Itália reabre o debate: e se confinarmos apenas os maiores de 70 anos?

Vários presidentes regionais italianos pedem uma estratégia focada na proteção dos mais vulneráveis no combate à pandemia de covid-19.

A ideia remonta ao pico da pandemia na primavera, mas acabou por ficar na gaveta da maioria dos países europeus: confinar apenas os maiores de 70 anos. Agora, o debate sobre a implementação dessa estratégia foi reaberto em Itália, onde vários presidentes regionais pediram ao primeiro-ministro Giuseppe Conte para o fazer.

Em causa, estão os números de internamentos e mortes provocados pela disseminação do vírus num país em que 17 dos 60 milhões de habitantes têm mais de 60 anos.

Alguns presidentes regionais, como os de Piemonte, Lombardia e Ligúria, queriam limitar a mobilidade apenas a pessoas com mais de 70 anos. O presidente da região da Ligúria, Giovanni Toti, assumiu a liderança nesta hipótese, com uma explicação muito criticada. "Os nossos idosos são os mais afetados pelo vírus e são os que mais precisam de ser protegidos. São pessoas que não são essenciais para o esforço produtivo do país. Por que não há ação nesta faixa etária? Seria uma loucura fechar em casa tantos italianos para quem a covid costuma ter consequências menores, bloquear a produção do país, parar a escola e o futuro dos nossos jovens e não cogitar qualquer intervenção sobre quem realmente se arrisca", atirou.

A proposta de Toti, feita nesta segunda-feira, foi ilustrada pela estatística da região que lidera. "Só ontem [domingo], 22 das 25 mortes na Ligúria foram idosos", frisou o governante daquela que é a região mais envelhecida da Europa, com 28,5% da população com mais de 65 anos. No entanto, não escapou a críticas ferozes, especialmente por ter descrito os idosos como "não indispensáveis".

Um dos mais críticos foi o jornalista Selvaggia Lucarelli, que lembrou que "um dos muitos velhos" é precisamente Silvio Berlusconi, 83 anos, que empregou Toti como jornalista e apresentador num dos canais da cadeia de televisão Mediaset e o lançou politicamente na Forza Italia.

Perante a polémica possibilidade, o primeiro-ministro Giuseppe Conte preferiu não fazer nenhuma referência ao tema no seu discurso de segunda-feira no Parlamento, quando explicou as novas medidas restritivas. Sobre os idosos, limitou-se apenas a homenageá-los. "Entre os grupos mais vulneráveis, o governo também considera os idosos, são nossos entes queridos, os nossos pais e os nossos avós, que permitiram que o nosso país vivesse o milagre económico", destacou o primeiro-ministro, que sublinhou que os idosos estarão na linha da frente das prioridades quando surgir uma vacina.

Os técnicos do governo italiano já tinham proposto confinar apenas os maiores de 60 anos em abril, mas enfrentaram grandes protestos. Mais de uma centena de escritores, filósofos, historiadores e poetas expressaram a sua rejeição "à possibilidade de uma restrição da liberdade pessoal, tentando manter um grupo de pessoas ainda ativo, saudável e capaz de ainda dar contribuições valiosas para a sociedade, em segregação indefinida, apenas com base em dados pessoais, de pertencer a uma faixa etária superior a 60 anos".

Itália registou mais 22 mil casos e 233 mortos na segunda-feira

Itália registou 22 253 novos contágios de covid-19 e 233 óbitos nas últimas 24 horas, anunciaram as autoridades italianas.

A redução de novos casos positivos tem sido normal às segundas-feiras, uma vez que se realizam menos testes ao domingo - efetuaram-se 235 000 testes, contra os 183 000 de sábado.

No total, desde o início da pandemia, em meados de fevereiro, Itália contabilizou 731 588 casos de contaminação com o novo coronavírus, tendo-se registado 39 059 mortes.

A pressão hospitalar no país continua cada vez maior, e dos atuais 296 512 pacientes, 21 862 estão hospitalizados (mais 1021 do que no domingo) e 2022 estão internados em unidades de cuidados intensivos (mais 83).

Com estes números, o primeiro-ministro de Itália, Giuseppe Conte, indicou que vai impor o recolher obrigatório a nível nacional a partir das 22.00, já em vigor nalgumas comunidades, ou a partir da meia-noite, noutras.

Temporariamente, aos fins de semana, serão igualmente encerrados museus, salas recreativas e centros comerciais.

O decreto, que se aguarda que seja aprovado na quarta-feira, definirá três áreas de risco e aplicará restrições mais ou menos severas numa determinada região em função dos dados epidemiológicos.

Nesse sentido, prevê-se que as restrições mais severas recaiam sobre algumas das cidades mais afetadas atualmente pela pandemia, como Milão, Turim e Génova.

O virologista italiano Andrea Crisanti, conhecido por ter conseguido travar a propagação do novo coronavírus na região de Veneto na primeira vaga da pandemia, defendeu hoje que o encerramento nas zonas de maior contágio "é importante" porque vai ajudar a reduzir a transmissão de covid-19.

Numa conversa com representantes da imprensa estrangeira em Itália, Crisanti admitiu que se poderá chegar ao Natal com "um nível baixo de contactos", embora tenha salientado que, sem um sistema de vigilância ativa e sem soluções para a consolidar, os números poderão voltar a aumentar.

"Agora, as medidas de confinamento são o mais importante para travar a propagação e consolidá-la. Depois, deverá definir-se um novo confinamento geral de três a seis semanas para conseguir baixar os novos casos. Nenhum sistema de vigilância pode funcionar com um número de contágios muito grande", defendeu.

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