positivo do passado. O problema é que não pode reclamar nada da Revolução como positivo. O que se pode aproveitar de 1917? Muito pouco. Já não há internacionalismo comunista nem nenhum grande feito da União Soviética que possam reclamar.

Talvez a vitória na Segunda Guerra Mundial?
Sim, basicamente é isso. O fundamento da identidade nacional russa é agora terem derrotado os alemães na guerra.

Publicado originalmente a 27 de outubro de 2017

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