Irlanda: Kenny pede reeleição para evitar crise política à portuguesa

PM irlandês pede que coligação conservadora-trabalhista seja hoje reconduzida. Sondagens não lhe dão maioria absoluta

Foi o seu governo que fez o país sair do resgate da troika sem precisar de programa cautelar e o colocou na via do crescimento económico, por isso, agora, os irlandeses devem reeleger a coligação que lidera para não pôr em causa a economia e o trabalho que foi feito. Esta tem sido a mensagem frequentemente repetida pelo primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny, para tentar convencer os 3,2 milhões de eleitores que hoje são chamados às urnas a renovar a confiança na coligação Fine Gael-Labour. Para isso usou mesmo o exemplo de Portugal, dizendo que as pessoas estão a pagar "um preço horrendo" por causa da instabilidade política. "Agora não é o momento de assumir riscos na economia da Irlanda", declarou o chefe do governo conservador-trabalhista.

No mesmo sentido falou o ministro das Finanças irlandês, Michael Noonan, também ele membro do Fine Gael. "Olhem para a Grécia, para Portugal, olhem para a Espanha. Assim que a instabilidade política começou seguiu-se a instabilidade económica." Os receios de uma crise política expressos pelos governantes do maior partido da coligação que governa a Irlanda (o Fine Gael aliou-se ao Labour em 2011) prendem-se com os dados das sondagens. Estas apontam para que ambas as formações políticas fiquem aquém da maioria absoluta necessária para oferecer um governo estável ao país (84 deputados num total de 166). Atualmente o Fine Gael e o Labour têm 99 deputados em conjunto. Em termos percentuais, conservadores e trabalhistas somam 34% das intenções de voto, segundo a última sondagem Irish Times - Ipsos MORI. Nas eleições legislativas de 2011 tiveram, juntos, 37,4%.

Cenários de coligação

Perante estas projeções, é de esperar o que no mundo anglo-saxónico se chama hung parliament - um Parlamento em que nenhum partido ou combinação de partidos tem maioria absoluta. "Não é de excluir a subida [de um partido] à última hora. Mas a expectativa é de um hung parliament ou de uma qualquer espécie de entendimento entre o Fine Gael e o Fianna Fáil", disse à Reuters David Farrell, professor de Ciência Política na University College Dublin.

Uma eventual grande coligação entre o Fine Gael de Enda Kenny e o Fianna Fáil (partido de centro--esquerda atualmente liderado por Micheál Martin) representaria uma aliança sem precedentes entre os herdeiros dos dois lados que se opuseram durante a guerra civil na Irlanda em 1922 e 1923.

Outro cenário possível, mas muito pouco provável, seria o de uma aliança entre um dos dois maiores partidos e o Sinn Féin. No debate televisivo de terça-feira à noite, no canal RTE, o líder deste partido, Gerry Adams, apelou a "um levantamento pacífico" dos eleitores irlandeses para arredar do poder o Fine Gael e o Fianna Fáil. Este último era o partido que estava no poder quando a Irlanda pediu o resgate à troika, em 2010.

"Temos uma oportunidade histórica, é o centenário [da Revolta da Páscoa] de 1916 e temos uma oportunidade real de um levantamento [popular] pacífico na sexta-feira", vincou o negociador do acordo de paz da Irlanda do Norte. O Sinn Féin advoga a união entre aquela província autónoma do Reino Unido e a República da Irlanda. Embora já não o faça apoiando a via da violência.

Enda Kenny, por seu lado, retorquiu vincando que estas eleições "são sobre o futuro, sobre a quem se pode confiar esse futuro". A líder do Labour, Joan Burton, pediu aos eleitores que "pensem duas vezes". Do lado do Fianna Fáil, Micheál Martin propôs-se formar um "governo que escute as preocupações da população" e rompa com o passado "de crise em crise".

Recuperação a duas velocidades

O apelidado Tigre Celta, país escolhido por multinacionais como a Google, o Facebook ou a Microsoft para aí instalarem as suas sedes europeias, a Irlanda foi o segundo Estado da zona euro a pedir o resgate da troika, em novembro de 2010, depois da Grécia e antes de Portugal. Beneficiou de empréstimos no valor de 67,5 mil milhões de euros. Três anos depois, em dezembro 2013, tornou-se o primeiro país a sair do resgate. A economia irlandesa cresceu 7% no segundo trimestre do ano passado (a portuguesa cresceu 1,5%) e, de acordo com o ministro das Finanças da Irlanda, o défice no ano passado terá sido de 1,5% do PIB e, em 2017, será de 0,75% (em linha com o que são as exigências dos tratados da UE).

Embora esteja no bom caminho, a tal recuperação de que o primeiro-ministro irlandês fala parece não chegar a todos. E fora de Dublin, a capital da Irlanda, parece haver toda uma outra realidade. "Eu cá não vejo mudanças. Nós viajamos com frequência para Dublin e lá, realmente, vemos que as coisas estão a mexer. Mas isso contrabalança com aquilo que se vê no resto do país. As coisas são definitivamente mais difíceis aqui", garantiu à Reuters Michael Carroll, um dos habitantes da cidade de Edenderry, de 36 anos, cuja família tem ali um negócio de venda de roupa para homem.

Com uma população de dez mil habitantes, Edenderry tem uma das mais elevadas taxas de imóveis comerciais vazios em todo o país. Desde que a crise estalou, uma média de uma em cada quatro lojas encontra-se vazia. Longe da azáfama das grandes cidades, as comunidades rurais da Irlanda ainda lutam com o desemprego e veem os seus jovens emigrar. John Foley, político local que concorre a estas eleições como independente, resumiu assim a situação: "Sejamos francos. Há recuperação. Mas não é na Irlanda rural. As pessoas nas pequenas cidades não a sentem. Fomos deixados para trás."

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