Já imaginou pôr 900 milhões de pessoas a votar? Leva mais de um mês

Eleições indianas decorrem de 11 de abril a 19 de maio. Para que se cumpra a regra de um homem um voto. É mesmo a maior democracia do mundo.

É tudo em grande na Índia, sabe bem quem já lá foi. Por exemplo, o maior estado, o Uttar Pradesh, com 200 milhões de habitantes, se fosse um país estaria a disputar com o Brasil o estatuto de quinto do mundo. Tem também a Índia meia centena de cidades com mais de um milhão de pessoas. E duas delas, Deli e Mumbai, com mais de dez milhões.

São números impressionantes que, notarão alguns, só na China existem parecidos. É verdade para o caso, por exemplo, da abundância de cidades superpopulosas. Mas se as demografias indiana e chinesa têm muito em comum, há uma diferença essencial, a extrema diversidade étnica da primeira perante a relativa homogeneidade da segunda (90% dos 1400 milhões de chineses são han e a forma escrita do mandarim é entendida por todos). Na Índia, além da chamada Faixa do Hindi, que inclui estados como o Uttar Pradesh que falam o idioma oficial, há que ter em conta os bengalis, os tâmiles, os punjabis, os marathas, os caxemires e por aí fora.

E se na China as religiões tradicionais são as mais praticadas, a Índia consegue, apesar dos 80% ou mais de hindus, ter cerca de 200 milhões de muçulmanos, 30 milhões de cristãos e 20 milhões de sikhs. Só para se perceber melhor estes números impressionantes relativos às minorias religiosas, a Índia está hoje entre os três ou quatro países do mundo com mais muçulmanos.

Os números e a diversidade somados explicam a opção dos pais fundadores da moderna Índia por um sistema democrático desde o início da luta contra o colonialismo britânico. Tanto o Mahatma Gandhi como Jawaharlal Nehru, o primeiro-ministro que proclamou a independência a 15 de agosto de 1947, ou Sardar Patel, o seu número dois, eram advogados influenciados pelas leis britânicas, mas percebiam também a realidade de uma Índia muitas vezes chamada de Estado-civilização. E lutaram até ao fim para evitar a partição que deu origem ao Paquistão, criado como pátria para os muçulmanos da Índia, mas que em 1971 viu a sua metade oriental tornar-se o Bangladesh, prova de que só a religião não era cimento suficiente.

É tido como um lugar-comum dizer que a Índia é a maior democracia do mundo. Mas é verdade. E mesmo que a China num futuro mais ou menos distante abandone o sistema de partido único, os indianos manterão o título pois dentro de uma década passarão a ter o mais populoso país.

É também verdade porque não se trata apenas do formalismo de votar. Quem já viu uma sessão do Lok Sabha a funcionar pode testemunhar a liberdade de tom dos deputados, quem já folheou um jornal como o The Times of India sabe como podem ser duras as críticas aos governantes, quem já assistiu à sociedade civil em protesto sabe como esta é capaz de fazer tremer o mais poderoso dos primeiros-ministros. E há ainda um admirável sistema judicial.

Mais um mandato para o nacionalista hindu Narendra Modi ou uma oportunidade para Rahul Gandhi, bisneto de Nehru, liderar um governo do Congresso? São 900 milhões os eleitores e desde 11 de abril estão a votar, mas as urnas só fecham a 19 de maio. Uma logística tremenda para garantir que a regra é mesmo um homem um voto.

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